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Marco de Canaveses
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Fé, Futebol e Resiliência: Hamed Doukoure e o desafio de viver o Ramadão no Marco 09

Conciliar as exigências físicas do futebol profissional com o rigor do jejum não é tarefa para qualquer um. No Marco 09, clube do concelho do Marco de Canaveses, o atleta Hamed Doukoure, de 24 anos e nacionalidade costa-marfinense-maliana, vive atualmente este duplo desafio.

Redação

 Longe de casa e da família, o jogador abre o coração sobre o que significa observar o Ramadão enquanto compete ao mais alto nível, provando que a força mental e o apoio estrutural são as chaves para o sucesso.

Para a maioria dos adeptos, o futebol mede-se em golos, táticas e resistência física ao longo de 90 minutos. Mas para Hamed Doukoure, as quatro linhas cruzam-se atualmente com um período de profunda devoção e sacrifício espiritual.

"Em primeiro lugar, o Ramadão é um dos cinco pilares do Islão e, para muitos muçulmanos, é um período de purificação, reflexão, conexão consigo mesmo e com os outros, bem como de compaixão", começa por explicar o jovem atleta de 24 anos. Mais do que uma privação física, Hamed descreve este mês sagrado como "um tempo para se recentrar, cultivar a gratidão e aproximar-se o mais possível de Deus".

A saudade de casa e o valor da gratidão

Apesar da elevação espiritual, o lado humano do jogador não esconde a dificuldade da distância. A saudade agudiza-se num mês tradicionalmente marcado pela união. "Na verdade, não é fácil viver este período longe da comunidade e dos entes queridos, pois estamos habituados a quebrar o jejum com a família e a comunidade, seguido da oração em grupo", confessa.

Hamed admite que a experiência "é muito melhor com os entes queridos" e que a partilha familiar é "um dos melhores momentos do Ramadão". O facto de estar a vivê-lo sozinho em Portugal é um peso, atenuado apenas pela sua fé: "No entanto, o mais importante é o ato de adoração".

É precisamente através destes atos de adoração, como a oração e a caridade, que o atleta ganha uma nova perspetiva sobre o mundo que o rodeia. A privação voluntária traz clareza. "Este mês também permite ver as coisas de forma diferente. Percebe a graça e a misericórdia de Alá sobre si através do simples ato de comer e beber todos os dias", reflete, acrescentando uma valiosa lição de humildade: "E isso ajuda-o a compreender que precisa de parar de se queixar a toda a hora, porque existem pessoas que não têm essa graça toda."

O impacto no corpo e o apoio fundamental do Marco 09

No desporto de alto rendimento, o corpo é o principal instrumento de trabalho. Como é que um jogador lida com a ausência de alimento e água durante o dia?

"É um grande sacrifício", admite Hamed, sem rodeios. "A primeira semana é um pouco difícil enquanto o corpo se adapta, mas diria que o meu corpo está a reagir bem com o passar dos dias. Sinto-me ainda melhor física e mentalmente, porque é também um desafio mental."

Para que esta adaptação seja bem-sucedida, o papel do Marco 09 tem sido crucial. O jogador faz questão de enaltecer a estrutura do clube: "Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer às equipas técnica, médica e de nutrição do clube, porque todos me apoiaram durante este período. Treino com o grupo; tenho um plano de treino específico que sigo à tarde, e também tenho um plano nutricional."

A gestão pragmática nos dias de jogo

Embora a fé seja um motor poderoso, a realidade das competições obriga a escolhas pragmáticas. O ritmo intenso dos jogos dita as regras. "Com a intensidade das partidas, não é nada fácil jejuar para jogar, especialmente nas horas em que jogamos", explica o atleta.

Por isso, Hamed adota uma postura de enorme responsabilidade para com a sua equipa: "Pessoalmente, nos dias de jogo, não jejuo porque não conseguiria render 100% fisicamente, mas preciso de compensar todos os dias que perco depois do Ramadão."

Sobre o eterno debate entre a capacidade física e a vontade anímica, o atleta é realista. "É verdade, é um período em que se sente mentalmente mais forte. Sinceramente, não posso afirmar com certeza se a fé pode compensar a perda de energia física; como se costuma dizer, cada um conhece o seu próprio corpo. Já joguei partidas em jejum e sei o que senti."

A curiosidade no balneário e a mensagem final

Num balneário, o choque cultural dá muitas vezes lugar à partilha. A rotina exigente de Hamed não passa despercebida aos colegas de equipa no Marco 09. "Os outros jogadores questionam-se como consigo lidar com este desafio; noto o espanto, a admiração e até muita curiosidade deles", revela.

Para Hamed Doukoure, a sua experiência serve como prova de que as crenças pessoais e o desporto profissional podem caminhar lado a lado. "Em conclusão, posso dizer que a religião não prejudica o futebol de alto nível; só precisa de um bom apoio e da força mental necessária para ter sucesso", remata o jogador costa-marfinense-maliano, deixando um exemplo de resiliência e profissionalismo no coração do Marco de Canaveses.