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Amarante
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Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente visita Amarante e destaca "ação inédita" na gestão das barragens para evitar cheias

Na manhã deste sábado, dia 7 de fevereiro, José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), deslocou-se a Amarante para avaliar o caudal do rio Tâmega.

Redação

Numa altura em que o país enfrenta sucessivas depressões, a visita serviu para explicar a manobra de engenharia "inédita" que salvou a cidade de inundações graves e para deixar um aviso sério: a próxima terça-feira exige vigilância máxima.

O cenário meteorológico em Portugal tem sido descrito pelas autoridades como “excecional”. Com os solos completamente saturados e incapazes de reter mais água, a gestão das bacias hidrográficas transformou-se numa “luta contínua”. Foi neste contexto que Pimenta Machado chegou a Amarante, acompanhado pelo presidente da Câmara Municipal, Jorge Ricardo, para fazer um ponto de situação que, apesar dos riscos, se revelou positivo para o concelho.

Uma manobra "inédita" para salvar Amarante

O presidente da APA revelou que o controlo das águas no Tâmega envolveu uma decisão estratégica e complexa nas barragens a montante, nomeadamente no Sistema Eletroprodutor do Tâmega.

“Fizemos aqui uma ação, diria, inédita”, começou por explicar Pimenta Machado. Confrontados com a necessidade de gerir o caudal, a APA e os gestores das barragens optaram por não libertar água da barragem de Daivões para o rio, o que agravaria a situação em Amarante. “Fechámos esse grupo [em Daivões] e colocámos água nesta barragem superior, a Gouvães, que é noutra bacia, para guardar água aí e depois libertar mais tarde”.

Esta operação de bombagem, que consome energia para elevar a água a uma cota superior, foi decisiva. Segundo o responsável, se tivessem optado pela descarga normal, iriam “aumentar mais 200 metros cúbicos por segundo” no caudal, o que resultaria numa “cheia com maiores danos” na cidade de Amarante. Graças a esta gestão, e ao abaixamento preventivo da barragem do Torrão (a jusante), o rio apenas “saltou ligeiramente aqui em Amarante”, sem causar os estragos temidos.

O panorama nacional e a saturação dos solos

Apesar do foco em Amarante, Pimenta Machado traçou um retrato preocupante a nível nacional. A tempestade, que inicialmente afetou Lisboa, deslocou-se para Norte, colocando pressão sobre várias bacias. “Áreas que nos preocupam mais: o Tejo, sempre o Tejo, Mondego, a bacia também do Vouga... e a zona do Guadiana”, enumerou, destacando a monitorização “minuto a minuto” e a articulação fundamental com Espanha.

O grande desafio reside na capacidade de encaixe das barragens perante chuvas sucessivas. “À medida que acontece mais uma intempérie, a nossa capacidade de gestão diminui. Temos sempre muito pouco tempo de nos preparar para a segunda intempérie”, alertou o presidente da APA.

Para criar espaço para a chuva, foram libertados preventivamente, nos últimos 15 dias, “750 hectómetros cúbicos” de água. Para dar uma noção da grandeza, Pimenta Machado comparou: “Isto é a água que todos os portugueses consomem o ano inteiro”.

Terça-feira: A próxima "batalha"

Quando questionado se o pior já passou, a resposta foi cautelosa. “Não me faça essa pergunta que não sei responder... À medida que passa o tempo, as coisas ficam mais difíceis”, admitiu, lembrando que os solos saturados transformam qualquer chuva em escoamento imediato.

Avisinha-se agora uma “janela de tempo” entre domingo e segunda-feira para preparar as infraestruturas para a próxima depressão, prevista para “terça-feira”. A vigilância manter-se-á apertada até, pelo menos, ao dia 15 do mês.

Autarquia aliviada, mas atenta

Jorge Ricardo, Presidente da Câmara Municipal de Amarante, mostrou-se grato pela articulação com a APA, que evitou o pior cenário. “Ontem tivemos cá o Secretário de Estado do Ambiente (...) e de facto, embora sempre sobressaltados, passámos esta semana aqui com um pico na quinta-feira... mas o resto tem sido controlado”, afirmou o autarca.

O edil fez questão de deixar uma palavra de reconhecimento a Pimenta Machado pela gestão nas barragens a montante e a jusante, que permitiu que “aquilo que eram informações muito más, portanto, não acontecesse”. Confirmou que houve apenas “uma pequena transborda das águas aqui para as margens, mas efetivamente nada de significativo”.

Para os amarantinos, a mensagem de Jorge Ricardo é de serenidade vigilante. “Não entrarmos em pânico”, pediu, mas sublinhou que todos devem estar “atentos às informações da Proteção Civil”, garantindo que a autarquia continuará a informar a população e a trabalhar em conjunto com as autoridades para enfrentar os caprichos deste inverno rigoroso.