O sémen de um dador dinamarquês, portador de uma mutação genética que aumenta o risco de desenvolvimento de cancro, foi utilizado para conceber pelo menos 197 crianças em todo o mundo. A revelação foi feita hoje, quarta-feira, pela emissora pública dinamarquesa DR, no âmbito de uma investigação realizada em colaboração com outras 13 emissoras públicas europeias.
Segundo a reportagem, o dador anónimo atuava sob o pseudónimo "Kjeld" através do European Sperm Bank (ESB), um dos maiores bancos de esperma do mundo. O material biológico foi comercializado entre 2006 e 2022, chegando a 67 clínicas em 14 países.
Os alertas e a falha na deteção
O caso remonta a abril de 2020, data em que o ESB foi notificado de que uma criança, concebida através deste dador, tinha sido diagnosticada com cancro e apresentava uma mutação genética. Na altura, o banco testou uma amostra do sémen, mas o exame não revelou a presença da rara mutação no gene TP53. Consequentemente, a venda das amostras, que tinha sido suspensa preventivamente, foi retomada.
A situação alterou-se três anos depois, quando o banco recebeu nova notificação de que pelo menos mais uma criança apresentava a mutação e doença oncológica. Após a testagem de várias amostras, confirmou-se que o dador era um "portador saudável". O seu esperma foi definitivamente bloqueado no final de outubro de 2023.
Mutação rara e difícil de detetar
Em comunicado, o Banco Europeu de Sémen explicou a complexidade do caso: "A mutação específica é uma alteração rara e até agora desconhecida do gene TP53, presente apenas numa pequena fração dos espermatozoides do dador e não no resto do seu corpo".
A empresa sublinha que o próprio dador não é afetado pela doença e que a anomalia não pôde ser detetada pelos exames genéticos anteriores. Além disso, nem todas as crianças concebidas a partir desta doação herdaram a mutação.
Dados oficiais e vazio legal internacional
A Agência Dinamarquesa de Segurança do Doente adiantou à agência France-Presse (AFP) que 99 crianças nasceram deste dador após tratamentos realizados em clínicas na Dinamarca. Destas, 49 são filhas de mulheres residentes no país e 50 de mulheres residentes no estrangeiro.
O caso expõe a falta de regulamentação transfronteiriça. Embora existam limites nacionais para o número de filhos por dador (como 12 na Dinamarca ou 10 em França), não existem regulamentos internacionais que controlem o número total de descendentes que um dador pode gerar globalmente. O ESB estabeleceu, apenas no final de 2022, um limite máximo interno de 75 famílias por dador.
