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Marco de Canaveses
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Cláudia Vieira: “O cancro tirou-me muitas coisas, mas ensinou-me a dar valor ao que realmente importa”

Aos 48 anos, a marcoense partilha a sua luta contra o carcinoma lobular invasor pleomórfico. Um testemunho marcado pela persistência no diagnóstico, a força da fé, o apoio incondicional da filha e a urgência de ouvir o próprio corpo.

Redação

A história de Cláudia Vieira mudou no início de 2024. Ao realizar a autopalpação, sentiu um pequeno caroço e percebeu que algo não estava bem. Na altura com 47 anos, procurou respostas imediatas. Em março desse ano, realizou uma ecografia mamária que revelou um nódulo com cerca de dois centímetros, classificado inicialmente como um quisto de conteúdo líquido espesso, sendo-lhe recomendada apenas vigilância e repetição do exame seis meses depois.

No entanto, o conhecimento do próprio corpo falou mais alto. Ao longo dos meses seguintes, a marcoense apercebeu-se de que o nódulo continuava a aumentar e notou o surgimento de um segundo caroço. O sinal de alarme definitivo surgiu em frente ao espelho, ao levantar os braços, quando detetou uma pequena retração em forma de covinha na lateral da mama direita. Antecipar os exames tornou-se prioridade, mas a escassez de vagas na rede de saúde atrasou o agendamento até 19 de outubro de 2024, cerca de sete meses após a primeira avaliação.

Nesse mesmo dia, a gravidade da situação confirmou-se com a realização imediata de uma biópsia. O diagnóstico revelou um carcinoma lobular invasor pleomórfico, um cancro da mama de tipo hormonal cujas células se alimentavam de estrogénio e progesterona, apresentando um índice Ki-67 entre os 30 e os 40 por cento, demonstrativo de uma elevada taxa de proliferação celular. O teste genético indicou ainda que a doente é portadora da mutação BRCA2, fator de elevada predisposição para este tipo de neoplasia. Os exames de estadiamento mostraram que o nódulo principal na mama direita atingira 3,5 centímetros, acompanhado por outro de 1,9 centímetros, enquanto a mama esquerda apresentava uma área afetada de cinco centímetros, com múltiplos pequenos nódulos, sem evidência de metastização noutros órgãos.

Para o acompanhamento especializado, Cláudia escolheu o Hospital de São João, no Porto, recusando o IPO por lhe trazer a dolorosa memória da perda de uma amiga. Ali encontrou a equipa médica e de enfermagem que a acompanharia numa jornada longa e exigente. O plano terapêutico começou por 16 sessões de quimioterapia, compreendendo quatro administrações de quimioterapia vermelha quinzenais e 12 sessões semanais de quimioterapia branca. Concluída a fase sistémica, foi submetida a uma cirurgia por via endoscópica que durou cerca de dez horas: uma mastectomia bilateral total, com conservação da pele e dos mamilos e reconstrução imediata com próteses.

Seguiram-se 15 sessões de radioterapia e a resolução de um seroma tardio na mama esquerda por punção. Como medida preventiva associada à mutação genética e à natureza hormonal do tumor, realizou posteriormente uma histerectomia total, com remoção do útero, das trompas e dos ovários, entrando precocemente numa menopausa cirúrgica. Atualmente, cumpre medicação contínua e desloca-se ao hospital a cada quatro semanas para monitorização analítica e controlo de efeitos secundários.

Ao longo do processo, Cláudia aponta a fé e a família como os pilares de sustentação. A medicina tratou o seu corpo, mas a fé sustentou a sua alma, garantindo que em nenhum momento se sentisse sozinha. No plano familiar, o papel da filha, enfermeira de profissão, revelou-se determinante pela preparação técnica e serenidade, tornando-se o principal suporte emocional na rotina diária e nas idas às consultas. A este apoio somou-se a presença da mãe, de familiares próximos e de um grupo restrito de amigos.

Já reabilitada das fases mais críticas, a marcoense deixa o apelo à importância da atenção ao próprio corpo, insistindo na procura de respostas e na perda do medo de pedir uma segunda opinião. A vivência do processo clínico trouxe-lhe uma reorganização de prioridades e a capacidade de valorizar o presente, permitindo-lhe viver hoje um dia de cada vez, com esperança, leveza e uma enorme vontade de viver.