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Marco de Canaveses
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"Oiço-os e penso que são brasileiros, mas são marcoenses": O alerta de uma professora no Dia Internacional da Língua Materna

Hoje, dia 21 de fevereiro, assinala-se o Dia Internacional da Língua Materna. Longe das grandes cimeiras e dos discursos políticos, a verdadeira batalha pela defesa do nosso idioma trava-se nas salas de aula.

Redação

Em Marco de Canaveses, Clara Pires Barroso, professora do 1.º Ciclo há mais de 25 anos, lança um alerta profundo sobre uma "evolução preocupante": crianças portuguesas que chegam à escola a falar e a escrever com sotaque e vocabulário do Brasil, fruto da exposição precoce e massiva aos ecrãs.

"É a falar que a gente se entende". O ditado popular serve de mote para uma reflexão que, nas salas de aula do ensino básico, se tornou numa urgência. Clara Pires Barroso conhece bem a realidade. Leciona no 1.º Ciclo há mais de um quarto de século e tem assistido na primeira fila a uma transformação que prefere não chamar de evolução.

Para a docente, a língua não é apenas uma ferramenta de comunicação; é "a nossa construção do pensamento, serve para exprimir o que sentimos". Apoiando-se na teoria do psicólogo e pedagogo Jean Piaget, que defendia que "o pensamento vem antes da linguagem", Clara explica que a criança constrói primeiro as suas estruturas mentais. Por isso, se o meio envolvente for dotado de um "léxico recheado e estruturado", a criança crescerá com uma linguagem ampla. Mas, o que acontece quando esse meio se torna passivo, visualmente muito atrativo e, sobretudo, dominado por conteúdos digitais de influenciadores estrangeiros?

O fenómeno "Luccas Neto" e a recolha de "balas"

A resposta a essa pergunta ouve-se, literalmente, nos corredores e nas salas de aula de Marco de Canaveses. "De ano para ano, é notória a cadência sonora e a influência de léxico de origem brasileira", relata a professora. "Por vezes, oiço crianças e penso que são de origem brasileira, mas não… são portuguesas, marcoenses!!".

O fenómeno não começa no 1.º Ciclo, mas muito antes. Clara Pires Barroso nota que logo no pré-escolar já se ouve falar com sotaque brasileiro em crianças nascidas na terra. O problema agrava-se com a idade, cristalizando-se na escrita. "Alunos com 8, 9 ou 10 anos ainda escrevem 'se lembrar' em vez de 'lembrar-se'. Todos os dias é necessário corrigir expressões orais e escritas", desabafa.

Os exemplos multiplicam-se diariamente na sua secretária. "Ainda hoje corrigi uma expressão escrita: 'vamos coletar balas', quando, na verdade, a criança só queria dizer: 'vamos colecionar ou recolher rebuçados'. Coletar!!! Balas!! Ônibus!!", exemplifica a docente.

A raiz do problema, aponta, está bem identificada na sociedade moderna: os ecrãs como "babysitters" digitais. Segundo a professora, estas crianças "ficaram expostas precoce e massivamente a conteúdos de influenciadores brasileiros, cresceram com o Luccas Neto e outros 'Netos', que permitiram aos pais relaxar e entreter os filhos".

O impacto na aprendizagem e a sobrecarga das terapias

As consequências deste entretenimento passivo vão muito além de um vocabulário diferente. Clara alerta para as dificuldades estruturais que surgem depois, quando é preciso ensinar a gramática e a fonética da língua portuguesa europeia.

"Como se articula um 'ar', 'ir' como parte de sílaba final? Como se sabe utilizar o '-se' depois de um verbo, em vez de 'se' antes dele?", questiona a professora. Estas lacunas manifestam-se primeiro na expressão oral, transferem-se, mais tarde, para a expressão escrita e, de forma transversal e implícita, afetam "a interpretação do que se ouve e lê".

O resultado é um aumento das necessidades de intervenção especializada. "São necessárias as terapias da fala, de relação social e emocional, os apoios, as consultas… e tudo isto escasseia no nosso país", lamenta Clara Pires Barroso.

Identidade e não xenofobia

Consciente de que o tema levanta paixões e críticas, a docente do Marco de Canaveses faz questão de clarificar a sua posição. "Em minha defesa, e que ninguém pense que é uma defesa roçando a xenofobia, nada disso. É antes a defesa da nossa identidade, é proteger o nosso património cultural, é defender aquilo que nos distingue como uma língua que, embora minoritária, está espalhada por todo o mundo: a nossa língua materna, o português de Portugal".

É também nesta qualidade de guardiã da língua (e como "mãe não perfeita", como faz questão de sublinhar com humildade) que Clara deixa um apelo prático e direto às famílias para travarem esta tendência.

"O cérebro é uma esponja"

O conselho da professora é claro: o português defende-se em casa. "Falem com os vossos filhos, mantenham diálogos duradouros, mas não no corredor do supermercado para toda a gente ouvir! É em casa", pede.

Quando as crianças fizerem perguntas, Clara sugere que os pais "respondam com frases compostas, entoem canções portuguesas, façam construções e descrevam o que estão a fazer, leiam histórias portuguesas". E, no contexto escolar, "façam-nos ler alto e repetir, se necessário for. Façam-nos ter gosto em falar a nossa língua, com cadência lusa".

Neste dia 21 de fevereiro, a mensagem de Clara Pires Barroso serve de reflexão para todos. Afinal, como recorda, o cérebro das crianças mais pequenas "é uma esponja, absorve tudo". O apelo final é simples, mas vital: "Deixem-nos absorver o que é verdadeiramente nosso. O dia da defesa da língua materna portuguesa é um direito humano fundamental, essencial para a expressão da identidade cultural. Envolve proteger o uso do português e garantir o seu ensino".