Em Marco de Canaveses, Clara Pires Barroso, professora do 1.º Ciclo há mais de 25 anos, lança um alerta profundo sobre uma "evolução preocupante": crianças portuguesas que chegam à escola a falar e a escrever com sotaque e vocabulário do Brasil, fruto da exposição precoce e massiva aos ecrãs.
"É a falar que a gente se entende". O ditado popular serve de mote para uma reflexão que, nas salas de aula do ensino básico, se tornou numa urgência. Clara Pires Barroso conhece bem a realidade. Leciona no 1.º Ciclo há mais de um quarto de século e tem assistido na primeira fila a uma transformação que prefere não chamar de evolução.
Para a docente, a língua não é apenas uma ferramenta de comunicação; é "a nossa construção do pensamento, serve para exprimir o que sentimos". Apoiando-se na teoria do psicólogo e pedagogo Jean Piaget, que defendia que "o pensamento vem antes da linguagem", Clara explica que a criança constrói primeiro as suas estruturas mentais. Por isso, se o meio envolvente for dotado de um "léxico recheado e estruturado", a criança crescerá com uma linguagem ampla. Mas, o que acontece quando esse meio se torna passivo, visualmente muito atrativo e, sobretudo, dominado por conteúdos digitais de influenciadores estrangeiros?
