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Portugal
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Fim do Carnaval, início da Quaresma: O verdadeiro significado da Quarta-feira de Cinzas

A Quarta-feira de Cinzas assinala-se este ano no dia 18 de fevereiro, marcando o primeiro dia da Quaresma no calendário cristão católico, iniciando de um período de 40 dias de preparação espiritual para a celebração da Páscoa.

Redação

Observada sempre no dia a seguir à terça-feira de Carnaval, a data não é feriado nacional, mas constitui um momento de profundo significado religioso, recaindo anualmente entre o dia 4 de fevereiro e a segunda semana de março (dia 10), uma vez que os domingos não são contabilizados nestes 40 dias.

Em Portugal, a data é vivida com solenidade nas paróquias, assinalando a transição do ambiente festivo carnavalesco para um tempo focado na reflexão e no maior recolhimento. Trata-se de um rito exclusivo da Igreja Católica Romana, não sendo observado pelas igrejas ortodoxas.


O Rito e o Simbolismo das Cinzas

O momento central desta data é a imposição das cinzas na testa (ou cabeça) dos crentes durante as missas realizadas por todo o país.

  • Origem: As cinzas são obtidas através da queima (cremação) dos ramos benzidos no Domingo de Ramos do ano transato, habitualmente ramos de oliveira ou de outras árvores.

  • Significado: As cinzas simbolizam a mortalidade, a fragilidade da vida humana e o luto pelo pecado, bem como a necessidade de voltar para Deus e o desejo de renovação interior. A tradição tem as suas raízes no antigo Médio Oriente, onde a colocação de cinzas sobre a cabeça era um gesto de arrependimento perante Deus.

  • A Celebração: Durante o rito, o sacerdote traça uma cruz na testa dos fiéis proferindo uma de duas frases bíblicas: "Arrependei-vos e acreditai no Evangelho" (Marcos 1, 15) ou "Lembra-te, homem, que és pó da terra e à terra hás de voltar" (Génesis 3, 19).

  • Renovação Espiritual: As cinzas sugerem a queima e a destruição do "homem velho", dando lugar à novidade da vida pascal de Cristo e à esperança na Ressurreição. Não é considerado um dia triste, mas sim uma oportunidade de recomeço.


Práticas e Pilares da Quaresma

A Quarta-feira de Cinzas abre o caminho quaresmal, um tempo que simboliza o período em que Jesus permaneceu no deserto em penitência e a ser tentado pelo demónio. A vivência deste período assenta em três pilares concretos: a oração, o jejum e a esmola (caridade).

Enquanto gesto de sacrifício, disciplina e solidariedade, a Igreja impõe duas regras específicas para este dia (bem como para a Sexta-feira Santa):

  • Jejum: Prática obrigatória para quem tem entre 18 e 59 anos.

  • Abstinência: Privação do consumo de carne, obrigatória a partir dos 14 anos.


Contexto Histórico e Evolução Litúrgica

Historicamente, o tom penitencial deste dia remonta aos primeiros tempos da Igreja. De acordo com os registos partilhados pela Paróquia de Matosinhos, a quarta-feira e a sexta-feira cedo se tornaram os dias semanais de jejum. A quarta-feira assumiu este caráter porque documentos dos primeiros séculos referem que, após a Última Ceia na terça-feira, Jesus foi entregue e detido no começo da quarta-feira.

Quando os 40 dias de preparação para a Páscoa foram estruturados no século IV, a Quaresma começava originalmente ao domingo. Contudo, no século VI, foi introduzida uma alteração: como não se jejuava aos domingos, os dias efetivos de jejum seriam inferiores a 40. Para resolver esta questão matemática, o início do período foi antecipado para a quarta-feira anterior, dia que passou a ser caracterizado pela cerimónia das cinzas. Todo este ciclo quaresmal só termina, depois, na Vigília Pascal, através dos símbolos do fogo, da água e da luz.