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Marco de Canaveses
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Uma Fé Que Passa de Geração em Geração: A Visita Pascal de José Luís Almeida e a "Equipa da Família"

A época da Páscoa traz consigo um dos momentos mais aguardados nas freguesias do norte de Portugal: a tradicional Visita Pascal, carinhosamente conhecida como o Compasso.

Redação

 Em Marco de Canaveses, em Toutosa e Santo Isidoro, esta tradição ganha um rosto bem familiar na figura de José Luís Almeida. Atualmente a assumir as funções de presidente da equipa e leitor da palavra, José Luís carrega consigo uma bagagem de 17 anos dedicados a levar o anúncio da Ressurreição de porta em porta.

Neste testemunho profundo e carregado de afeto, o compasso revela-se muito mais do que um dever religioso; é um laço que une gerações, fortalece a comunidade e, de forma muito especial, consolida a própria família.

O Início de Tudo: De "Rapaz da Campainha" a Presidente

A história de José Luís com a Visita Pascal não começou ontem. Dos 17 anos dedicados a esta missão, seis foram passados na paróquia de Toutosa e os últimos onze na paróquia de Santo Isidoro. As suas memórias levam-no de volta à infância, a um tempo em que as circunstâncias o empurraram para o interior desta tradição secular, ao lado de uma das figuras mais importantes da sua vida.

"Tudo começou na falha de não haver rapaz para a campainha. Recordo isso da minha infância e de me terem convidado a ir, já na altura em conjunto com o meu falecido pai, que também fez parte," relembra José Luís com emoção.

O percurso foi feito de forma gradual, preenchendo as várias funções que compõem o grupo do compasso. Em Toutosa, onde a freguesia se divide em dois grupos distintos, José Luís orgulha-se de ter integrado ambos. "Tive o gosto de fazer parte de ambas as equipas," conta. A sua formação nesta caminhada de fé foi completa: "Foram 2 anos feitos com a campainha, 2 com a caldeira e 2 com a pasta dos folares, que eram destinados ao pároco. Isso em Toutosa."

O Regresso e o Nascimento da "Equipa da Família"

Após essa fase inicial na juventude, José Luís fez uma pausa de alguns anos. O chamamento, no entanto, voltou a soar mais tarde, já na vida adulta.

"Mais tarde, depois de casado, na paróquia da minha terra natal e de onde estou a viver [Santo Isidoro], regressei em 2013. Desde aí só falhei um ano com o problema de uma pequena cirurgia, e no ano crítico da covid."

O que torna a atual equipa de José Luís tão especial é a forma como a sua própria família foi sendo integrada, muito por necessidade, mas acabando por transformar a dinâmica do grupo de forma maravilhosa. Devido à falta de pessoas por razões de saúde e motivos pessoais, a família Almeida avançou em peso. Hoje, são carinhosamente apelidados pelos paroquianos como a "equipa da família".

"A entrada da família (...) acabou por agradar mais ainda a esta caminhada de fé e testemunho de porta a porta," confessa.

Os filhos, Rodrigo e Benedita, herdaram a tarefa com que o pai começou: a campainha. "Os miúdos, como dizem as pessoas ao recebê-los, levam a campainha à vez para descansar as mãos. Entre eles vão levando o alerta da chegada da Visita Pascal. Já lá vão 4 anos," detalha o pai, babado.

No mesmo ano em que os filhos se juntaram, também a sua esposa, Lúcia Pinto, abraçou a missão, assumindo a caldeira com a água benta. "É aquela pessoa que está ao meu lado quando pego no hissope para aspergir a água aos fiéis," partilha José Luís, descrevendo uma imagem de forte união e cumplicidade espiritual.

Uma Rota Certa e os Veteranos do Compasso

Mas a equipa não se faz apenas da família Almeida. A acompanhá-los estão dois pilares fundamentais, também eles unidos por laços de sangue: Rodrigo Mota e o seu filho, Ricardo Mota.

A dedicação desta dupla é impressionante e reflete o espírito de resiliência das gentes locais. "O Rodrigo Mota é o mais antigo desta Visita Pascal, já com 30 anos de serviço," destaca José Luís, explicando que ele é o homem responsável pelas ofertas do folar do pároco. O filho, Ricardo Mota, encarrega-se de levar a cruz — uma tarefa que o próprio José Luís já desempenhou no passado. Ricardo leva já duas décadas a carregar este símbolo maior do compasso.

"Esta equipa é ultimamente sempre composta pelos mesmos membros e com a rota certa, no itinerário certo. As pessoas já sabem mais ou menos a nossa hora de chegada e lá nos aguardam," afirma José Luís, demonstrando a importância da pontualidade e do compromisso para com as famílias que os esperam.

Tapetes de Flores e um Susto no Batatal

Um dos aspetos mais visuais e encantadores da Visita Pascal são os cuidados que as famílias têm em preparar as casas e as ruas. "Em muitas casas lá está o tradicional tapete feito de flores," refere.

Há, no entanto, uma tradição particular que marca o dia da equipa logo a seguir à paragem para a refeição:

"Existe na freguesia uma casa muito antiga, que é uma das primeiras a ser feita a seguir ao nosso almoço. Existe uma família numerosa que nos aguarda com um grande tapete de flores. Após a nossa passagem, adoramos ver as crianças a percorrer esse tapete que tanto preservaram até à nossa chegada e lá ficam a brincar."

Nem tudo, porém, são momentos de solene seriedade. A longa experiência de José Luís também guarda episódios insólitos e hilariantes. O mais memorável remonta aos seus tempos de criança, na primeira função que exerceu.

"Um momento que realmente me fez rir foi no tempo em que ia em miúdo com a campainha. Ela desaperta-se e cai num campo cultivado de batatas. Fico só com o cabo na minha mão, todo aflito, a pensar que o momento da campainha ia ficar por ali," recorda, com muito humor, o pânico que sentiu ao ver a ferramenta de trabalho desaparecer no meio do batatal.

Um Apelo ao Futuro

Para José Luís Almeida, carregar a palavra de Deus e a alegria da Páscoa exige esforço físico, mas a recompensa é imensurável. Ao olhar para os seus filhos e para o jovem Ricardo Mota, o "presidente da equipa" não esconde o desejo de que este património imaterial não se perca com o tempo.

"Gostaríamos, em nome de toda a equipa, que os jovens da nossa terra, e não só, pelo país fora, preservassem muito bem estas nossas tradições religiosas já muito antigas, relembrando tudo o que se manifestou ao longo de muitos anos atrás, e que se vá levando o testemunho de geração para geração."

No final de cada dia de Visita Pascal, o cansaço cede rapidamente lugar à emoção. Para a "equipa da família" e os seus companheiros de jornada, o balanço de mais um ano de compasso é simples, mas poderoso: "Para nós é muito gratificante ver as pessoas receberem o nosso testemunho, que levamos porta a porta, muito alegres e de braços abertos em suas casas."