No dia 18 de junho de 1972 era inaugurada a Barragem de Carrapatelo, o primeiro empreendimento hidroelétrico a ser construído no percurso nacional do rio Douro e que uniu a atual freguesia de Penha Longa e Paços de Gaiolo, em Marco de Canaveses, à freguesia de São Cristóvão de Nogueira, em Cinfães.

Afonso Aires Couto foi um dos milhares de trabalhadores que fizeram parte da construção do empreendimento hidroelétrico. É natural de Penha Longa, na freguesia de Penha Longa e Paços de Gaiolo, e, com apenas 16 anos, começou a trabalhar na barragem. Hoje, com 72 anos, recorda os tempos em que os pilares eram erguidos.

Conseguir o emprego “foi um pouco difícil”, uma vez que toda a sua família trabalhava na agricultura. Mas ter esta obra “à porta de casa” ajudou-o. “Foi uma obra que deu muito ser aos marcoenses e aos cinfanenses. Até ao início da construção, as pessoas viviam da agricultura, mais nada”, recorda. É um de sete irmãos e o seu ordenado era também para ajudar em casa. “Todos trabalhavam no campo, nesta altura só eu e o meu irmão mais novo é que estávamos fora. Já tinha duas irmãs casadas e o meu irmão estava para casar, mas ainda éramos seis à mesa”, recorda.

Afonso Aires Costa relembra as dificuldades vividas na altura. “Não era fácil trabalhar um dia inteiro com um bocadinho de broa e uma garrafinha de água. De vez em quando havia uma sopinha, mais nada. Na barragem havia uma cantina de operários, mas se fosse lá, chegava ao fim do mês sem dinheiro”, disse.

Começou a trabalhar em 1966 e, durante quatro anos, foi este o seu emprego. “Trabalhei até 1970 porque, infelizmente, tive de ir para a tropa. Quando regressei, em 1973, já estava concluída”, referiu

O marcoense afirma que a construção antigamente “não tem nada a ver com a de agora”, sendo que “hoje é muito mais fácil. Na altura, para movimentar um taipal eram precisas duas máquinas próprias”, disse. Apesar de gostar do que fazia, Afonso Aires Couto admite que “não ganhava muito bem”. Quando regressou da tropa, foi para a Barragem da Valeira, como “carpinteiro de segunda”. Depois, decidiu emigrar, com cerca de 26 anos, para a Venezuela. “Voltei em 1981, quando as coisas lá começaram a apertar, com a minha esposa e os meus dois filhos. Daí, fui para o Iraque, França… andei por muitos países e fui compondo a minha vida”, acrescentou.

O homem diz-se orgulhoso de ter contribuído para a construção da Barragem do Carrapelo. “Adoro vê-la! Orgulho-me de ter andado aqui. Não foi uma vida fácil, mas foi vivida”, admitiu, em jeito de conclusão, ao Jornal A VERDADE.