Um homem, de barbas alvas e de roupas encarnadas, preparara-se para uma longa viagem, a que todas as crianças e os adultos que nunca cresceram esperam o ano inteiro. A visita misteriosa jamais bate à porta, entra escondida pela chaminé, levando as cinzas da lareira consigo, mas deixando embrulhos de sonhos, que só o destinatário certo desenlaça.
Peregrinar é sempre inquietante, não sabemos, até à chegada, os perigos que nos afligem, acarretando, por vezes, medos paralisantes. No entanto, sabia o homem, com o trenó carregado, que não podia olhar para trás, os sorrisos no Natal dependiam dele. Assim seguiu caminho, na solitária missão que se cumpre em prol dos outros, não valorizada se realizada a todos os momentos com sucesso, esquecida por completo havendo depois uma única falha.
No céu, a voar, contava as estrelas para não adormecer, brilhavam tanto na escuridão. Estava muito cansado, liderar uma equipa de duendes era muito difícil, com capacidades e motivações distintas, nem sempre orientados para o coletivo. Sentia-se injustiçado, a fraquejar, tão sozinho na noite e o trenó, atrelado ao próprio corpo, demasiado pesado.
O veículo elétrico, que permitia o descanso das renas, anunciou a queda, perdendo peças essenciais que giravam quase invisíveis. O condutor, segurando no volante, iniciou uma aterragem de emergência na água. O imediatismo da ação permitiu um impacto menor no mar, que preservou o que restava do meio de transporte, assim como da carga, fundamental para não colocar em causa o Natal do mundo.
O navegador, um pouco mais consciente do acontecimento inesperado, apertou o cinto no máximo, planando na superfície aquática. O GPS deixara de funcionar não emitindo quaisquer coordenadas, navegava então na imensidão desconhecida. Flutuava ao sabor das ondas, em movimentos mais lentos, para cima e para baixo, mas também de forma súbita e brusca, em rodopios que lhe provocaram enjoos marítimos. Os salpicos de água salgada nas mãos alimentavam-lhe a pele, penetrando na alma e permitindo-lhe acreditar. Era bem verdade que não se imaginara antes naquela situação, porém, em vez de se amargurar, conquistou, com a sua força, uma fé inabalável de que resolveria a situação, salvando-se de todos os males. Por outro lado, a liberdade revigorante que o oceano lhe trazia possibilitava-lhe uma frescura de ideias, que a secura do deserto jamais traz.
Perdido há algumas horas, viu um foco luminoso distante. A noite quase oferecia um novo dia. Encetou esforços para orientar a embarcação no sentido da terra, conseguindo, com o esforço da aproximação, perceber tratar-se de um farol, uma construção esguia, pintada às riscas horizontais com as cores do seu fato, agora estendido de salitre.
Descalçou as botas, retirou as meias, dobrou as calças e mergulhou os pés na água até aos joelhos. Empurrou o trenó, deslizando-o na areia. Com a felicidade da chegada, dobrou-se de joelhos e agradeceu à vida, tocando com os dedos nos grãos finos.
Uma criança correu na sua direção, brincava com um cão rafeiro, que o seguiu:
– Olá, Pai Natal, queres ajuda?
Olhou para o menino com admiração, gostou da cândida bondade.
– Todas as ajudas são bem-vindas, claro! Ainda para mais no Natal, andamos todos atarefados…
– O teu trenó está avariado?
– Sim, avariou-se. Voava e caí ao mar. E tu, madrugaste?
– O Tofy estava impaciente. Precisava de esticar as patas!
– Que bom! Ainda bem que vos encontrei.... Foi uma sorte ter chegado até aqui, a tempo do Natal. Hoje é a véspera!
– Realmente, o que seria do Natal sem ti?
O Pai Natal corou com o elogio e respondeu:
– Não há pessoas insubstituíveis…
– Desculpe, claro que há… Todos somos diferentes uns dos outros! Não há nenhum humano igual ao outro e o Pai Natal é único!
– Papá… olha quem eu encontrei!
Aproximara-se, entretanto, percebendo que o trenó merecia mais cuidados para além dos que o filho prestava. Informou, consciencioso:
– Tenho uma oficina, conserto embarcações e veículos motorizados. É já ali, ao lado do farol. Vou buscar o que é necessário!
O Pai Natal acedeu e o mecânico dirigiu-se ao barracão, trazendo ferramentas apropriadas para o arranjo. Estava tão perto o trenó, que não necessitava de reboque. Os três iniciaram o trabalho, com a criança a passar as peças ao pai, revelando algum conhecimento. Em equipa, o saber-fazer partilhava-se e, com rapidez, o trenó ficou pronto a circular. Nostálgico, o menino referiu, despedindo-se:
– Bem, parece que é um adeus…
– Não é um adeus, é um até logo. O teu presente está dentro do trenó, a salvo do naufrágio. Irei deixá-lo e não me enganarei na casa! É para abrires amanhã, apenas quando acordares…
– Respeito-te muito e confio em ti, não farei de outra maneira!
O homem, de barbas alvas e roupas encarnadas, entrou no trenó e voou finalmente, seguindo rumo.
Como a criança da história, eu ainda acredito no Pai Natal, guiado pela luz do farol. E tu, acreditas?
Beatriz Meireles
