Como regente do Coro Académico, quando me foi pedido que compusesse um hino, imaginei que não me pedissem apenas uma canção. Na verdade, pediram-me, sem o dizer, que escutasse o invisível: as conversas, os risos partilhados antes das aulas, a coragem discreta de quem decide aprender de novo. E foi aí que tudo começou — não com a guitarra, nem no papel, mas no olhar das alunas e dos alunos. Embora eu nunca tivesse visto as nossas sessões como aulas, no sentido formal, mas antes como um espaço oficinal de canto.
Na composição do hino, lembro-me de procurar uma palavra que resumisse aquele espírito. Não encontrei uma — encontrei uma imagem: um amanhecer. Não um qualquer, mas um daqueles que não se esgota num dia, que se prolonga na vontade de continuar, de descobrir, de recomeçar. Assim nasceu Eterno Amanhecer.
Escrevi a letra como quem recolhe fragmentos de vida: a amizade que se constrói quase sem dar por isso, a leveza de voltar a ser criança, a dignidade de quem nunca desiste de aprender. A música veio depois, como vêm as coisas certas — naturalmente, quase como se já existisse à espera de ser ouvida.
Mas um hino só se torna verdadeiro quando deixa de ser de quem o escreve. E houve um momento — esse sim inesquecível — em que percebi que a canção já não me pertencia. Foi quando a ouvi nas vozes do Coro Académico. Diferente, imperfeita talvez, mas viva. Plena de tudo aquilo que nenhuma partitura consegue guardar.
Penso que o hino encerra, de certo modo, a síntese da minha experiência de professor na Universidade Sénior, pois, mais do que um hino, ficou um testemunho: o de que nunca é tarde para abrir “novas portas ao saber”, nem para “voar sem idade”.
Se hoje voltasse a escrevê-lo, talvez mudasse palavras, talvez afinasse melodias e acrescentasse mais alguma harmonia. Mas há algo que manteria intacto: essa certeza luminosa de que, aí, a noite sempre se transforma em manhã clara e que, entre pessoas que escolheram aprender e partilhar, a vida insiste em recomeçar e continua — como então — a “voar num eterno amanhecer”.
Adão Sousa, autor do hino da Universidade Sénior e antigo professor do Coro Académico
