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Paredes
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Maria Inês Rocha: A “menina de ouro” de Vilela que faz da patinagem os melhores três minutos da sua vida

Aos 16 anos, a paredense Maria Inês Rocha não sabe o que é viver sem patins. Natural de Vilela, a atleta que no ano passado se sagrou Vice-campeã da Europa em Solo Dance acaba de garantir o passaporte para o Mundial e Europeu, desta vez num exigente quarteto.

A dias de integrar o estágio da Seleção Nacional e com a 'mala feita' para a World Cup na Alemanha, a jovem abre o coração sobre os sacrifícios diários, as desilusões superadas, a dura realidade do desporto amador em Portugal e a magia de representar o país.

A história de amor entre Maria Inês Rocha e a pista começou quando tinha apenas cinco anos. "Era muito novinha e nunca mais parei", recorda a atleta do concelho de Paredes. O que para muitas crianças é apenas uma brincadeira de fim de tarde, para ela tornou-se um modo de vida. "O meu amor pela patinagem foi sempre crescendo. Fui evoluindo e, à medida que vamos subindo de patamar, vamos cada vez criando mais gosto por isto. E, foi assim, fui cada vez gostando mais e agora não consigo largar."

O palmarés da jovem atesta essa evolução. Em novembro do ano passado, Maria Inês subiu ao pódio europeu para receber o título de Vice-campeã da Europa em Solo Dance, na categoria de juvenis. Mas, o seu mais recente feito obrigou-a a partilhar o rinque. No passado fim de semana, em Fafe, no Campeonato Nacional de Patinagem Artística de Show e Precisão, sagrou-se Vice-Campeã Nacional no escalão de juniores, integrada num quarteto composto também por Beatriz Passos, Mariana Almeida e Bárbara Neto. O resultado garantiu-lhes a qualificação direta para o Campeonato da Europa e para o Campeonato do Mundo.

A solidão do solo vs. o desafio do quarteto

Para uma atleta habituada a depender apenas de si mesma desde a infância, a integração num quarteto foi um choque de realidade. Maria Inês reconhece que a modalidade é vista maioritariamente pelo seu pendor solitário, sendo a vertente de show "sempre um bocadinho mais abafada".

"Gosto muito de trabalhar individualmente. Acho que é incrível porque só depende de mim. Se eu falhar, sou eu. Se eu treinar, também sou só eu. No fundo, treino para aquilo que eu quero", confessa com a maturidade de quem conhece a dureza do esforço solitário, onde "queres sempre trabalhar para o máximo e, às vezes, o máximo também não chega, comparado aos outros competidores."

Já o trabalho a quatro exigiu uma adaptação mental profunda. "Como somos quatro pessoas... Lá está, já não depende só de mim. Depende das quatro, do que as quatro querem, do que as quatro fazem e trabalham. Se alguma falhar, acaba por prejudicar o resto da equipa", explica. Para a jovem paredense, os quartetos são uma escola de convivência: "É saber conviver com as outras pessoas e trabalhar com elas. Temos de estar as quatro focadas no mesmo objetivo. Se umas o estiverem mais e outras menos, acaba por não funcionar tão bem." Questionada sobre a necessidade de existir química entre as atletas na pista, Maria Inês resume o desafio supremo desta disciplina: "Exatamente. Temos que parecer uma pessoa a patinar."

A rotina de quem treina "a 'única hora' que sobra"

A perfeição técnica que exibe não é apenas fruto do talento precoce. Embora admita que começar aos cinco anos aumenta as probabilidades de sucesso porque "se treina há mais tempo", a jovem rejeita que o talento supere o trabalho. "A patinagem também é muita técnica, e a técnica vem de muito treino. Começando mais tarde, as pessoas vão ter que treinar mais, mas, se treinarem bem, são capazes de atingir um nível técnico muito bom", garante.

A sua própria rotina é a prova desse sacrifício. Maria Inês treina todos os dias da semana. Às terças e quintas, das 19h30 às 21h00. Às quartas, cumpre um bloco de duas horas e meia. A sexta-feira é o dia mais longo: "Costumo treinar das 16h30 às 18h30. Depois tenho uma pausa até às 20h00 e treino mais uma hora até às 21h00". Aos sábados, as manhãs são para o Solo e as tardes para o Quarteto.

Quando as competições se aproximam, a exigência atinge o limite do razoável para uma estudante do ensino secundário. "Para o Nacional de Show, treinámos todos os dias Solo, normal, e treinávamos quartetos na 'única hora' que sobrava todos os dias, que era das 21h30 às 23h00."

Os fantasmas de 2024 e os três minutos mágicos

A glória das medalhas esconde muitas vezes batalhas internas intensas. Maria Inês não tem pudor em admitir que já deixou que o nervosismo a vencesse. "Tive um ano, 2024, em que não tive boas provas. Acho que em todas as provas que fiz, os nervos conseguiram tomar conta de mim e não desfrutei", confessa a atleta.

O ponto de viragem aconteceu no início deste ano. "Em 2025, a primeira prova que fiz foi tudo muito diferente. Acho que aprendi a desfrutar. É claro que, a partir do momento em que se falha uma coisinha, ficamos logo: 'ok, agora não posso falhar mais nada e tenho que fazer isto direito'. Mas, acho que já aprendi a desfrutar da patinagem", explica.

Hoje, a entrada na pista é um momento de transcendência. "Sempre que entro numa prova, parece que estou num mundo diferente. Quando começa a música, aqueles três minutos são dos melhores três minutos da minha vida. Passa muito rápido, mas são sempre muito bons", descreve, com os olhos postos no futuro.

O peso da seleção e o realismo do desporto amador

Esse futuro passa já por este fim de semana, com o 1.º estágio da Seleção Nacional, e por maio, mês em que viaja para a Alemanha para disputar a prestigiada World Cup.

A ansiedade existe, mas a experiência acumulada fala mais alto. "O foco é uma coisa que aprendemos ao longo do tempo", reflete Maria Inês, recordando que a convocatória para a Taça da Europa no ano passado a ensinou a lidar com a pressão internacional. "Já sei mais ou menos para o que vou. Acabo por estar muito nervosa na mesma, mas já sei medir a minha ansiedade."

Vestir a camisola das Quinas na Alemanha traz uma motivação extra. Mais do que procurar medalhas, o objetivo é a realização pessoal. "Espero fazer bons resultados pessoais, boas provas e sair de lá realizada. É muito mais gratificante para nós atletas representar e ouvir o nome do nosso país. É gratificante saber que treino todos os dias, que isso vale para alguma coisa e que estou a ser recompensada por isso", afirma com orgulho.

Maria Inês assume que este está a ser o ano mais desafiante e "o melhor da carreira". A subida ao escalão de Júnior colocou-a a competir com atletas mais velhas, aumentando a dificuldade. No entanto, a paredense não se ilude com a fama. Conhece bem as limitações do desporto amador e não sonha com profissionalismos irreais. "A patinagem não tem grande futuro profissional, a não ser juízes ou treinadores. Gostava muito de ser treinadora, mas conciliando com uma profissão por fora, porque não dá para viver só da patinagem", atira, com a lucidez de quem nota que, a dada altura, "a faculdade começa a apertar, a idade já não ajuda" e a maioria dos atletas acaba por abandonar as pistas.

"Deixem que a patinagem traga o melhor de vocês"

Para os jovens que hoje olham para Maria Inês Rocha como um exemplo e que ponderam calçar os patins, a Vice-campeã Nacional e Europeia deixa um aviso sincero: "Vão cair muito".

A atleta alerta para a tendência infantil de desistir ao primeiro arranhão ("aleijei-me, já não quero ir mais"), mas deixa uma mensagem de profunda inspiração. "Acho que o ideal é não desistirem logo. É um desporto muito bonito, mas requer muito esforço. Tens que dar muito de ti."

A fórmula para o sucesso, segundo a jovem de Vilela, não tem atalhos. "Se experimentarem e gostarem, é não desistir. É dar o máximo que conseguirem. E se quiserem chegar longe, é treinar muito e ter uma boa conciliação de tempo, porque conciliar a escola com a patinagem, sair com amigos, dormir e tudo é muito complicado. Portanto, é não desistir e deixar que a patinagem te traga o melhor de ti."