Com mais de 300 anos de história, as Endoenças transformaram, uma vez mais, as freguesias de Eja, em Penafiel e Alpendorada, Várzea e Torrão, em Marco de Canaveses, onde a tradição secular das "tigelinhas" iluminadas se cruzou, este ano, com um marco de modernidade: as novas luzes da Ponte Duarte Pacheco.
Reconhecidas desde 2015 pelo Município de Penafiel e integradas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, as Endoenças estendem-se pelas duas margens do rio Tâmega.
A designação "Endoenças" tem origem na tradição litúrgica católica, inicialmente ligada à Sexta-Feira Santa (dia de indulgência), mas que com o tempo se enraizou na Quinta-Feira Santa. O programa deste ano dividiu-se em momentos de profunda devoção:
Para Pedro Cepeda, presidente da Câmara Municipal de Penafiel, as Endoenças representam um farol de identidade e resiliência. Num misto de emoção e visão estratégica, o autarca sublinha o poder agregador e espiritual das milhares de velas que pontilham as margens.
"São, desde logo, uma iniciativa que, nesta época da Páscoa, tem a capacidade de atrair milhares de pessoas para as margens do Rio Tâmega e tem, sobretudo, esta característica de uma beleza natural ímpar", começa por explicar o presidente. "Este apontamento das luzes (...) num período que é conhecido por um momento de reflexão, faz com que crie, de facto, um ambiente extraordinário nesta quadra da Páscoa."
A luz, frisa o autarca, não é apenas cénica; carrega uma mensagem profunda. "Para além deste momento de reflexão (...) pensam também num momento de esperança, porque a luz simboliza isso. A esperança de que o dia de amanhã será melhor".
Para além da vertente espiritual, Pedro Cepeda destaca o tremendo impacto económico e o potencial turístico da tradição. Os restaurantes "seja de Entre-os-Rios, seja do Torrão, estão completamente cheios", dinamizando a economia local. É com os olhos postos no futuro que a autarquia delineia os próximos passos:
"Nós temos tido ao longo dos anos uma estratégia de promover cada vez mais este evento e acreditamos que o potencial que aqui reside (...) poderá ser apresentado, no futuro, como um dos grandes eventos do ponto de vista do turismo religioso do Porto e Norte de Portugal."
Este ano, as Endoenças trouxeram uma novidade de peso. A par das chamas trémulas das tigelinhas, uma nova luminosidade ergueu-se sobre as águas: a inauguração da requalificação luminosa da Ponte Duarte Pacheco.
Este projeto, nascido do esforço conjunto e do "investimento feito pelo município de Penafiel e pelo município do Marco de Canaveses", vem não só garantir maior segurança na travessia, mas também embelezar uma infraestrutura vital, coroando as Endoenças com uma aura ainda mais especial. "Em dia de Endoenças, as margens do rio Tâmega ficaram com ainda mais luz", assinalou a organização.
Mas como se desenha, na prática, um cenário tão grandioso? A resposta encontra-se no labor incansável da comunidade, descrito com orgulho por Isabel Guedes, presidente da Junta de Freguesia de Eja. Para quem vê a obra terminada à noite, escapa muitas vezes o esforço hercúleo que começa aos primeiros raios de sol.
"Isto começa logo desde de manhã, com a organização, onde temos pessoas distribuídas por vários pontos da nossa freguesia, nomeadamente aqui no lugar de Entre os Rios", relata Isabel Guedes. "São sete grupos, aproximadamente 35 pessoas, que desde de manhã colocam as tigelinhas. Neste momento, estão a acendê-las."
Num esforço logístico delineado com larga antecedência, num trabalho conjunto entre a Junta e a Câmara, são distribuídas "cerca de 25 mil tigelinhas pelas margens do rio, que tornam este dia e esta noite, principalmente, muito mais bela para aqueles que nos visitam". A própria autarca fez questão de acompanhar os trabalhos no terreno, testemunhando o empenho da sua gente.
O detalhe mais inspirador desta engrenagem reside, contudo, na idade de quem carrega a tradição. Longe de ser um costume apenas dos mais velhos, as Endoenças estão nas mãos das novas gerações.
"São jovens, a maior parte na casa dos 20 anos, e isso também me orgulha, porque é sinal que esta tradição se vai manter e é esse o nosso objetivo", confessa Isabel Guedes, com visível emoção. "Que esta tradição se mantenha e que passe para as gerações mais novas, e que possam também eles perceber o simbolismo que isto tem na nossa freguesia."
As Endoenças voltam, assim, a provar que a fé, quando ancorada na comunidade, não se apaga com o tempo. Seja pela chama das 25 mil velas acesas pelas mãos dos jovens, seja pelas novas luzes que agora abraçam a Ponte Duarte Pacheco, as margens do Tâmega e do Douro continuam a brilhar, iluminando o passado e projetando o futuro.