O que começou como um desafio profissional, rapidamente se tornou numa lição sobre o que é essencial: "Com menos somos mais".
A milhares de quilómetros de Sobrosa, Paredes, Vítor Pinheiro, mais conhecido como Vitinha, trocou o Vale do Sousa pela Indonésia. O treinador de padel fez uma pausa no clube que ajudou a fundar para mergulhar numa cultura totalmente nova.
O que começou como um desafio profissional, rapidamente se tornou numa lição sobre o que é essencial: "Com menos somos mais".
O padel entrou na vida de Vítor Pinheiro em 2018, "através de um amigo". A paixão foi imediata. "Comecei a jogar todos os dias até que, juntamente com mais três pessoas, decidimos abrir o primeiro clube do Vale do Sousa", recorda. O desporto, que "não para de crescer", tornou-se o seu "trabalho a tempo inteiro".
Foi essa dedicação que lhe abriu as portas do mundo. A oportunidade de rumar à Indonésia apareceu de forma inesperada: "Surgiu através de um amigo que me perguntou se teria interesse em dar aulas fora do país [...]. Olhei com bons olhos para a proposta e, passados dois meses após o primeiro contacto, viajei para a Indonésia".
Chegar a um país no sudeste asiático, a mais de 12 mil quilómetros de casa, foi um embate. Vitinha confessa que a adaptação inicial foi dura.
"No início, foi bastante complicado: uma cultura totalmente diferente da que estava habituado, uma língua completamente nova, pessoas desconhecidas, e ainda a distância de casa, da família e dos amigos", partilha.
Contudo, o choque inicial deu lugar a uma profunda admiração. "Com o passar do tempo, tornou-se numa experiência única", garante. A viver numa cidade com quase um milhão de habitantes, mas sem turistas, Vitinha descobriu o lado humano da Indonésia. "As pessoas são muito amáveis, têm um sorriso fácil e dão valor às coisas simples, o que nos faz perceber que, muitas vezes, com menos somos mais."
Essa filosofia de vida tornou-se a maior aprendizagem, muito para além dos courts. "A minha experiência tem sido muito boa, as pessoas aqui tratam-me super bem. Fora do padel, estou a aprender o quão se pode ser feliz com tão pouco", reflete o treinador. "Existem coisas menos boas, claro, mas as pessoas conseguem dar a volta por cima sempre com um sorriso na cara e isso é uma lição para a vida."
Ensinar padel num contexto cultural tão distinto obriga a ajustes. O desafio não está na técnica. Ou seja, "não há diferença na forma de jogar ou aprender", mas nas regras sociais.
"É um pouco 'estranho' devido à cultura, mas acaba por ser uma questão de adaptação", explica Vitinha. "Por exemplo, há situações em que não posso cumprimentar algumas mulheres com qualquer tipo de toque, nem mesmo um 'high five', devido à religião."
A modalidade em si está em fase embrionária. "O desporto aqui está a começar: tem, no máximo, três anos no país, e na cidade onde estou, apenas cinco meses". Mas, o potencial é imenso. "Há uma enorme margem de progresso, especialmente num país com grande tradição em ténis e badminton. O padel veio para ficar, na minha opinião."
Se nos courts a adaptação foi rápida, na estrada a história é outra. O maior desafio do dia a dia é claro: "O trânsito aqui é caótico, quase sem regras: 'salve-se quem puder'! Mas, o curioso é que, no meio de tanto trânsito, ainda não vi um único acidente."
Para se sentir mais perto de casa, Vitinha encontrou conforto nos sabores locais, destacando um pequeno-almoço típico da região de Malang. "O prato que mais gostei foi o Nasi Pecel", descreve. "É composto por arroz, legumes cozidos, ovo e um molho delicioso de amendoim com coco ralado e especiarias. É simples, mas cheio de sabor".
O contrato inicial de Vitinha é de seis meses, e termina em janeiro. "Ainda não sei se vou a casa no Natal, dependendo da extensão ou não do contrato, mas a minha ideia é ficar aqui por alguns anos", revela.
O futuro, para já, é vivido um dia de cada vez. "Esta porta abriu-se há pouco tempo e quero desfrutar dela. Claro que me vejo a explorar outros países no futuro, mas também sinto saudades de casa. É um misto de emoções que se controla com idas pontuais a Portugal."
A experiência, garante, vale por uma vida. Questionado sobre que conselho daria a outros jovens, Vitinha não hesita: "Acho que toda a gente devia viver uma experiência destas pelo menos uma vez na vida, seja a trabalhar, seja a viajar."
"É fácil falar", continua, "mas quando pensamos bem, percebemos que estamos tão envolvidos no stress e na rotina do dia a dia que não paramos para pensar que, com pouco, também somos muito". "Esta experiência é um verdadeiro ensinamento para a vida. Venham e arrisquem!", conclui.