“A expressão dele está mais relacionada com a parte da música”, explica o professor José Fangueiro.
A mãe, Alzira Ferreira, encontrou na música um caminho possível. “Eu penso que o ajudou na concentração, dar valor a ele próprio e faz com que ele se sinta mais motivado. Aqui o Dinis é igual aos outros.”
Num quotidiano onde a escola pode ser fonte de frustração — “eu não percebo o que os professores estão a dizer” — a música surge como refúgio. “Ele toca sozinho, dança sozinho, sente-se assim, livre.”
“Eles, gostando, vão sempre sentir-se bem”, resume o professor, sublinhando o impacto na autoconfiança e na motivação.
Mais a norte, em Matosinhos, é no mar que Vicente Proença, de 8 anos, encontra o seu equilíbrio. Apaixonado por carros, identifica-os à distância pelos detalhes dos retrovisores e tejadilhos, e sonha um dia “abrir uma escola de surf nos Açores”.
Antes de entrar na água, hesita. “Só vou apanhar uma onda”, diz. No final, são várias.
“O contacto com a água é um estímulo regulatório”, explica a mãe, Rita Gigante. “Este tipo de desportos ajuda o Vicente a estar mais regulado e a sentir-se muito melhor”.
O impacto estende-se ao dia-a-dia. “Está muito mais focado, muito mais tranquilo” depois do surf.
Para a família, o mais importante é a normalização. “O Vicente aqui não é o Vicente com autismo. É o Vicente.”
Rita acompanha também outras famílias e partilha informação sobre autismo, defendendo maior capacitação da sociedade e entreajuda entre pais.
O instrutor de surf Tiago Fazendeiro acompanha-o há cerca de dois anos. “Somos uma família e abertos a toda a gente”, diz, admitindo não ter formação específica. “Tentamos ir ao encontro das necessidades, e todos temos necessidades.”
Nota evolução sobretudo social. “Ele tem o seu tempo tal e qual como toda a gente”, conta e resume: “Essa autonomia e a parte social é super importante.”
Para a pediatra Micaela Guardiano, estes percursos refletem um princípio essencial. “Cada pessoa é muito diferente, por isso, falar nisto como um todo, é sempre muito abusivo”.
E reforça: “É muito importante não tentarem normalizar a diferença mas perceber como potenciar aquilo que aquela criança tem".
Mais do que terapias, destaca o papel das experiências. “Precisam de experiências multidiversas, é isso que promove o desenvolvimento".
Entre o palco, a música e o mar, as histórias cruzam-se numa ideia comum: encontrar um espaço onde seja possível crescer.
Num mês dedicado à consciencialização do Autismo, a mensagem é de normalização: mais do que encaixar num padrão, o desafio está em permitir que cada pessoa encontre o seu lugar — e nele, autonomia, equilíbrio e pertença.
