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Marco de Canaveses
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Spitz e LC juntos na vida e na música: “Foi inédito um casal batalhar em conjunto em Portugal”

No Dia dos Namorados, o amor também se escreve em rimas, métricas e batalhas verbais. É nesse território intenso e pouco convencional que se cruzam Spitz e LC, dois nomes do hip hop nacional que partilham palco, vida e criação artística.

Redação

Spitz, nome artístico de Sílvia, é natural do Marco de Canaveses; já LC, ou Luís, nasceu em Évora. O primeiro encontro aconteceu em abril de 2022, em Lisboa, num evento de battle rap — um contexto onde, curiosamente, o romance estava longe de ser previsível. “Nesse dia nós nem falámos”, recorda Luís. “Batalhei com uma amiga da Sílvia e foi assim que a vi pela primeira vez.” A primeira impressão não foi a melhor. “Na primeira vez que o vi nem achei piada”, admite Sílvia, entre risos. “Ele assumiu uma personagem machista contra a minha amiga e, como é óbvio, o público feminino não ficou agradado. Mesmo sabendo que nas batalhas se encarna uma personagem, no momento nunca agrada”, confessa.

Caminhos individuais que a música juntou

O tempo, os palcos e a música acabariam por aproximá-los. “Fomo-nos vendo em vários eventos e, mais tarde, começámos a falar. Aproximámo-nos devido à música.” Luís, que começou a fazer música “na onda da brincadeira, com amigos”, passou a encará-la de forma mais séria em 2018. Após a pandemia, surgiu a oportunidade de integrar a Liga Knock Out, onde intensificou a participação em batalhas e lançou um álbum. Já Sílvia tem um percurso marcado por mixtapes e discos lançados, e entrou no circuito das batalhas em 2022, entre Porto e Lisboa.

O ponto alto desta caminhada conjunta foi histórico: a primeira batalha dois-contra-dois protagonizada por um casal em Portugal. “Nunca tinha acontecido cá”, sublinha Luís. A proposta surgiu quando Sílvia quis estrear-se na Liga Knock Out, no evento Barras Invictas, no Porto. “Lá fora já é muito comum, por exemplo em Angola”, acrescenta. Num meio ainda marcadamente masculino, Spitz destaca-se: “O sexo feminino nas batalhas é reduzido. Neste momento, a Spitz é a única mulher em competição regular”, partilha LC, orgulhoso.

Ensaiar em conjunto revelou-se tão intenso quanto a própria batalha. “Foi muito duro e cansativo”, contam. Entre filhos, horários tardios e métodos de trabalho diferentes, a casa transforma-se num laboratório criativo. “Tenho duas meninas, um filho em conjunto, e o Luís tem mais uma criança. Por norma somos seis cá em casa e eles acabam por assistir a muitos ensaios.” Houve momentos de tensão e outros de orgulho. “Houve alturas em que não nos podíamos ver”, confessa Sílvia, “mas no fim foi uma experiência positiva, correu bastante bem e as pessoas gostaram.”

No dia das atuações, as personalidades contrastam. “Antes das batalhas sou insuportável, fico muito ansiosa”, partilha Sílvia. “Mas no momento esquecemo-nos de tudo.” Luís reage de outra forma: “Também fico nervoso, mas fico mais calado, faço piadas daquilo que se calhar não devia e tento transparecer confiança para apoiar a Sílvia.”

A vida real fora do palco

Fora do palco, a realidade é exigente. O casal tem um bebé de sete meses e profissões paralelas: Sílvia dá formação, Luís é cozinheiro. “Ser artista é muito bonito, mas é muito incerto”, dizem. “Com crianças, nada pode falhar.” A rotina é descrita sem romantismos: “É uma selva todos os dias. Nem sempre fazemos o que planeamos.” Ainda assim, é no esforço conjunto que encontram equilíbrio. “É preciso ceder e ter paciência”, defendem. “Não vai haver sempre dias bons, mas o que importa é o esforço para estarmos juntos e termos objetivos em casal. Remar para o mesmo lado.”

Uma filosofia que também se reflete noutro projeto comum: a Wise Wave Fanzine, uma revista dedicada ao hip hop em Portugal. “Somos nós os dois que tratamos de tudo — entrevistas, redação, design e impressão”, explicam. Com tiragem reduzida e periodicidade trimestral, cada edição ajuda a sustentar a seguinte.

Filhos, futuro e novas músicas no horizonte

Os filhos acompanham de perto este percurso. “Os mais velhos gostam de ver as nossas batalhas”, contam, entre risos. “O mais velho já diz que vai para a escola fazer rimas.”

Para Spitz e LC, o rap é mais do que confronto: é técnica, escrita e rigor. “Um bom artista é aquele que apaga mais do que aquilo que escreve”, afirmam. Entre batalhas, família e projetos editoriais, o casal prepara agora uma nova música, com lançamento previsto para breve. A batalha que os juntou em palco, por enquanto disponível no Patreon da Liga Knock Out, chegará mais tarde ao YouTube.

Num Dia dos Namorados longe dos clichés, Spitz e LC mostram que o amor também se constrói no improviso controlado, no trabalho árduo e na partilha de sonhos.