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Paredes
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"O beijo é um antidepressivo natural": A ciência do afeto explicada no Dia Internacional do Beijo

Neste 13 de abril, assinala-se o Dia Internacional do Beijo. Muito além do romantismo de cinema ou das convenções sociais, o ato de beijar esconde uma poderosa "bomba" química capaz de combater o stress, regular as emoções e ditar a nossa saúde mental.

Num mundo cada vez mais refém dos ecrãs e do isolamento pós-pandemia, fomos perceber o que acontece ao nosso cérebro quando os lábios se tocam. A resposta é dada por Alexandra Torres, psicóloga clínica com 25 anos de experiência, que nos deixa um alerta claro: o afeto é um caso de saúde pública.

A rotina diária empurra-nos, muitas vezes, para o piloto automático. O beijo apaixonado dos primeiros tempos de namoro dá lugar a um "selinho" mecânico à porta de casa, e o toque demorado é substituído pelo ecrã frio do telemóvel. Mas, do ponto de vista clínico, a fatura desse distanciamento físico é alta.

A residir em Lordelo, no concelho de Paredes, e a exercer maioritariamente em Paços de Ferreira, Alexandra Torres dedicou os últimos 25 anos da sua vida à Psicologia Clínica e da Saúde, com subespecialidade em Psicoterapia. Para a especialista, o beijo está longe de ser apenas um mero formalismo ou um ato de romance passageiro. "É a forma mais significativa da comunicação emocional", garante. "É um gesto simples, mas com um forte impacto na criação e na manutenção de vínculos".

A "bomba" hormonal e o antidepressivo natural

Quando damos ou recebemos um beijo com significado, o nosso corpo não reage apenas fisicamente; ele desencadeia uma complexa resposta neurobiológica. "Do ponto de vista psicológico, o beijo está associado à libertação de hormonas como a ocitocina, que promove sentimentos de segurança, proximidade e bem-estar", explica a psicóloga.

Estes pequenos gestos assumem um papel vital na nossa regulação emocional. Questionada sobre se o beijo pode ser catalogado como um autêntico antidepressivo natural e um antídoto contra o stress, Alexandra Torres é perentória: "É exatamente isso. O beijo aumenta a nossa sensação de bem-estar e de ligação. Apesar de ser um gesto de afeto, tem um impacto real e mensurável na nossa saúde mental, que hoje vemos tão afetada".

O abismo digital: Ecrãs vs. Afetos

Esse impacto negativo na saúde mental ganha contornos ainda mais preocupantes na era moderna. A especialista cita estudos recentes que comprovam que, desde a pandemia de covid-19, a sociedade ficou mais solitária e isolada. O principal vilão? A hiperconexão digital.

"Hoje parece que o nosso cérebro não está ligado a áreas motoras e sensoriais, mas, sim, onde está o TikTok, onde está o Instagram, onde está o X [antigo Twitter]", alerta a psicóloga. O diagnóstico é severo: quanto mais a nossa vida é invadida e mediada pelas redes sociais, mais as relações reais sofrem. "Reduzimos os nossos afetos, os nossos vínculos, e a nossa saúde mental sofre um decréscimo muito elevado".

O segredo do primeiro beijo e a intimidade a dois

Se há memória que resiste à passagem do tempo é a do primeiro beijo. Mesmo décadas depois, a esmagadora maioria das pessoas recorda com precisão o momento e o contexto. A justificação para essa "tatuagem mental" não é apenas poética, é puramente científica. "É toda a descarga emocional e neurobiológica que tivemos nesse momento", revela Alexandra Torres. "A expectativa de ser o primeiro beijo, a relação que se estava a manter... tudo isso traz-nos recordações porque não foi só o beijo físico, foi toda a descarga emocional que aconteceu e que recordamos com carinho".

Na vida adulta, e particularmente na dinâmica de um casal, essa descarga transforma-se no cimento da relação. Numa época em que o beijo já não precisa de ser "às escondidas", como outrora, a sua função é ainda mais basilar. "O beijar, e beijar muito, reforça o vínculo afetivo e cria proximidade entre o casal", defende a especialista, acrescentando uma máxima fundamental da terapia de casal: "Muitas vezes, o beijo diz aquilo que as palavras não conseguem dizer".

O "efeito espelho" na infância

Contudo, a história do nosso percurso afetivo não começa nos relacionamentos românticos, mas, sim, no berço. O beijo evolui de forma contextual ao longo da nossa vida: na adolescência e vida adulta liga-se à intimidade, mas na infância é o grande pilar do afeto e da segurança.

A forma como recebemos afeto em crianças afeta diretamente a forma como nos vamos relacionar no futuro. "Nesta questão, voltamos sempre aos vínculos e ao apego. Um pai afetivo e uma mãe afetiva criam filhos afetivos", sustenta Alexandra Torres. "Da mesma forma que o beijo cria relações adultas, em termos parentais, ele reforça a criança. A probabilidade de pais afetivos criarem futuros adultos com boa regulação emocional é muito maior".

O "povo dos beijinhos" e a linha do consentimento

Em Portugal, somos culturalmente reconhecidos como um povo "beijoqueiro". O clássico cumprimento de "dois beijinhos" faz parte do nosso ADN social. No entanto, os tempos mudaram e a discussão sobre o espaço pessoal e o consentimento está na ordem do dia. Como gerir este choque cultural?

Para a psicóloga de Lordelo, a resposta vive numa premissa simples que aplica diariamente na sua prática clínica: "A liberdade de uma pessoa termina quando começa a liberdade do outro".

"Quando dizemos que hoje é preciso consentimento para tudo, é importante que esta linha se mantenha", defende. O rigor do consentimento e o respeito pelo espaço alheio não devem ser confundidos com frieza. "É importante que uma pessoa saiba quando não pode transpor um 'não'. O meu espaço não deve ser invadido quando eu não quero. Isto não quer dizer que a pessoa não seja afetiva ou que não tenha regulação emocional; quer simplesmente dizer que definiu o que para si é ou não permitido".

O "receituário" final

Neste Dia Internacional do Beijo, a prescrição clínica da especialista de 25 anos de carreira não se avia numa farmácia, mas dentro de casa. Numa sociedade onde "o tempo e a disponibilidade emocional nem sempre acompanham as nossas necessidades", Alexandra Torres deixa um conselho prático e urgente a todos os leitores:

"É pertinente valorizar e relembrar a importância dos gestos de afeto no quotidiano. Sabemos que o beijo reduz o stress, diminui a ansiedade e reforça as relações interpessoais. Ao fazê-lo, estamos a prevenir, ou melhor, a fomentar a nossa saúde mental. E acho que isso é o mais importante", conclui.