logo-a-verdade.svg
Portugal
Leitura: 4 min

Paleontologia: Investigador da UTAD identifica planta fóssil com 300 milhões de anos

O paleontólogo Pedro Correia, da UTAD, identificou a planta Cyathocarpus felicianoi, um feto com 303 milhões de anos encontrado em coleções históricas do LNEG.

Redação

Um investigador da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) identificou uma planta primitiva com mais de 300 milhões de anos no acervo histórico dos Serviços Geológicos de Portugal. O espécime, que se encontra atualmente à guarda do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), foi alvo de um estudo aprofundado que culminou na descrição de uma nova espécie para a ciência.

O exemplar fossilizado, com uma idade estimada de 303 milhões de anos, foi estudado pelo paleontólogo Pedro Correia e recebeu a denominação científica de Cyathocarpus felicianoi. Esta descoberta, que contou com uma colaboração internacional, foi publicada na prestigiada revista científica Review of Palaeobotany and Palynology.

Coleção histórica esquecida durante oito décadas

A identificação desta espécie só foi possível graças à reavaliação de materiais que permaneceram longe do olhar da comunidade científica durante quase um século. Segundo Pedro Correia, o primeiro autor do artigo científico, o espécime holótipo foi descrito com base em materiais analisados originalmente por Carlos Teixeira na década de 1940.

O investigador da UTAD esclarece que esta coleção de grande valor permaneceu inexplorada no seu depósito original, tendo a sua relevância sido esquecida durante quase 80 anos. A recuperação destes dados permite agora dar continuidade ao trabalho iniciado por investigadores de referência no século passado, reforçando o património paleobotânico nacional.

Origem na Bacia Carbonífera do Douro

Os exemplares agora identificados têm uma ligação profunda ao Norte de Portugal e à história mineira da região. Zélia Pereira, investigadora do LNEG e co-autora do trabalho, explica que estes fósseis foram recolhidos durante campanhas de sondagem realizadas nas áreas de São Pedro da Cova e Midões, na década de 1930.

Este trabalho de recolha foi efetuado no âmbito do programa de avaliação dos recursos de carvão da Bacia Carbonífera do Douro. Na época, os técnicos que acompanhavam as operações de perfuração seguiram instruções rigorosas para a preservação de todos os fósseis encontrados, que foram posteriormente guardados em armários de madeira nas instalações do então Serviço de Fomento Mineiro.

Homenagem e valorização do património científico

A nova espécie identificada pertence a um grupo de fetos extintos do Paleozoico Superior. Em reconhecimento do trabalho pioneiro realizado pelo geólogo Carlos Teixeira, que estudou estes materiais em 1945, o acervo passou agora a designar-se oficialmente como Coleção Carlos Teixeira. Na década de 1960, estes materiais foram transferidos para São Mamede de Infesta, onde permaneceram guardados até ao recente interesse de Pedro Correia.

A designação específica da planta, Cyathocarpus felicianoi, serve também como homenagem a José Feliciano, geólogo do LNEG. Para Pedro Correia, esta descoberta reforça a importância das coleções de história natural para o avanço do conhecimento científico, nomeadamente sobre a diversidade dos fetos da ordem Marattiales no final do período Carbónico.

O estudo resultou de uma parceria entre a UTAD, os Serviços Geológicos da República Checa, através do investigador Zbynĕk Šimůnek, e o Laboratório Nacional de Energia e Geologia. O achado coloca novamente a Bacia Carbonífera do Douro no mapa da investigação paleontológica mundial, demonstrando o potencial ainda inexplorado das coleções históricas portuguesas.