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A Jornada de Cura de Deolinda Matos: Do Luto à Descoberta Holística

Deolinda Matos, terapeuta e coach holística, transformou a dor da perda e o bloqueio físico num espaço de cura interior.

Redação

A autora do livro "PROMETO Amar-Me" fala sobre a sua viagem de autodescoberta e o poder terapêutico do amor-próprio.

A vida de Deolinda Matos é uma prova de que, por vezes, é necessário que o chão nos falte para descobrirmos a força que reside dentro de nós. Hoje, terapeuta, coach holística e fundadora do espaço Holucare – Yoga e Terapias, a sua jornada começou com uma menina que não se sentia enquadrada nos padrões da sociedade. Uma criança altamente sensitiva e intuitiva, cuja capacidade de sentir a realidade de forma profunda foi, durante muito tempo, uma fonte de solidão.

A infância sensitiva e a solidão silenciosa

A intuição de Deolinda Matos manifestava-se desde tenra idade, em sinais que, na altura, não conseguia decifrar. “Na infância, eu sentia tudo com muita intensidade, mesmo sem perceber bem porquê. A minha intuição aparecia em coisas simples, como sonhos, notar quando alguém não estava bem, sentir o ambiente, aquelas sensações que não se explicam”, recorda.

No entanto, crescer com este dom sem as ferramentas para o gerir não foi um processo fácil. “Na altura, isso não era fácil. Sentia muitas vezes que era diferente… que não encaixava bem. E isso trouxe-me alguma solidão, por não me sentir compreendida.” Hoje, com a maturidade que a sua profissão e percurso lhe conferem, o olhar sobre essa menina é de aceitação profunda. “Hoje vejo que não havia nada de errado comigo. Eu só não sabia entender aquilo que já vivia dentro de mim.”

O luto como semente de transformação

O primeiro grande abalo na vida de Deolinda aconteceu aos 16 anos, com a morte do seu pai, o seu "primeiro amor". Esta perda representou um luto profundo e o desmoronar de um sonho profissional: ser Psicóloga. As últimas palavras do pai, um incentivo para que continuasse a estudar e a confiar, tornaram o momento ainda mais marcante.

Contudo, ao olhar para trás, a terapeuta reconhece que esta dor foi o primeiro passo para o trabalho de cura que desenvolve atualmente. “Hoje vejo que foi essa dor que me fez parar e olhar para dentro. Comecei a sentir mais, a observar mais, a querer compreender a dor, a minha e a dos outros, com outra sensibilidade”, explica. A ironia do destino fez com que a perda que a afastou da psicologia a levasse a um propósito semelhante. “O que parecia ter-me tirado o caminho, acabou por me aproximar ainda mais dele. E foi aí que começou, de forma silenciosa, o trabalho que hoje faço: estar presente, escutar e ajudar o outro a reencontrar-se, mesmo nos momentos mais difíceis.”

A dualidade entre os números e a intuição

Antes de se entregar às terapias holísticas, Deolinda Matos trabalhou durante anos como contabilista. A profissão, pautada pela lógica, pela racionalidade e pelos números, contrastava violentamente com a sua essência intuitiva. Viveu, nas suas próprias palavras, "um conflito silencioso".

“Estava na contabilidade, tudo muito lógico, estruturado, feito de números. Mas, ao mesmo tempo, lidava com pessoas… e essa era, sem dúvida, a parte que mais gostava”, partilha. Curiosamente, esta fase da sua vida viria a ganhar um novo significado mais tarde. “Com o tempo comecei a perceber que a minha ligação profunda aos números ia além do racional… foi aí que, mais tarde, a numerologia fez tanto sentido para mim.”

Durante este período, a necessidade de adaptação obrigou-a a camuflar quem realmente era. “Por dentro, sentia muito, intuía muito mas fui guardando essa parte. Fui-me adaptando ao que era esperado, tentando encaixar. Mas, no fundo, sentia que não estava a ser inteira. Como se uma parte de mim estivesse sempre em silêncio, presa a um lugar que não pertencia.”

A rutura física e o encontro com a cura holística

A negação contínua da sua intuição e essência acabou por cobrar o seu preço, manifestando-se fisicamente de forma devastadora. “Essa negação foi-me afastando de mim mesma e acabou por levar, mais tarde, ao momento de rutura que mudou tudo”, confessa. Não se tratou de um colapso imediato, mas de um culminar de circunstâncias.

“Foram cerca de quatro anos muito difíceis: exames, tratamentos, infiltrações… e dor constante. Cheguei a precisar de ajuda para coisas básicas, como levantar-me ou deitar-me, e houve alturas em que não conseguia caminhar com a perna esquerda.” Mesmo perante estas limitações, Deolinda mantinha uma busca inquieta, estudando Marketing em horário pós-laboral, movida por uma vontade de mudança inexplicável.

O ponto de viragem aconteceu durante uma crise de dor, impulsionado pelas palavras de uma professora. “Disse-me algo que me marcou: que eu também estava a bloquear a minha vida ao negar as minhas capacidades intuitivas.” O impacto foi imediato. “Aquilo ficou em mim. E foi aí que tudo mudou. Percebi que a minha cura não podia ser só física, tinha de olhar para dentro. E é aqui que surge a procura por terapias holísticas, nomeadamente, o Reiki. E foi esse passo que começou verdadeiramente a transformar a minha vida.”

O auto-resgate e o nascimento da Holucare

O processo de descobrir que "as respostas, o poder e a luz" residiam no seu interior exigiu coragem. Para quem se sente perdido, Deolinda Matos aconselha um abrandamento fundamental. “Um dos primeiros passos é parar e perceber que não tens de ter, nem procurar fora, todas as respostas. O caminho começa quando olhas para dentro, para a tua história e assumes responsabilidade por ti, com respeito.”

Destaca também a importância de reconhecer os nossos limites. “Passa por saber pedir ajuda. No autoconhecimento, não tens de fazer tudo sozinho. Mesmo com medo, escolhes dar um pequeno passo, seja ele interno ou através de apoio, em direção a quem realmente és. Porque não é sobre saber o caminho todo. É sobre teres coragem para começar, mesmo sem garantias.”

Desta transformação pessoal e da necessidade profunda de partilhar a sua jornada, nasceu a Holucare - Yoga e Terapias. “Depois de tudo o que vivi, senti que não fazia sentido guardar só para mim. Houve uma vontade muito clara de criar um espaço onde outras pessoas também pudessem parar, cuidar-se e reconectar-se”, partilha. O projeto começou de forma humilde, mas com um propósito imenso. “Tive a coragem de começar na garagem de casa… tanta era a vontade de ajudar.”

Hoje, a Holucare é um refúgio para quem a procura. “Quando alguém entra, encontra um espaço que é como uma casa, onde se abranda, se respira e se começa a olhar para dentro. Muitas vezes, é ali que vejo verdadeiros ‘milagres’ acontecer, quando as pessoas tomam consciência de quem são e do que vieram viver.”

As ferramentas do coração: Escuta e presença

Num mundo cada vez mais digital e apressado, as ferramentas eleitas por Deolinda Matos – "o coração, as mãos, os abraços e a voz" – assumem uma relevância crucial. “Numa sociedade tão apressada e distante, é o simples que se torna essencial. Um abraço genuíno tem um poder que não se explica… é como dizer ‘estás seguro’ sem palavras. Muitas vezes, é nesse momento que a pessoa baixa as defesas e se permite sentir”, reflete a terapeuta.

O poder terapêutico destas ações simples é imensurável, particularmente quando complementado pela escuta ativa. “A escuta ativa é das formas mais profundas de cuidado. Porque não é só ouvir, é estar verdadeiramente presente, sem julgar, sem interromper, sem querer resolver tudo. Hoje, falta-nos isso: tempo para sentir e espaço para ser. E é aí que está o verdadeiro poder terapêutico: no coração que acolhe, nas mãos que transmitem, no abraço que envolve e na voz que guia. Às vezes, é no mais simples… que acontece a maior cura.”

"PROMETO Amar-Me": A vulnerabilidade em forma de livro

A sua história de superação e as ferramentas que a auxiliaram no processo culminaram na autoria do livro "PROMETO Amar-Me". A obra nasce do desejo de que a sua vivência pudesse servir de farol para outros. “Tudo o que vivi não podia ficar só em mim… precisava de levar mais longe a voz da minha verdade. Mais do que escrever, foi um processo de entrega”, revela.

A premissa da obra é um convite ao despertar interior. “Tudo começa quando redescobres a tua essência e despertas a tua luz interior. É uma jornada de desenvolvimento pessoal e espiritual, onde a pessoa é convidada a olhar para dentro, a compreender a sua energia, a aprender a amar-se, a manifestar os seus sonhos e a reconectar-se com o seu propósito, para viver com mais plenitude e paz. Porque, no fundo, a maior promessa que podes fazer… é contigo.”

O processo de escrita exigiu vulnerabilidade, obrigando Deolinda a confrontar e a sarar feridas antigas. “Escrever o livro foi, muitas vezes, voltar àquela ‘menina’ e olhar para ela com mais verdade. Houve momentos em que precisei de sentir de novo e acolher. Sobretudo feridas de não me sentir suficiente, de me adaptar para ser aceite.”

Foi um encerramento doloroso mas necessário, transformando as suas vivências em lições práticas. “Foi também um fechar de ciclos dentro de mim. Percebi que escrever não era só partilhar a minha história, mas também trazer ferramentas e estratégias que eu própria aplico na minha vida. E talvez seja isso o mais bonito: quando tens coragem de te olhar com amor… começas, verdadeiramente, a curar.”

Um passo simples para o amor-próprio

Perante a banalização da palavra "amor-próprio", Deolinda Matos sublinha que o verdadeiro compromisso consigo mesmo reside nos pequenos gestos diários. Para quem deseja iniciar esta jornada, a terapeuta deixa um conselho prático e imediato.

“O amor-próprio não começa em grandes mudanças, começa na forma como te tratas no dia a dia. Um primeiro passo simples é parares uns minutos e fazeres uma pergunta honesta: ‘Como é que eu tenho falado comigo?’ Sem julgar, só observar.”

A partir desta consciencialização, o caminho constrói-se com ações deliberadas. “Escolhe um pequeno gesto, pode ser dizer ‘não’ a algo que não queres, respeitar o teu tempo, ou até falares contigo com mais cuidado. Não tem de ser perfeito. Tem de ser consciente. Porque amar-te não é um conceito, é uma prática diária, feita de pequenas escolhas que mostram a ti própria que és importante.”