O gosto pelo jornalismo sempre esteve presente na vida de “Ana”, mas foi a carreira de professora que a conquistou e que, mais tarde, viria a abandonar pelo assédio moral vivido na primeira pessoa.

“Queria mesmo jornalismo e trabalhei na área, mas na universidade com o exemplo de alguns professores que tive, especialmente de uma professora muito nova, readaptei os meus objetivos”, começa por relatar “Ana” ao Jornal A VERDADE.

“Ana” confessa que apesar da paixão “precoce” pela área da escrita, dar aulas era também uma “paixão”. O processo foi longo, “boas notas, investigação, mestrado e doutoramento”, foram as etapas que essa professora, que tinha como referência, a aconselhou a percorrer.

Foi o ensino universitário que sempre a cativou, “não era a ideia de ser professora, porque é preciso uma vocação muito específica”, mas lecionar para alunos “mais velhos”, aliando a componente da investigação. 

Terminado o curso em Ciências da Comunicação, “Ana” começou a trabalhar num jornal local. Por volta dos 26 anos, a frequentar o mestrado, começa a lecionar as primeiras aulas. “Foram só umas semanas à experiência e adorei. Fiquei logo com a certeza de que era aquilo que queria fazer”, confessa.

Já mais tarde, na bolsa de doutoramento, “Ana” conta que sentiu a “falta do contacto com as pessoas” e, então, decidiu falar com ex-professores para que caso “houvesse alguma oportunidade para dar aulas preferia em vez de estar só a estudar e a investigar”.

E assim foi, a convite de um ex-professor, foi pela “primeira vez” dar aulas a tempo inteiro, fazendo uma interrupção no doutoramento. “Ana” tinha uma filha pequena, mas estava disposta a ir “onde fosse preciso”. Adorou a experiência, os alunos também e, no final do semestre, “fizeram pressão para que ficasse lá”.

“Comecei a dar aulas com 30 anos, havia uma diferença muito pequena de idades e, de alguma forma, fui acompanhando alguns alunos não só pelas redes sociais, como até me fui cruzando com alguns profissionalmente. Fico muito contente, não porque estão num cargo importante, mas por serem boas pessoas e para mim vale muito”, confidencia.

Foram 13 anos a dar aulas, o início “foi muito bom, senti que foi um intercâmbio de conhecimentos, mas os últimos três anos não foram bons”, relata “Ana”.

Foi progredindo na carreira, assumindo novas responsabilidades e visibilidade entre os colegas. “Estava lá há pouco tempo e assumi logo um cargo importante, porque não havia muitas pessoas na minha área”, conta a ex-professora, acrescentando que quando assumiu a vice-coordenação “alguns professores mais velhos não reagiram muito bem”.

Após o término do doutoramento, passa a integrar vários órgãos como o Concelho Científico e Pedagógico, meios com “muitas hierarquias, com pessoas instaladas há muitos anos” naquelas funções. “Ana” identifica este momento como o início do fim, uma vez que, na sua visão, os interesses dos alunos “deviam estar em primeiro lugar”, mas percebeu que “questões internas de docentes e pessoas com cargos superiores se sobrepunham”.

A situação “limite” deu-se quando “Ana” decidiu não assumir a direção do curso. “Estávamos há dois meses com uma das turmas sem os professores todos e eu disse que era preciso contratar. Como isso não era feito acabei por me demitir”, conta.

No momento em que começa a tocar “nas feridas”, geraram-se “ameaças entre colegas, danos físicos em alguns objetos”, relata. O seu gabinete foi “vandalizado”, assim como o carro. Apresentaram queixas como forma de a “desgastar”, não a deixavam “falar em algumas reuniões”, e o que a “chocou ainda mais” foi o término de disciplinas.

“Ana” lembra que ficou “psicologicamente e fisicamente doente” e esteve períodos retirada das funções. Pensou pedir mobilidade, mas o reitor, que estava com “má vontade”, tinha de aceitar. Infeliz com a situação pensou tomar uma “medida radical”, mesmo sendo penalizada a nível financeiro, um ano de licença sem vencimento, “algo que não podiam recusar”, segundo o sindicato, mas também recusada.

Depois da última tentativa, dirigiu-se novamente ao sindicato que lhe dizia que estava no seu direito, tinha testemunhos de colegas e alunos que não queria “envolver”, mas que tinham testemunhado “em aulas, reuniões e ameaças por escrito”. Contactando um advogado foi-lhe dito que estava a lutar “contra um gigante e que ia ser muito complicado”, mas estava disposta a ir em frente. 

Havia apenas um “senão”, o caso poderia arrastar-se durante “anos”. Numa situação, que a própria descreve como “frágil”, não queria começar essa “guerra” e explorar um assunto que ia ser “constantemente” falado. Tomou a decisão que “eles queriam”, saindo prejudicada “psicológica e financeiramente”, mas hoje talvez “tivesse agido de forma diferente”, confessa.

“Ana” conta que toda a sua vida foi projetada para o doutoramento e nunca teve ajuda da entidade para o poder fazer. “Disseram para me desenrascar, nem um semestre me deram. Conciliava as aulas com a família, não tinha fins de semana, noites também não, ou seja, é como se o objetivo de uma vida de repente deitasse fora”. O apoio da família “foi importante”, porque parecia uma “loucura para alguém que se esforçou tanto para chegar ali”. Sabe que não foi a decisão “mais racional do mundo”, mas teve o apoio dos pais e do marido.

Em 2021 “Ana” recebeu o convite de uma universidade para lecionar durante um semestre que foi “muito bom”, mas que a fez perceber que tinha ficado com “muitos receios e inseguranças” e sobretudo que ainda gostava de dar aulas. 

“Nunca foram os alunos que me fizeram desistir do ensino, foi o ambiente de trabalho, colegas e chefias intermédias e superiores. O que eu tenho saudade é do contacto que tinha com os alunos, e dizia na brincadeira que nunca ia envelhecer porque colocavam a par da linguagem ou das tendências. Sinto falta disso.” A ex-professora confessa que ainda sente muita mágoa, mas espera um dia conseguir voltar a sentir a “realização a fazer seja o que for”, aproveitando todo o seu percurso. 

Deixando uma mensagem a todas as pessoas que possam viver uma história como a sua, “Ana” considera que é importante que logo no início se perceba que está a acontecer. “Se for um colega/um par, dar conta a uma entidade superior, se for transversal dar logo conta uma entidade externa“, acrescentando que “ter alguém com quem conversar também é importante porque, por vezes, ficamos com vergonha do que está a acontecer e não devemos”.

Finaliza com o conselho de agir de imediato porque as situações assumem “proporções desmedidas” e chegam a invadir o espaço “pela casa dentro”.