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Paços de Ferreira
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'Quim Golo' pendurou as botas: O adeus da lenda que nunca levou o telemóvel para o balneário

Joaquim Martins, o eterno "Quim Golo", encerrou oficialmente o seu ciclo no futebol competitivo.

Aos 44 anos, o avançado que começou a formação no Paços de Ferreira, em 1988, e que chegou a ser diretor desportivo, despediu-se dos relvados no clube da sua terra, o Carvalhosa, com uma subida de divisão inédita e o brio de quem nunca soube jogar "a feijões".

O nome de Joaquim Martins, mais conhecido no mundo do futebol como "Quim Golo", é sinónimo de finalização. A alcunha, recorda, surgiu por volta de 2007 ou 2008, durante a sua passagem pelo Amarante, época em que ajudou a equipa a subir à Segunda Divisão B. No entanto, o seu percurso começou muito antes e noutras posições: foi lateral-direito e extremo antes de se fixar como ponta de lança, uma transição que ocorreu plenamente por volta de 2012/2014, quando representava o Lousada.

O instinto que o tempo apurou

Com a sua idade, Quim contraria a lógica do declínio físico. "O instinto é melhor agora do que era há 10 ou 20 anos", afirma. Para o avançado, a experiência adquirida permitiu-lhe abordar os lances com uma eficácia que a juventude não possuía. Os números sustentam a tese: no projeto do Lousada, sob a presidência de Sandro Sousa, marcou mais de 120 golos em apenas quatro anos, até à paragem forçada pela pandemia.

O seu currículo é uma escada de sucessos. Quim subiu de divisão em quase todos os escalões — da Segunda Distrital à Segunda B. Pelo meio, viveu momentos de "tomba-gigantes" que marcaram o futebol português: fez parte do Gondomar que eliminou o Benfica no Estádio da Luz e, mais tarde, pelo Penafiel, voltou ao mesmo palco numa decisão por penáltis dramática. Em 37 anos de futebol, orgulha-se de uma marca rara: não se lembra de ter sofrido uma única descida de divisão.

O fato de diretor e o chamado do relvado

Houve um hiato na carreira de jogador quando Quim aceitou o cargo de diretor desportivo no Lousada, a convite do então presidente Elídio. Na altura, desiludido com o futebol e sentindo-se com excesso de peso, acreditou que era o momento de parar. Contudo, a experiência no gabinete não o preencheu. "A decisão não foi a melhor", admite agora.

O regresso ao campo aconteceu de forma quase acidental. Começou por fazer "uns treininhos" a convite do treinador Patrick para ajudar o plantel, mas em três semanas o mister desafiou-o a ser inscrito. Quim aceitou para ajudar o Lousada e acabou por jogar mais quatro anos após esse interregno, provando que o "fato" de dirigente ainda não lhe servia.

O choque com a juventude e o rigor no balneário

Com uma filha de 23 anos, Quim lidou nestas últimas épocas com colegas que tinham idade para serem seus filhos. O choque geracional é um dos pontos mais vincados da sua reflexão. O avançado lamenta a falta de compromisso e de seriedade dos mais novos: "Muitas vezes, não têm respeito pelos mais velhos, faltam aos treinos e vêm quando querem".

No balneário, Quim era visto como um capitão "frio" e "exigente". Uma postura que assume sem hesitação. "Sempre fui uma pessoa de levar as coisas muito a sério. Para passar o tempo, vai-se para o parque ou para a pesca". O seu nível de brio era tal que nunca permitiu telemóveis no balneário, deixava o seu sempre no carro, e considera "inadmissível" ver colegas a consultar apostas no telemóvel durante o intervalo de um jogo.

O regresso às origens e a promessa à filha

O fecho da carreira foi planeado para ser em casa. Natural de Carvalhosa, Quim fez questão de representar o clube da sua terra nos últimos dois anos, a convite de Marco Aurélio. A despedida foi épica: o Carvalhosa subiu de divisão pela primeira vez na sua história. "Terminar com o culminar de uma subida de divisão deixa-me completamente radiante e lisonjeado", confessa.

O ponto final oficial aconteceu este mês: o último jogo do campeonato a 12 de abril e a última partida oficial a 15 de abril, para a Taça Capital do Móvel. A decisão, diz ser "100% tomada", motivada por uma promessa feita à sua filha mais nova: quando ela fizesse 10 anos, ele deixaria o futebol competitivo para se dedicar à família.

Quim Golo admite que, desde os 18 anos, o futebol foi sempre a sua prioridade absoluta, muitas vezes à frente de amigos e família. Agora, as chuteiras da AF Porto ficam no prego. O futuro passará apenas pelas Velhas Guardas do Paços de Ferreira, o clube onde tudo começou, para manter o convívio, mas sem a pressão da competição que o consumiu durante quase quatro décadas. "Eu se calhar é que estou a mais, porque levo isto demasiadamente a sério", conclui aquele que foi um dos mais letais finalizadores do futebol regional.