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Paredes
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O porteiro da Escola de Vilela (Paredes): Adelino Fonseca e a importância de um "olá" que pode salvar o dia

Hoje, 21 de novembro, celebra-se o Dia Mundial da Saudação. Na Escola Básica e Secundária de Vilela, em Paredes, há um rosto que faz desta data uma prática diária. Adelino Fonseca, de 55 anos, passou da solidão das noites de guarda para a agitação dos portões, onde ensina que a educação começa num simples cumprimento.

Redação

Para centenas de alunos, o dia letivo não começa com o toque da campainha, mas, sim, com o aceno de Adelino Fonseca. A residir em Lordelo e a trabalhar nesta escola há 28 anos, Adelino é a primeira barreira – não física, mas humana – que as crianças e jovens encontram. E ele leva essa missão a sério.

O percurso profissional de Adelino nem sempre foi feito de "bons dias". Aos 18 anos emigrou, mas regressou passado um ano. Trabalhou em segurança privada no Porto e, com cerca de 20 anos, entrou para a escola de Rebordosa como guarda-noturno. Mais tarde, fixou-se em Vilela, onde durante cerca de 10 ou 15 anos foi o guardião da escola durante a noite.

A mudança deu-se quando a vigilância eletrónica substituiu a presença humana noturna. "Com a transição da carreira era assim: ou passava para o turno de dia ou ia embora", recorda. A escola ganhou com a troca: o homem habituado ao silêncio da noite tornou-se na primeira voz da manhã.

A persistência vence a timidez

Para Adelino, a saudação não é apenas um formalismo, é um termómetro do estado de espírito dos alunos. "Sim, influencia muito", garante, sobre o impacto do seu cumprimento matinal. A estratégia é a da persistência gentil, quase como um método de ensino informal.

"Mesmo que eles não me digam bom dia, eu digo. E digo-o hoje, amanhã e depois", explica o assistente operacional. Adelino sabe ler os silêncios. Percebe que, muitas vezes, a falta de resposta não é má educação, mas, sim, o peso da adolescência ou dos problemas de casa. "Podem ser tímidos, podem vir maldispostos, podem ter um problema... é uma maneira de eu começar a interagir com eles", conta.

Quando o "bom dia" não chega, Adelino usa outras ferramentas: "Às vezes, é dizer uma piada, fazê-los rir". O objetivo é quebrar o gelo, mas passar a mensagem de que "toda a gente deve dizer bom dia, é uma questão de educação".

Um "bom dia" que serve de abrigo

Para além dos sorrisos e das brincadeiras, Adelino sabe que a sua posição lhe dá uma visão privilegiada sobre as dores silenciosas da adolescência. Sem entrar em detalhes, recorda momentos em que o seu instinto lhe disse que um aluno não estava apenas triste, mas em perigo emocional.

"Percebemos quando o olhar muda, quando o caminhar é diferente", partilha. Já houve dias em que a sua intervenção, ou o simples ato de não ignorar um rosto carregado, foi decisivo para amparar um jovem numa situação de grande fragilidade.

Para o porteiro de Vilela, estes episódios são a prova de que estar à porta da escola é muito mais do que controlar entradas e saídas: é ser uma primeira linha de afeto e segurança. 

A sinceridade dos mais pequenos

Habituado a ver passar gerações, Adelino Fonseca confessa um carinho especial pelos recém-chegados do 5.º ano. "Gosto mesmo muito de trabalhar com os pequenos", admite. Define-os como "mais ariscos, mais alegres" e, acima de tudo, "mais sinceros naquilo que dizem".

A tarefa de incutir o hábito da saudação revela-se diferente consoante as idades. Enquanto os mais novos "são mais fáceis de educar", os alunos mais velhos, muitas vezes transferidos de outras escolas, trazem outros vícios. "Às vezes não dizem nada, eu é que começo por dizer", remata, sem desistir de arrancar uma resposta.

A falta de respeito (às vezes) usa óculos escuros

Se a timidez dos alunos é compreensível, a atitude dos adultos nem sempre é tão fácil de digerir. Adelino admite que há dias em que o silêncio do outro lado magoa ou causa estranheza, especialmente com aqueles que passam de "nariz empinado" —, mas a sua resposta é invariável: insiste no cumprimento.

Curiosamente, o porteiro de Vilela revela que os desafios à boa educação não chegam apenas das mochilas dos estudantes. "Numa portaria, a maior falta de respeito que eu sinto, de vez em quando, até é em relação aos colegas de trabalho ou professores", desabafa.

O exemplo que dá é prático e visual: a barreira dos óculos de sol. Adelino relata episódios em que adultos entram no recinto com o rosto tapado, murmuram um "boa tarde" apressado e estranham se não forem imediatamente reconhecidos.

"Às vezes até me dizem: 'Não me está a conhecer?'. E eu digo: 'Vai-me desculpar, mas está de óculos escuros e não sou obrigado a conhecer'", conta. Com mais de uma centena de professores na escola e uma rotatividade anual de docentes, Adelino recusa-se a adivinhar quem se esconde atrás das lentes: "Não havia de estar [de óculos]. O interagir verbalmente, para mim, é sempre importante".

Apesar destes episódios pontuais, Adelino Fonseca faz questão de ressalvar que não são a regra. Sente-se no "direito de interagir, seja com quem for", porque acredita que é na troca de palavras que se ganha a confiança. Um método que parece dar frutos: "Ao longo dos anos, sinto que tenho muito bom ambiente com a comunidade escolar de Vilela".

O risco das palavras e a "maldade" num simples "amor"

Lidar com uma nova geração obriga a um jogo de cintura constante. Adelino Fonseca admite que tenta adaptar-se, procurando "descer e subir ao nível deles" e até compreender a dinâmica das redes sociais. No entanto, confessa que sente um peso crescente em cada interação: o medo de ser mal interpretado.

"Tenho de ter cada vez mais cuidado da maneira como falo, porque uma conversa pode ser mal entendida se for levada para fora da escola", explica. O porteiro sente que o mundo mudou e que a espontaneidade, por vezes, paga uma fatura alta.

O exemplo mais flagrante é o uso de termos carinhosos. Com cerca de 800 alunos a passar-lhe pela frente, Adelino confessa ter o "vício" de usar palavras como "amor" ou "princesa" para colmatar a impossibilidade de saber o nome de todos. "Ó amor, faz-me isto... Não é fácil memorizar o nome de toda a gente", justifica.

Contudo, o que para ele é uma ferramenta de proximidade e afeto, para outros é visto com desconfiança. Adelino partilha que já foi confrontado por adultos que questionaram o seu excesso de confiança. "Houve alguém que já me disse: 'mas você tem uma confiança... você não havia de falar assim'", lembra.

Esta vigilância sobre a linguagem deixa-o triste, sentindo que, muitas vezes, os adultos "veem maldade" onde ela não existe. A preocupação é real, ao ponto de o ter levado, ainda ontem, a questionar um psicólogo da escola sobre se o seu modo de estar estaria errado.

Uma profissão desvalorizada, mas onde nunca faltará um sorriso

Apesar da dedicação, Adelino não esconde algum desencanto com a forma como a sociedade olha hoje para a sua função. "Sinto que cada vez mais é desvalorizado o papel do porteiro", desabafa, lamentando a perda de reconhecimento de uma figura que, na prática, é o primeiro rosto da instituição escolar.

No entanto, essa desvalorização externa não lhe retira a vontade de estar presente para quem realmente importa: os alunos. Para as centenas de crianças e jovens de Vilela, a garantia mantém-se inalterada. Haverá sempre espaço para uma piada, um "olá" ou um "como estás" diário.

A promessa é feita pelo próprio Adelino Fonseca, de forma perentória e repetida, como quem sela um compromisso: "É claro que sim, é claro que sim".

Neste Dia Mundial da Saudação, fica o exemplo de quem faz do cumprimento não uma data no calendário, mas uma missão de vida.