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Marco de Canaveses
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“Pensei que a minha vida estava a acabar”: A luta de João Couto contra a tuberculose

Durante anos, o estado de saúde de João Couto foi piorando de forma gradual. Entre episódios de desconforto, mal-estar e dificuldades respiratórias, o pedreiro, natural de Alpendorada, procurou, por diversas vezes, uma resposta clínica para a sua condição.

Redação

Só aos 49 anos, após inúmeras tentativas para identificar a origem de tantos estragos, é que os médicos confirmaram o diagnóstico decisivo, já no pico do “desespero” do alpendoradense: João Couto tinha tuberculose.

Trabalhador no setor da transformação de pedra desde os 15 anos, João Couto não hesita em afirmar: “Fui pedreiro a minha vida toda, é trabalho duro, mas era o que havia na altura”.

A dura realidade das pedreiras

O alpendoradense fez um pouco de tudo dentro do setor, trocando de ofício ao longo dos anos, o que lhe permitiu observar a evolução das condições laborais. “Quando era mais novo não tínhamos máscaras, nem biqueiras de aço, nem luvas nem nada. Carregávamos pedras aos ombros se fosse preciso e não havia preocupações nem com a segurança nem com a saúde dos pedreiros. Não se falava disso sequer”, explica.

Desde então, o próprio reconhece que tem havido uma atenção crescente às condições de segurança dos trabalhadores. No entanto, no caso de João Couto, após anos de labor sem as devidas precauções, já era tarde para reverter os efeitos dessa negligência.

Sinais de alerta e o medo de um fim prematuro

Os sintomas agravaram-se de forma gradual: “Sempre que ficava constipado, tossia sangue, eram os primeiros sinais de que já não estava bem”.

Apesar das consultas com vários especialistas, a doença só foi detetada após dois episódios críticos de insuficiência respiratória. “Nessa altura pensei que a minha vida estava a acabar, que ia ser o meu fim”, revela. Não é de admirar, por isso, que ao receber a resposta final — tuberculose —, o paciente se tenha sentido “aliviado e contente, agora que sabíamos o que era talvez já houvesse uma cura”.

De facto, a tuberculose tem tratamento. Um processo que, na maioria dos casos, dura cerca de seis meses — meio ano em que a palavra-chave não é alívio, mas luta.

“Foi um período muito complicado. Tinha de ir sempre ao posto médico tomar a medicação e o meu corpo reagiu muito mal e rejeitava os comprimidos. Ganhei muita febre, a minha cara rebentou em ferida e estava tão enjoado que nem conseguia beber água”.

A ameaça silenciosa da sílica e a evolução da doença

Embora os médicos não consigam confirmar a origem exata da infeção, a verdade é que a inalação de poeiras de sílica nas pedreiras provoca silicose, uma doença pulmonar que propicia o desenvolvimento da tuberculose.

“Nunca desconfiei que podia ter tuberculose por causa do meu trabalho. Pouco ou nada se falava desse assunto. Só sabia que estava a sentir-me desgastado com tosse e febre. Mas agora sei que a tuberculose começa de forma silenciosa e demora anos a evoluir”.

Novos hábitos e o apelo à prevenção no setor da pedra

Após vencer a doença, João Couto regressou ao ofício; contudo, a forma como encara a profissão mudou para sempre. Por recomendação médica, o alpendoradense não prescinde de usar máscaras com a proteção específica para reduzir o contacto com o pó da pedra. Adotou também um fato de macaco exclusivo para o trabalho, evitando trazer poeiras para casa.

Precavendo-se para não comprometer novamente a sua saúde, reflete sobre a realidade do setor e retira algumas lições. “Devíamos ser todos obrigados pelas nossas entidades patronais a usar as devidas proteções contra o pó. Era mesmo importante aumentar a fiscalização destes fatores nas pedreiras, porque este trabalho nunca vai deixar de existir”.

Um aviso para o futuro

Apelando ao bom senso dos colegas de ofício, o pedreiro deixa um conselho: “Tenham os devidos cuidados agora, porque mais tarde se vão arrepender”. De forma simples, reforça o alerta: “quando se é novo parece que não há nada que nos pegue, mas nós nem imaginamos o que nos pode aparecer no futuro”.

Além da melhoria nas condições laborais, aponta o aumento dos rastreios como uma solução crucial para prevenir e combater a doença. “Quando passei por isto, se houvesse mais rastreios se calhar não tinha andado tanto tempo a arrastar o diagnóstico”.

Consciente de que, depois da tuberculose, a vida ganha outras limitações, o testemunho de João Couto serve de aviso para as consequências da falta de precaução. “A tuberculose veio para ficar, a minha saúde nunca mais foi a mesma e agora ando sempre mais cansado”.