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Lousada
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O Natal mora numa garagem em Meinedo e é obra de um jovem de 17 anos que promete fazer presépios "até morrer"

Na Rua Alto da Sanguinha, o Natal não se compra feito: constrói-se. Rúben Sousa, estudante do 11.º ano, contraria a ditadura dos ecrãs e a rapidez dos tempos modernos para, com as próprias mãos, erguer um cenário bíblico e etnográfico com 800 peças.

Redação

O que começou por curiosidade, inspirado pelas memórias do avô Manel, transformou-se numa romaria que, muitas vezes, só termina às dez da noite. Quem passa pelo número 89 da Rua Alto da Sanguinha, em Meinedo (Lousada), dificilmente imagina o mundo que se esconde por trás do portão da garagem.

Ali, longe das luzes artificiais dos centros comerciais, respira-se uma tradição antiga, mantida viva não por um artesão de cabelos brancos, mas por um adolescente de 17 anos.

Rúben Sousa é um jovem "fora do baralho". Enquanto a maioria da sua geração se perde nas redes sociais, ele conta peças de barro, musgo e figuras articuladas. Este ano, são 800 as peças que compõem o imaginário que decidiu partilhar com a comunidade. "No ano passado eram 400, este ano são 800. Acrescentámos um bom pedaço", conta, com a naturalidade de quem vê no crescimento do presépio o crescimento da sua própria ambição artística.

A semente do Avô Manel

Para percebermos o porquê de um rapaz de 17 anos dedicar um mês inteiro dos seus tempos livres (depois da escola e fins de semana) a montar cenários, é preciso recuar no tempo. A culpa, no bom sentido, é do avô materno.

"O meu avô Manel fazia um presépio grande em casa e sempre me contou a história de que gostava de fazer aqueles presépios grandes, com banda de música e tudo", recorda Rúben. As histórias do avô povoaram-lhe o imaginário até que, aos 12 anos, a curiosidade venceu: "Decidi saber qual era a sensação e a experiência de fazer um".

Começou com 50 peças. O "bichinho" pegou e a coleção nunca mais parou de crescer. Natural de Bustelo (Penafiel), mas residente em Meinedo há nove anos, Rúben encontrou nesta arte uma forma de expressão.

Uma viagem entre a Bíblia e as tradições de Lousada

Quem visita a garagem de Rúben não encontra apenas o nascimento de Jesus. O seu presépio é um híbrido cultural e religioso, onde a narrativa bíblica se cruza com a identidade local.

"um pouco de tudo", como o próprio descreve. Estão lá representadas a procissão da Igreja de Meinedo à Capela de Santa Ana, trazendo a geografia da freguesia para dentro da história sagrada. Há representações de trabalhos agrícolas e da vida de antigamente, festas e diversões. E, claro, a vida de Cristo: do nascimento à crucificação.

E engane-se quem pensa que o jovem se limita a acrescentar peças ao cenário do ano anterior. A exigência é maior. "Todos os anos é desmontado e todos os anos é voltado a montar. Não gosto de manter igual, é sempre tudo diferente, com formatos e dinâmicas diferentes", explica.

Portas abertas até às dez da noite

O ano passado foi o teste de fogo: a primeira abertura ao público. O sucesso foi tal que repetir a dose tornou-se obrigatório. Desde que abriu portas, no passado dia 6 de dezembro, registando mais de 50 visitantes logo nos primeiros dois dias, a afluência não parou.

Vêm de todo o lado. Vizinhos de Meinedo, curiosos de Lousada, mas também gente de Gondomar, Guilhufe (Penafiel) e Lustosa. O horário estipulado, que previa o fecho às 19h00, tornou-se apenas uma referência indicativa. A procura é tanta que o Rúben, incansável anfitrião, muitas vezes só consegue fechar a garagem às 22h00. "Não consigo mesmo fechar a porta às sete. Tem sido mesmo muita gente", confessa, sem esconder o orgulho.

Um jovem que emociona e se emociona

Rúben tem consciência de que o seu perfil destoa. "Muita gente diz que é estranho, porque nunca se viu alguém com esta idade fazer um presépio, principalmente agora que a juventude não liga muito a isto". Mas essa diferença não o isola; pelo contrário, integra-o. Além do presépio, toca no grupo de cavaquinhos de Santa Marinha de Lodares e participa ativamente na vida da comunidade.

Quando os visitantes, muitos deles com idade para serem seus avós, elogiam o trabalho, o jovem construtor não fica indiferente. "Fico todo contente. Trabalho arduamente, com o meu gosto, para que as pessoas gostem. Chego a ficar emocionado", admite.

Sobre o futuro, a certeza é absoluta. O presépio não é uma fase da adolescência, é um compromisso de vida. Independentemente de onde a vida o levar, ou de quando sair de casa dos pais, as figuras de barro irão com ele. A promessa fica registada: "Quero continuar com isto mesmo. É até morrer, como diz o outro".

Informações de visita: O presépio de Rúben Sousa está patente na Rua Alto da Sanguinha, n.º 89, em Meinedo. A entrada é livre e a visita é guiada pela paixão de quem construiu tudo sozinho.