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Marco de Canaveses
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Bininha e os seus quase 90 anos: O voluntariado como razão de viver

Albina Teixeira Pereira, conhecida por todos como Bininha, é voluntária diária da Associação Alegria de Crescer, em Marco de Canaveses. Com 89 anos, a completar 90 em setembro, mantém uma rotina ativa, determinada e movida por uma vontade simples: ajudar quem precisa.

Redação

 Solteira, sem filhos e natural de Rio de Galinhas (Marco), Bininha começou a trabalhar muito nova. Passou 21 anos numa fábrica de papel, seguiu depois para França, onde trabalhou num hotel, e regressou a Portugal já reformada, aos 52 anos. Foi nesse regresso que percebeu que ainda tinha muito para dar aos outros e decidiu dedicar-se ao voluntariado.

Durante cerca de 16 anos esteve ligada à Escola EB1 da Barroca, onde trabalhou com crianças. A pandemia da Covid-19 acabou por interromper essa etapa, mas não a sua vontade de continuar ativa. Há cerca de quatro anos, encontrou na Associação Alegria de Crescer um novo espaço para prosseguir aquilo que assume ser a sua missão diária. “Não gosto de estar parada”, afirma com convicção. Todos os dias começa a manhã com uma caminhada para manter as pernas ativas. No inverno, adapta o exercício ao espaço de casa, contando passadas para se manter em movimento. Depois, segue para o local onde diz sentir-se verdadeiramente feliz: a Alegria de Crescer.

À chegada às instalações, há um gesto que se repete diariamente e que simboliza o orgulho que sente no papel que desempenha: Bininha coloca o seu crachá identificativo, onde se lê “Bininha – Voluntária”. Exibe-o com satisfação, como quem assume, com simplicidade, uma função que considera essencial na sua vida. Só depois começa o dia, sempre disponível para ajudar no que for preciso.

Ajuda a pôr e a arrumar mesas, apoia nas refeições, colabora nas atividades manuais, incentiva os utentes e distribui carinho. “Aqui faço tudo por amor”, resume.

Filha do meio de uma família de sete irmãos – dos quais apenas um está vivo, a residir em França –, Bininha vive sozinha. Confessa que os fins de semana são os dias mais difíceis. “São mais vazios”, admite. Ao domingo mantém uma rotina que lhe dá algum conforto: almoça em casa de uma amiga, vai à missa e espera o telefonema da sobrinha e afilhada, que lhe liga de Lyon, em França. Ainda assim, é a chegada de segunda-feira que mais a anima. É o regresso ao convívio diário e ao voluntariado que considera a sua “razão de viver”.

Um exemplo de envelhecimento ativo

Para a direção técnica da Associação Alegria de Crescer, a presença de Bininha é muito mais do que simbólica. Patrícia Monteiro, diretora técnica da instituição, sublinha que a voluntária representa um verdadeiro exemplo de envelhecimento ativo. “Mostra-nos que todos têm utilidade, independentemente da idade. Respeitando as individualidades e as competências de cada pessoa, conseguimos criar um ambiente de participação, alegria e valorização”, refere.

A responsável considera a sua presença “um privilégio” para a associação, salientando que o convívio intergeracional e a partilha de experiências de vida enriquecem não só os utentes, mas também a própria equipa técnica.

Sempre pronta a ajudar

No dia a dia, Bininha é presença constante em praticamente todas as atividades. Daniela Lopes, animadora sociocultural da Alegria de Crescer, descreve-a como uma ajuda indispensável. “É como se fosse a minha ajudante em tudo. Sempre que preciso, peço ajuda e ela está disponível, seja nas atividades de expressão plástica, no apoio direto aos utentes ou até no refeitório”, explica.

Para os utentes, Bininha é uma figura de referência. Com paciência, boa disposição e muito carinho, consegue criar laços, tranquilizar quem está mais ansioso e animar quem precisa de um sorriso. “Dar amor é o mais importante”, afirma, convicta.

Aos quase 90 anos, Bininha não esconde aquilo que considera ser o segredo da sua vitalidade: manter-se ativa, útil e rodeada de pessoas. Por isso, deixa uma mensagem clara a todas as pessoas de maior idade: que não fiquem em casa e que se juntem a projetos de voluntariado. “O voluntariado faz-nos mexer, obriga-nos a sair, a pensar e a dar carinho. E isso dá-nos saúde, melhora-nos por dentro e por fora”, afirma.

Na Associação Alegria de Crescer, Bininha não é apenas voluntária. É família, exemplo e prova viva de que a idade não é um limite quando existe vontade de cuidar dos outros – e de continuar a viver com sentido.