No Plano Nacional de Saúde 2021-2030, as pessoas idosas são identificadas como um grupo com necessidades específicas de cuidados, tornando-se fundamental assegurar a sua segurança ao longo do processo assistencial, especialmente no que respeita à prevenção de quedas e às suas consequências.
Em Portugal, os dados obtidos pelos Censos 2021, publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, revelam um aumento expressivo da população idosa e um decréscimo da população jovem. Por cada 100 jovens portugueses existem já 182 idosos. Portugal é, pois, um dos países que apresenta um Índice de Envelhecimento mais elevado do Mundo e projecções recentes colocam Portugal como o quarto país a envelhecer mais rapidamente (D.R.,2024).
As quedas configuram um problema relevante de saúde pública com impacto significativo na qualidade de vida da população idosa, sobretudo daqueles que vivem em estruturas residenciais, sendo atualmente consideradas uma área prioritária nas políticas de saúde.
É, também, importante destacar que as quedas, bem como as lesões e sequelas decorrentes delas, apresentam um impacto significativo tanto a nível individual como para as famílias e, consequentemente, para os países que enfrentam o desafio do envelhecimento populacional.
É nas tarefas mais básicas como caminhar, subir ou descer escadas, ir à casa de banho, sentar e levantar que acontecem a maioria das quedas nesta faixa etária (Carvalho et al., 2012).
De entre os idosos, os que mais aparentam predisposição para a queda e se encontram em maior risco de cair, são os mais inactivos pela sua fragilidade e os mais activos pela sua exposição ao risco (Buksman et al., 2008).
Na população idosa, a maior frequência de quedas ocorre em casa e são essencialmentecausadas por factores de risco intrínsecos, enquanto as quedas fora do domicílio são causadas por factores de risco ambientais e ocorrem em idosos mais activos (Baksman et al. 2008).
Assim, as quedas durante actividades diárias comuns tornam-se progressivamente mais frequentes com o avanço da idade, à medida que alterações nos sistemas musculoesquelético e neurológico comprometem o equilíbrio e a postura. O impacto dessas alterações é ainda intensificado por determinadas patologias (como por exemplo
a hipertensão e a diabetes) que se tornam mais prevalentes na população idosa.
Segundo o Programa Nacional de Prevenção de Acidentes da DGS (2012), a educação constitui uma das intervenções mais eficazes na prevenção de quedas. A promoção do conhecimento acerca dos factores de risco e dos factores de protecção é essencial para capacitar as pessoas idosas e os seus cuidadores, reforçando a sua consciencialização relativamente aos riscos associados às quedas e adoptando comportamentos preventivos.
Educar as pessoas para a saúde é criar condições para as pessoas se transformarem, saberem o porquê das coisas. Mostrar-lhes que elas podem aprender e sensibilizá-las para a importância dos conhecimentos ligados com a sua saúde.
As estratégias de prevenção devem enfatizar para além da educação, o treino de habilidades (exercícios), a criação de ambientes mais seguros, a priorização de pesquisas relacionadas com quedas e o estabelecimento de políticas eficazes para reduzir o risco (OMS, 2021).
Pesquisas mostram consistentemente que a maioria das quedas entre idosos ocorre em ambientes internos, especialmente em casas de banho, quartos e cozinhas, geralmente durante actividades rotineiras do dia a dia.
Assim, é de vital importância a adaptação do ambiente doméstico, em especial:
Casa de Banho
✔ Barras de apoio
✔ Tapete antiderrapante
✔ Cadeira para banho
✔ Boa iluminação
Quarto
✔ Caminho livre até à casa de banho
✔ Candeeiro acessível
✔ Cama com altura adequada
Sala
✔ Retirar tapetes soltos
✔ Organizar fios elétricos
✔ Móveis bem posicionados
Escadas
✔ Corrimão em ambos os lados
✔ Fitas antiderrapantes
✔ Boa iluminação
Cozinha
✔ Retirar tapetes soltos
✔ Limpar de imediato qualquer líquido derramado
✔ Não subir em cadeiras ou caixas para alcançar armários
✔ Estantes presas à parede
Embora a massa muscular tenda a diminuir com o avançar da idade, a prática de exercício físico pode ajudar a recuperar, a força e a flexibilidade. Independentemente da idade, iniciar uma rotina de exercícios é o passo mais eficaz para garantir autonomia e prevenir quedas.
Benefícios:
• Aumenta força muscular
• Melhora equilíbrio
• Reduz medo de cair
• Mantém autonomia
Frequência recomendada:
Trinta minutos por dia, cinco vezes por semana.
Se trinta minutos forem exaustivos, o tempo pode ser dividido em 3 blocos de
10 minutos ao longo do dia. O efeito acumulativo é igualmente benéfico.
Componentes essenciais:
• Treino de força muscular
• Exercícios de equilíbrio
• Treino de marcha
• Flexibilidade
Exercícios Simples (Força: 1-5; Equilíbrio: 6-8; Flexibilidade: 9,10):
1. Elevação de Calcanhares
Segurar numa cadeira e elevar calcanhares lentamente.
Repetir 10 vezes.
2. Sentar e Levantar
Sentar e levantar da cadeira lentamente.
Repetir 10 vezes.
3. Extensão do joelho
Sentado, esticar uma das pernas e, devagar, voltar à posição inicial.
Repetir 10 vezes de ambos os lados.
4. Agachamento Assistido
Em pé atrás de uma cadeira, segure o encosto para apoio. baixar o corpo como se fosse sentar, e depois levante-se novamente.
Repetir 10 vezes.
5. Flexão de Braços contra a Parede
Em pé de frente para uma parede, com os pés afastados na largura dos ombros. Mãos na parede na altura dos ombros e flexione os cotovelos, aproximando-se da parede, depois empurre de volta.
Repetir 10 vezes.
6. Abdução (Abrir) da Perna
Afastar uma perna da outra, em seguida, voltar à posição inicial.
Repetir 10 vezes em ambos os lados.
7. Equilíbrio numa Perna
Segurar apoio e levantar uma perna por 10 segundos.
8. Caminhar em Linha Reta
Passos lentos, olhando em frente.
9. Alongamento de Gémeos
Em pé com as mãos apoiadas na parede. Dê um passo para trás com uma perna, mantendo o calcanhar no chão, e incline-se para a frente.
20 – 30 segundos para cada perna.
10. Alongamento de Braços
Sentado numa cadeira e estender um braço sobre a cabeça, curvando-se para o lado oposto. Repetir com o outro braço.
20 – 30 segundos para cada braço.
Importante:
Se, durante os exercícios, sentir algum dos sintomas abaixo, pare de imediato:
• Angina (dor no peito)
• Batimentos cardíacos irregulares
• Tontura
• Falta de ar
• Dores nos músculos ou articulações
Mas, o que fazer em caso de queda?
Em caso de queda, a vítima deverá:
1. Manter a calma
2. Verificar se existe dor intensa
3. Não se levantar imediatamente, se houver suspeita de fractura
4. Chamar ajuda, se necessário
5. Contactar serviços de emergência, se houver:
• Dor forte
• Sangramento
• Perda de consciência
Após a queda:
✔ Informar médico
✔ Identificar causa
✔ Implementar medidas correctivas.
Em suma, a prevenção de quedas exige uma resposta multidisciplinar que articule a actividade física, a segurança do ambiente habitacional e a literacia em saúde. Estas intervenções integradas permitem uma mudança de paradigma: de uma visão reactiva para uma estratégia proactiva e pedagógica. Ao priorizar a educação e a adaptação precoce do meio, promove-se um envelhecimento mais seguro e saudável, protegendo a autonomia do idoso e reduzindo significativamente os eventos adversos e as suas consequências.
O envelhecimento saudável é pois, um processo contínuo de otimização da habilidade funcional e de oportunidades para manter e melhorar a saúde física e mental, promovendo independência e qualidade de vida ao longo da vida. A boa noticia é que as quedas e as lesões que elas causam não são uma parte inevitável do envelhecimento.
Cair não é, portanto, “normal da idade”.
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Por: César Augusto Coelho de Sousa, enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação a exercer funções na Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, na UCC de Lousada e, em regime de prestação de serviços, na Santa Casa da Misericórdia do Marco de Canaveses.
