Ao recordar as décadas em que participou na visita pascal, Manuel fala com serenidade e emoção. Sempre acreditou que "lá em cima, há qualquer coisa que nos protege". Foi essa convicção que o levou, ano após ano, a percorrer a freguesia levando a mensagem de Cristo às famílias. Houvesse chuva ou sol, a tradição nunca falhava. "O mais importante era levar a imagem de Cristo a casa dos paroquianos", recorda.
Hoje, relembra numa fotografia, vestido a rigor para a ocasião, um pedaço dessas memórias. No olhar, misturam-se orgulho, nostalgia e gratidão por tudo o que viveu ao longo de tantos Domingos Pascais, correndo caminhos e visitando casas que o recebiam de portas abertas e coração cheio.
Há cerca de quatro anos, já perto de completar oitenta, Manuel decidiu passar o testemunho. Fê-lo com alegria e com a certeza de que a tradição precisava de continuar viva. "Se não houver pessoas que deem continuidade, a visita pascal morre", lamenta, sublinhando a importância de preservar este costume tão enraizado na comunidade.
A cruz foi então entregue ao genro, Pedro Teixeira, que assumiu a responsabilidade de visitar a parte sul da freguesia, à semelhança do que fazia o sogro. Pedro recorda esse momento com emoção: "Não há palavras para descrever tamanha alegria. É uma honra."
Desde então, Pedro percorre vários quilómetros, começando cedo, pelas oito da manhã, e seguindo até ao final do dia. O cansaço, garante, quase não se sente. "Perceber a alegria das pessoas em receber Cristo em casa é tão grande que nos deixa de coração cheio." Pelo caminho, as ruas ganham cor com passadeiras de flores preparadas pelas famílias, um gesto simples que transforma o dia numa celebração de fé e comunidade.
Questionado sobre se gostaria um dia de passar a cruz a um dos filhos, Pedro responde sem hesitar que seria um enorme orgulho, embora reconheça que essa decisão caberá a eles. Ainda assim, mostra-se confiante: a esperança está nos mais novos. Em Tabuado, existe um grupo de jovens que acompanha a visita pascal, participando ativamente na tradição. "É uma alegria ver os jovens envolvidos. Significa que vamos ter continuidade. É ter esperança no futuro."
No final da conversa, Manuel deixa uma mensagem simples, mas carregada de convicção. Aos oitenta anos, está de boa saúde e não toma medicamentos. Para ele, o segredo está na fé: acreditar em Deus. Ao mesmo tempo, lamenta que a igreja esteja a perder fiéis e acredita que, se houvesse mais crentes, o mundo poderia ser um lugar com mais paz.
Entre memórias, passos pelas ruas de Tabuado e a cruz que passa de geração em geração, a visita pascal continua a ser muito mais do que uma tradição. É uma história viva de fé, comunidade e esperança.
