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Marco de Canaveses
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“A ópera tem de ir até às pessoas”: Pianista de Marco de Canaveses cria projeto que desmistifica o lirismo na U.Porto

O espaço da Casa Comum, situado no edifício da Reitoria da Universidade do Porto, recebe na próxima terça-feira, dia 20 de outubro, pelas 18h30, a primeira sessão do projeto 'Ópera em Diálogo'.

Redação

A iniciativa resulta do trabalho conjunto de três estudantes e alumni da instituição de ensino superior e propõe uma abordagem acessível, dinâmica e pedagógica ao repertório lírico, promovendo uma relação de proximidade entre os intérpretes e a audiência.

O projeto foi distinguido na primeira edição do programa Impulso Cultural, mecanismo que financia e apoia propostas artísticas de cariz universitário. O coletivo artístico é formado pela pianista marcoense Ana Madureira, mestranda na Faculdade de Letras (FLUP), diplomada pela ESMAE, com estudos no Conservatório de Maastricht e mestrado em Ensino da Música pela Universidade do Minho; pela harpista Catarina Rebelo, licenciada e mestre em Gestão pela FEP, com formação musical em Genebra e Bruxelas; e pelo violetista Joaquín Marrero, doutorando na Faculdade de Engenharia (FEUP) e formado pelo Conservatório de Música do Porto.

O acesso ao espetáculo na Casa Comum é gratuito, ficando a entrada limitada à lotação do espaço. Além da sessão de estreia, a organização adianta que as próximas apresentações do ciclo terão lugar na FEP e na FEUP, em datas que serão calendarizadas a curto prazo.

"A ópera tem de ir até às pessoas": Combate ao elitismo e regresso aos palcos

Ao longo de cada concerto-conferência, as interpretações musicais são pontuadas por breves explicações sobre o enquadramento histórico e dramatúrgico das obras. Em declarações, Ana Madureira sublinha a urgência de quebrar a barreira do elitismo habitualmente associada a este universo artístico: "O elitismo associado à ópera, sobretudo no caso de Portugal, tem uma razão de ser: a única casa de ópera propriamente dita, onde se fazem produções regulares, é o Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa. Existe, desde logo, uma desigualdade no acesso, do ponto de vista geográfico, que exclui uma larga parte da população, e que favorece a capital. Se não há mais casas de ópera, e se as pessoas não conseguem ir à ópera, então a ópera tem de ir até às pessoas".

A pianista de Marco de Canaveses realça o papel das iniciativas descentralizadas na região Norte para aproximar as comunidades daquela que considera uma forma artística abrangente. "Este processo, no qual o projeto 'Ópera em Diálogo' pode ser inserido, não tem só que ver com a democratização da ópera, num sentido vertical ou 'top-down', mas com a criação de oportunidades para que o público em geral possa conhecer aquele que é possivelmente o género musical mais rico e completo: tem música, literatura, teatro, cenógrafos, figurinistas, maquilhadores, cabeleireiros, design de som, de luz… Enfim, todas as artes parecem caber na ópera", argumenta.

Para a musicista, a materialização da iniciativa representa também um marco de superação no plano pessoal e artístico, após um período de afastamento motivado por problemas de saúde física. "Ainda que com limitações, decidi regressar, e este conjunto de concertos, de certa forma, assinala esse retorno mais efetivo ao palco: um lugar que é físico, mas metafísico ao mesmo tempo, que é de exposição e, por isso, de vulnerabilidade e – também por isso – de verdade", partilha a intérprete, frisando que a atuação na Casa Comum traduz uma vontade de partilha genuína: "Dá-nos a oportunidade de partilharmos a nossa paixão pela ópera: não no sentido de 'instruir' ou 'converter', mas simplesmente de partilhar".

Arranjos para trio instrumental e uma perspetiva inovadora de ópera sem voz

Concebido inicialmente a partir de transcrições de obras líricas para formações em dueto, o repertório acabou por evoluir para um formato de trio que conjuga o piano, a harpa e a viola d’arco, superando os desafios acústicos de juntar dois instrumentos harmónicos a um melódico.

"Quando nos candidatámos ao programa Impulso Cultural, chegámos à conclusão de que esta seria uma formação instrumental impossível: não encontrávamos repertório, e não sabíamos como funcionaria o grupo no seu conjunto", relata Ana Madureira. A criadora explica que a viragem surgiu através da experimentação direta: "Resolvi pegar na famosa ária da Rainha da Noite, da Flauta Mágica, de Mozart, e tentei compor algo a partir daqui para estes três instrumentos aparentemente inconciliáveis. Experimentámos, e resultou. Fui (fomos) replicando este processo noutras árias e coros de óperas, e foi resultando. No final de contas, acabaremos por apresentar a maioria das obras não em formato de duo, mas de trio".

A ausência de solistas vocais é assumida pelo grupo como um convite à redescoberta da linguagem operática por outros caminhos sensoriais. Como conclui Ana Madureira, "temos a consciência de que fazer um concerto sobre ópera sem voz, sem um cantor ou cantora é talvez um tanto contraditório... Mas é isso que este concerto e os próximos se propõem ser: não uma visão absoluta daquilo que a ópera é, mas daquilo que pode ser. É uma amostra musical. Uma conversa sobre a beleza, sobre amor e tragédia, sobre simbolismos – e também sobre outras coisas mais simples".