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Marco de Canaveses
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Marco: Cristina garante o apoio a 120 peregrinos de Bem Viver na caminhada pela fé

Enquanto a maioria dos olhares se foca nos pés castigados de quem caminha pela estrada fora, há um exército na retaguarda que garante que não falta água, cama ou alívio muscular. Cristina Pinheiro é o rosto dessa missão.

Responsável pelo grupo de apoio aos peregrinos de Bem Viver, no Marco de Canaveses, herdou da mãe uma tradição com quase meio século. Hoje, comanda uma logística complexa para que 120 peregrinos e 20 elementos de apoio cheguem ao Santuário no dia 11 de maio. Uma reportagem sobre a fé, a gratidão e o "cansaço diferente" de quem cuida dos outros.

Eram 19h30 de sexta-feira, dia 8 de maio, e o grupo já tinha cruzado a Mealhada, instalando-se em Santa Luzia, Carqueijo. A marcha arrancou no dia 6, quarta-feira, mas a verdadeira preparação começou meses antes. Ao leme desta odisseia está Cristina Pinheiro, que carrega aos ombros a herança de gerir as dores, a fome e o sono de dezenas de pessoas.

"A pé são 120, depois tenho mais o staff, ou seja, as pessoas que vêm como voluntárias, e as outras que vêm a trabalhar. Ao todo, somos cerca de 140", contabiliza Cristina. O balanço dos primeiros dias é positivo: ninguém desistiu e a resistência está em alta. Contudo, para que a caminhada flua, há uma máquina oleada a trabalhar nos bastidores, encarregue da comida, da dormida e do apoio clínico. O grupo conta com duas massagistas e uma enfermeira que se desdobram ao longo do percurso para tratamentos básicos e, à chegada ao acampamento, garantem as preciosas massagens de recuperação.

A herança de Helena e David: De 10 para 140

A história deste grupo de Bem Viver confunde-se com a árvore genealógica de Cristina. Há cerca de 45 anos, a sua mãe, Helena Pinheiro, e o tio, David Pinheiro, deram os primeiros passos. "Começámos com poucas pessoas. Na altura, a minha mãe ia com umas dez amigas. Depois começaram a juntar-se mais, e foi sempre a crescer", recorda. Quando Helena deixou de ter capacidade física para fazer o percurso, a filha assumiu o comando para que a tradição não morresse.

Hoje, o núcleo extravasou Bem Viver. A caravana leva peregrinos do centro do Marco de Canaveses, Feira Nova, Magrelos, Sande, Penha Longa, Alpendorada e Várzea, juntando ainda cerca de uma dezena de fiéis do concelho vizinho de Cinfães.

A procura é tanta que a logística obriga a um planeamento rigoroso. "Por volta de janeiro, já não podia trazer mais ninguém", confessa Cristina. O estrangulamento não se deve à alimentação, mas, sim, aos espaços para pernoitar. Cerca de 40 pessoas têm lugar cativo de ano para ano, cabendo à responsável preencher as restantes vagas com quem vai aparecendo, até ao limite do que é humanamente possível alojar com dignidade.

Mais jovens, a mesma fé (e um pedido de paciência)

Quem pensa que a estrada para Fátima está envelhecida, engana-se. Cristina nota uma mudança clara no perfil de quem a acompanha: "É 'meio-meio' entre homens e mulheres, mas vai muita gente jovem, agora. Vai mais gente jovem do que o normal".

As motivações, essas, mantêm a essência. Para a responsável, a grande maioria move-se pela fé e pela gratidão pura. "Muitos até nem vêm por promessa, vêm para agradecer. Porque agradecer também é uma coisa a que se tem de dar valor", sublinha com emoção.

Mas, guiar 140 vontades rumo ao Santuário não é tarefa leve. Quando questionada sobre quem se cansa mais, se quem caminha ou quem apoia, Cristina não hesita: "Acho que ainda se cansa mais quem ajuda, muito honestamente. É um cansaço diferente. Mas, no fim de contas, além do trabalho, é gratificante".

Sobre o futuro do grupo, Cristina vive um dia de cada vez. "Até quando puder, continuo". Dos seus dois filhos, o mais velho já a acompanha e gosta da dinâmica da retaguarda, mas a passagem de testemunho é incerta, precisamente por ser uma tarefa que "dá muito trabalho".

Com a chegada ao Santuário prevista para as 10h30 do dia 11 de maio, Cristina Pinheiro deixa uma mensagem fundamental a quem está na estrada, seja a caminhar ou a servir sopas: compreensão.

"Ter um bocadinho de paciência e compreensão. Pelo caminho há génios e personalidades diferentes, às vezes demais. As pessoas têm de ter um bocadinho de paciência umas com as outras", considera. 

Nesta 'aldeia itinerante' que partiu do Marco de Canaveses, a fé não se mede apenas pelos quilómetros percorridos. Mede-se, acima de tudo, pela sopa quente no fim do dia, pelo penso rápido colocado na berma e pela paciência infinita de quem transforma o asfalto numa casa para 140 pessoas.