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Gondomar
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“Representar a seleção é uma sensação muito pesada”: O rigor e a glória do jovem Simão Barbosa na canoagem nacional

O jovem gondomarense Simão Barbosa, do clube Liga-Dura, conquistou a Taça de Portugal de Canoagem em C1 Júnior 1000 metros, no dia 19 de abril, em Montemor-o-Velho.

Redação

O Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho foi o cenário de mais uma afirmação do talento desportivo do Norte de Portugal. No passado dia 19 de abril, Simão Barbosa, atleta de apenas 16 anos natural de Gondomar, sagrou-se vencedor da Taça de Portugal de velocidade e Seletiva Nacional na categoria de C1 Júnior 1000 metros.

O jovem, que representa a Associação Liga-Dura, consolidou uma posição de destaque que já havia iniciado no ano anterior, quando venceu a prova de 500 metros na mesma competição e arrecadou a prata internacional nos Olympic Hopes, na República Checa.

Da freguesia de Melros para a elite da canoagem nacional

Simão Barbosa nasceu em 2009 e a sua ligação ao rio começou cedo, na freguesia de Melres, em Gondomar. Embora o futebol fosse a escolha óbvia na região, o espelho de água do Douro e a praia fluvial local exerceram um fascínio maior. "Eu jogava futebol, fazia os torneios a nível distrital lá em Melres, mas durante o verão ia para a praia fluvial, olhava e via aquelas pessoas a remar e achava engraçado", recorda o atleta em entrevista.

A influência familiar foi determinante para que Simão trocasse os relvados pelas embarcações. O seu irmão, seis anos mais velho, já praticava a modalidade e serviu de referência absoluta. "O meu irmão mais velho era sempre a referência que eu tinha a nível familiar. Praticar lado a lado com ele este desporto foi uma das coisas que mais me motivou", revela. Apesar dos receios iniciais da mãe quanto à segurança na água, Simão iniciou-se no caiaque há nove anos, transitando para a canoa monolugar (C1) há cerca de cinco anos.

A transição técnica e a exigência da canoa monolugar

A mudança do caiaque para a canoa marcou um ponto de viragem na carreira de Simão Barbosa. O atleta explica que a canoa oferece uma dificuldade superior, tanto ao nível do equilíbrio como da força muscular necessária. "A canoa é muito mais difícil de se equilibrar e a própria força muscular exigida é outra. É uma modalidade muito mais difícil do que o caiaque, e é por isso que pouca gente adere à canoa monolugar", detalha o canoísta gondomarense.

A decisão de levar o desporto a um nível de rendimento surgiu em 2021, após observar atletas de elite num campeonato do mundo em Montemor-o-Velho. "Vi atletas na seleção que se tornaram referências para mim e decidi que gostaria de praticar este desporto de rendimento, de ser melhor e de conseguir sempre mais", afirma. Desde então, o percurso tem sido ascendente, com títulos regionais e nacionais que o conduziram à Seleção Nacional.

O peso de representar Portugal e o isolamento em Montemor

Viver como um atleta de alto rendimento com apenas 16 anos implica sacrifícios que a maioria dos jovens da sua idade desconhece. Simão reside atualmente em Montemor-o-Velho, longe da família e dos amigos de Gondomar, para manter contacto direto com o centro de treino. "Representar uma seleção nacional é um dever e uma função muito importante. É uma sensação muito pesada, temos muita responsabilidade nisso. Treinamos todos os dias do ano, sem exceção", confessa o atleta.

A distância física é um dos maiores desafios psicológicos. "Moro a centenas de quilómetros dos meus pais, da minha família e dos meus amigos, sozinho, para tentar conseguir ser melhor. Apenas os vejo ao fim de semana e não tenho a possibilidade de sair com os meus amigos da escola no distrito do Porto. É muito difícil reconciliar isto", admite Simão, sublinhando que a rotina de acordar às seis da manhã para treinar antes das aulas exige um rigor extremo.

A superação mental e o papel paternal do treinador

O percurso de Simão Barbosa nem sempre foi feito de sorrisos. O atleta revela que, durante o ano de 2025, atravessou uma fase crítica onde a pressão das competições quase o levou a desistir. "Estive numa fase muito má da canoagem, quase para desistir por causa da pressão de ser bom. Tive de recorrer a ajuda psicológica, ao apoio dos meus amigos da canoagem e ao meu treinador de então, o Rui António Fernandes", revela com honestidade.

Atualmente, sob a orientação do técnico Gilberto Cruz, Simão encontrou um novo fôlego. Para o jovem, o treinador assume um papel que ultrapassa as orientações técnicas dentro de água. "O treinador tem de dar o apoio emocional necessário porque eu não tenho, por exemplo, o meu pai aqui comigo para me ensinar o que é ser um homem. O Gilberto está cá como um pai, como um familiar, como um apoiante. Somos melhores amigos", afirma o atleta, destacando a importância deste suporte em momentos de crise de ansiedade ou quebras de rendimento.

A glória internacional e o orgulho no clube Liga-Dura

A conquista mais recente na Taça de Portugal é apenas mais um marco num currículo que já brilha com medalhas internacionais. Simão recorda com especial carinho a medalha de prata conquistada na República Checa, nos Olympic Hopes. "Foi uma sensação de dever cumprido conseguir finalmente ter uma medalha internacional. Vi atletas que no ano anterior me tinham dado uma coça inimaginável e consegui elevar a canoagem portuguesa", partilha com orgulho.

Apesar de viver focado nos objetivos da Seleção Nacional e da Federação Portuguesa de Canoagem, Simão Barbosa não esquece as suas raízes e o apoio fundamental da Associação Liga-Dura. "Sempre foi o Liga-Dura que me apoiou e me impulsionou para estar aqui onde estou hoje. Têm tido sempre um apoio muito bom ao nível de materiais, barcos e pagaias. Tenho orgulho em ser atleta do clube", conclui o jovem campeão, que promete continuar a trabalhar arduamente para mostrar que a canoagem portuguesa está mais viva do que nunca.