A vitória na tricicleta é apenas a ponta do icebergue do trabalho profundo realizado na Cercimarante. A instituição participa no Campeonato Nacional de Futsal organizado pela ANDDI, compete no Corfebol (tendo já sido campeã nacional da segunda divisão), pratica Polybat (um ténis de mesa adaptado) e marca presença no Campeonato Nacional de Boccia. Para o futuro, avizinha-se a introdução do remo indoor.
Contudo, os resultados desportivos são secundários face aos ganhos humanos. Jorge Antunes sublinha que o verdadeiro impacto é sentido no bem-estar diário dos utentes. "No desporto adaptado, os resultados não são o fator primordial. O fundamental é que eles se sintam bem e capazes. Tal como qualquer um de nós entra num jogo para ganhar, eles também veem a sua autoestima elevada pelas conquistas. É principalmente para isso que trabalho", afirma o professor.
Os exemplos de transformação comportamental multiplicam-se. Jorge Antunes recorda o caso de um atleta de Boccia cuja mãe notou uma drástica mudança de atitude: "O Boccia transformou-o numa pessoa muito mais serena. A mãe relata que o António está mais focado. Só por isso, mesmo que não houvesse qualquer resultado desportivo, o balanço já seria extremamente positivo." A própria rotina competitiva traz desafios benéficos, como o facto de terem de pernoitar noutras cidades. "Para nós, passar um fim de semana fora pode ser uma rotina perfeitamente normal. Para ele, não é. A simples integração no campeonato nacional e a experiência da viagem fizeram-lhe muito bem", explica.
João Carlos é a mais recente prova viva desta metamorfose. Além dos benefícios motores, uma vez que "tem algumas dificuldades na locomoção e necessita de auxílio na maior parte das vezes", Jorge Antunes salienta o salto a nível mental: "A postura do João Carlos mudou visivelmente a partir do momento em que se apercebeu de que pode ir longe e alcançar bons resultados, algo que me traz uma enorme satisfação profissional".
A validação da comunidade é a cereja no topo do bolo. O treinador recorda com carinho uma recente jornada de futsal: "Tivemos a cobertura de um órgão de comunicação social de Amarante, que relatou o nosso jogo com a mesma emoção de um jogo do Porto ou do Benfica. Isso é incrivelmente gratificante para eles; deixam de se sentir uns 'coitadinhos' e percebem que têm o mesmo valor e capacidade que qualquer outro atleta."
A pedagogia por detrás destes sucessos baseia-se numa premissa simples, detalhada por Jorge Antunes: "Acima de tudo, exige paciência e a consciência dos limites de cada um. Não posso exigir ao João Carlos que corra 400 metros. É preciso sermos pacientes e acreditarmos genuinamente nas suas capacidades. Se o feedback for constantemente negativo e focado no erro, os atletas naturalmente bloqueiam. Mas se lhes provarmos que são capazes e os valorizarmos, a evolução acontece de forma natural".