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Amarante
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"O desporto dá-me alegria e força" afirma o campeão da Cercimarante João Sousa

O atleta da Cercimarante/ADA, João Sousa, sagrou-se vencedor na prova de 100 metros do 1.º Encontro de Tricicleta. Mais do que uma vitória desportiva, trata-se de um triunfo da autoestima e um grito por maior visibilidade e apoio ao Desporto Adaptado.

Redação

O desporto tem o dom de transformar vidas, mas no caso do desporto adaptado, esse poder transcende a pista e o campo, moldando a confiança e a inclusão. O atleta João Sousa, carinhosamente tratado por João Carlos, provou exatamente isso ao conquistar o primeiro lugar na prova de 100 metros do 1.º Encontro de Tricicleta. Em representação da Cercimarante e da ADA (Associação Desportiva de Amarante), a sua estreia absoluta nesta modalidade foi pautada por surpresa, superação e um tempo recorde que impressionou a própria selecionadora nacional.

Uma estreia surpreendente que culminou em ouro

A vitória de João não foi apenas uma surpresa para os adversários, mas também para a própria equipa técnica. Jorge Antunes, professor de Educação Física na Cercimarante e responsável pelo desporto adaptado, confessa que a equipa partiu para o Luso com muita incerteza. "Partimos um pouco às escuras, pois era a nossa primeira participação e desconhecíamos a dinâmica exata da competição. Conhecia a base da modalidade, inscrevi-o nos 100 metros e, quando chegou à pista, ele surpreendeu toda a gente com uma prova de excelência", recorda o treinador.

A surpresa estendeu-se aos altos quadros da modalidade. A prestação de João não passou despercebida à selecionadora nacional, que, num primeiro momento, interveio para otimizar o equipamento. Jorge Antunes explica o episódio: "A grande mais-valia que trouxemos foi o acesso a uma bicicleta nova, já que não possuímos equipamento próprio, dependendo de um protocolo com a PCAND [Paralisia Cerebral - Associação Nacional de Desporto]. A bicicleta que o João levou era muito curta na zona dos joelhos. Mal a selecionadora nacional o viu a treinar, abordou-me imediatamente: 'Vamos trocar a bicicleta do atleta, porque esta é a mais adequada para ele'."

O momento de glória viria a seguir. "No final da prova, a selecionadora pediu-me logo o contacto, visivelmente agradada com o trabalho que desenvolvemos e com o desempenho do João. Ele fez a melhor marca nos 100 metros. A competição estava dividida por grupos e ele conseguiu o melhor tempo da geral, superando atletas com bastantes anos de experiência na modalidade", relata Jorge Antunes, com evidente orgulho.

Para João Carlos, palavras simples traduzem um turbilhão de emoções. Quando questionado sobre o que o desporto lhe traz, a resposta é imediata: "Dá-me alegria e força, gosto muito. Adoro praticar desporto na tricicleta. Treinamos no relvado ou em espaços mais amplos, e isso faz-me feliz". Sobre a medalha inesperada, João partilha a sua conquista com genuinidade: "Sendo a minha primeira vez, não imaginava que conseguiria ganhar uma medalha. Mas ganhei. A selecionadora disse-me que estive muito bem na prova e fiquei muito feliz."

O Desporto como ferramenta de saúde mental e autoestima

A vitória na tricicleta é apenas a ponta do icebergue do trabalho profundo realizado na Cercimarante. A instituição participa no Campeonato Nacional de Futsal organizado pela ANDDI, compete no Corfebol (tendo já sido campeã nacional da segunda divisão), pratica Polybat (um ténis de mesa adaptado) e marca presença no Campeonato Nacional de Boccia. Para o futuro, avizinha-se a introdução do remo indoor.

Contudo, os resultados desportivos são secundários face aos ganhos humanos. Jorge Antunes sublinha que o verdadeiro impacto é sentido no bem-estar diário dos utentes. "No desporto adaptado, os resultados não são o fator primordial. O fundamental é que eles se sintam bem e capazes. Tal como qualquer um de nós entra num jogo para ganhar, eles também veem a sua autoestima elevada pelas conquistas. É principalmente para isso que trabalho", afirma o professor.

Os exemplos de transformação comportamental multiplicam-se. Jorge Antunes recorda o caso de um atleta de Boccia cuja mãe notou uma drástica mudança de atitude: "O Boccia transformou-o numa pessoa muito mais serena. A mãe relata que o António está mais focado. Só por isso, mesmo que não houvesse qualquer resultado desportivo, o balanço já seria extremamente positivo." A própria rotina competitiva traz desafios benéficos, como o facto de terem de pernoitar noutras cidades. "Para nós, passar um fim de semana fora pode ser uma rotina perfeitamente normal. Para ele, não é. A simples integração no campeonato nacional e a experiência da viagem fizeram-lhe muito bem", explica.

João Carlos é a mais recente prova viva desta metamorfose. Além dos benefícios motores, uma vez que "tem algumas dificuldades na locomoção e necessita de auxílio na maior parte das vezes", Jorge Antunes salienta o salto a nível mental: "A postura do João Carlos mudou visivelmente a partir do momento em que se apercebeu de que pode ir longe e alcançar bons resultados, algo que me traz uma enorme satisfação profissional".

A validação da comunidade é a cereja no topo do bolo. O treinador recorda com carinho uma recente jornada de futsal: "Tivemos a cobertura de um órgão de comunicação social de Amarante, que relatou o nosso jogo com a mesma emoção de um jogo do Porto ou do Benfica. Isso é incrivelmente gratificante para eles; deixam de se sentir uns 'coitadinhos' e percebem que têm o mesmo valor e capacidade que qualquer outro atleta."

A pedagogia por detrás destes sucessos baseia-se numa premissa simples, detalhada por Jorge Antunes: "Acima de tudo, exige paciência e a consciência dos limites de cada um. Não posso exigir ao João Carlos que corra 400 metros. É preciso sermos pacientes e acreditarmos genuinamente nas suas capacidades. Se o feedback for constantemente negativo e focado no erro, os atletas naturalmente bloqueiam. Mas se lhes provarmos que são capazes e os valorizarmos, a evolução acontece de forma natural".

As barreiras estruturais e o apelo a apoios

Apesar da dedicação incansável da equipa e da administração da Cercimarante — que Jorge Antunes faz questão de elogiar por "facilitar e mobilizar todos os recursos possíveis para garantir a nossa participação" —, o desporto adaptado em Portugal ainda corre numa autêntica pista de obstáculos.

"A realidade é que ainda somos frequentemente colocados à margem", lamenta o treinador. As dificuldades começam logo nas infraestruturas. "O treino de tricicleta exige uma pista de tartan. Como Amarante não dispõe, atualmente, dessa infraestrutura, temos de improvisar os treinos nas nossas instalações ou no Parque Florestal, lidando com a falta de condições ideais."

A logística e a sustentabilidade financeira representam um peso constante. Viajar com equipas que requerem apoios de mobilidade, como cadeiras de rodas elétricas, exige condições específicas de acessibilidade. "Quando competimos em cidades como Aveiro ou Torres Novas, levamos comitivas de cerca de oito pessoas. Garantir alojamento acessível, refeições e transporte adaptado para todo o grupo durante duas noites acarreta custos muito elevados", detalha.

O cenário começa a mudar, ainda que a passos curtos. Jorge Antunes nota que "anteriormente, as autarquias não contemplavam o desporto adaptado nos seus regulamentos de apoio ao associativismo. Foi necessário um trabalho de sensibilização, mas felizmente esse paradigma tem mudado, inclusive aqui na Câmara de Amarante". Ainda assim, o alerta mantém-se: "Nota-se alguma atenção quando falamos de modalidades paralímpicas. Para tudo o resto, temos de lutar diariamente pelo reconhecimento, estando ainda a anos-luz dos apoios concedidos ao desporto convencional".

Neste contexto, o apoio da ADA e dos parceiros privados é um balão de oxigénio vital. "Os nossos patrocinadores tiveram a sensibilidade de compreender a essência do desporto adaptado e decidiram apoiar-nos, o que alivia bastante a nossa carga", reconhece o treinador. Aproveitando o embalo mediático da vitória de João Carlos, Jorge Antunes lança um repto à sociedade e ao tecido empresarial: "O papel da comunicação social na divulgação destas conquistas é imensurável. Deixo também um apelo ao tecido empresarial: se tiverem interesse e responsabilidade social, contactem a Cercimarante. Precisamos de toda a ajuda possível para continuar a mudar vidas".