logo-a-verdade.svg
Paredes
Leitura: 8 min

Uma herança de notas e afetos: Fátima e Joaquim celebram 50 anos da Tuna de Rebordosa unidos pelo palco

A Tuna de Rebordosa assinalou, no dia 21, o seu 50º aniversário com um concerto comemorativo. O momento teve lugar no Salão da Junta de Freguesia de Rebordosa, reunindo música, tradição e celebração numa noite muito especial.

Redação

Fátima Neto, violoncelista, cantora, compositora e professora, que carrega no sangue o amor por esta instituição esteve à conversa com o Jornal A VERDADE sobre a importância deste marco. Filha de Joaquim Moreira Neto, o sócio número três da Tuna, Fátima partilhou o palco com o pai, num momento que descreve como o culminar de um imenso orgulho familiar e artístico.

O Berço Musical e a Herança de um Pai

Para Fátima Neto, a ligação à música não foi um acaso, mas sim uma herança inevitável. Natural de Rebordosa e com formação superior em música, Fátima dedica-se hoje ao violoncelo e ao ensino da voz cantada. No entanto, as suas raízes estão profundamente cravadas na Tuna local.

"O meu pai  é o sócio número três e está na Tuna desde a sua fundação. Portanto, eu, provavelmente, ainda dentro da barriga da minha mãe já ouvia música", partilha a artista.

A influência de Joaquim Moreira Neto, hoje com 84 anos, foi o motor que a impulsionou. Ele, que começou a aprender música aos 40 anos, viu na filha a concretização de um sonho que a sua própria juventude não lhe permitiu alcançar.

"O meu pai, na verdade, refletiu em mim o que ele queria ser. O meu pai sempre quis ser músico profissional. O que há muitos anos atrás era impensável, na nossa zona não havia qualquer tipo de oportunidade e os jovens e as crianças saíam da escola, completavam o quarto ano e iam trabalhar para dar rendimento para a família."

Quando percebeu o talento e a inclinação da filha para seguir uma carreira artística formal — passando por uma banda filarmónica e, mais tarde, por uma escola profissional —, o apoio foi incondicional. "Quando ele percebeu que ia seguir uma carreira na música, ele ficou orgulhosíssimo", sublinha Fátima.

A Arte como Terapia, Refúgio e Ginástica Mental

Joaquim Moreira Neto é descrito pela filha como um homem de enorme sensibilidade. Tendo trabalhado grande parte da sua vida no restauro de mobiliário antigo, a sua admiração pelas artes sempre foi profunda, marcando presença assídua em concertos, peças de teatro e espetáculos de dança na região.

Para Joaquim, a Tuna é muito mais do que um passatempo; é um pilar de saúde mental e cognitiva. Fátima destaca os benefícios diretos desta dedicação:

"O facto de ele sair para um ensaio para aprender música, para já, em termos cognitivos é incrível, porque hoje o meu pai tem uma memória e uma capacidade cognitiva que, se calhar, muitos da idade dele, ou até mais novos, não têm. A música faz esta destreza mental que o mantém ativo, a cabeça e o cérebro, até aos dias de hoje."

A música revelou-se também um bálsamo fundamental num dos momentos mais difíceis da família. Em junho de 2025, a família sofreu a perda da mãe de Fátima. Mesmo perante o luto, a ligação à Tuna manteve-se inquebrável.

"Ele nunca, em momento algum, deixou de ir ao ensaio da Tuna e eu pedi-lhe exatamente isso. Ele diz que já treme muito e que não consegue, mas  dizia: 'não faz mal, paizinho, vai'. No caso dele, acho que a música o ajudou, não a superar, mas a acalmar o coração. Porque enquanto está ali no convívio com outras pessoas, mesmo não estando a ser exímio na sua execução artística, é incrível e fundamental para a saúde mental dele."

Uma "Segunda Família" com Mais de um Século de História

A Tuna de Rebordosa atravessa agora um momento de transição nos seus órgãos associativos. Joaquim Moreira Neto, o atual presidente, prepara-se para passar a pasta, reconhecendo os limites que a idade impõe. Fátima, que exercia o cargo de presidente da mesa da Assembleia, também se afasta dos órgãos sociais devido às exigências da sua vida artística. Contudo, o vínculo emocional permanece intacto.

"Estar ligada a um grupo como este... isto é uma segunda família que nós temos. O contexto do associativismo, há esta coisa de 'um por todos e todos por um', quase como se de uma equipa de futebol se tratasse."

A instituição, que celebrou oficialmente o 50º aniversário, carrega um legado que transcende o papel. Fátima relembra que, na verdade, a essência do grupo tem mais de 100 anos, tendo sido o lugar onde o seu próprio pai aprendeu música já em adulto. É um espaço de crescimento para muitos "miúdos" que ali deram os primeiros passos e que, mais tarde, singraram no mundo musical em Portugal e no estrangeiro.

A Emoção do Palco e a Medalha de Ouro

Celebrar os 50 anos da Tuna ao lado do pai foi um momento de emoção indescritível para a violoncelista, que frequenta a instituição desde os seus dez anos de idade. São quase 40 anos de memórias a partilhar o palco com a comunidade local.

A carga emocional destas celebrações junta-se a outra memória recente e marcante: a atribuição da Medalha de Ouro pelo Município de Paredes no ano passado.

"O meu pai foi ao palco logo a seguir ao falecimento da minha mãe... e esse também mexe muito connosco, a minha mãe sempre acompanhou a Tuna. Estarmos ali em palco com algo tão emocionante é difícil descrever. (...) O meu pai, se lhe perguntar, vai dizer que é um orgulho imenso partilhar o palco com a filha."

Com uma promessa de lealdade eterna à instituição, Fátima garante: "Enquanto o meu pai for vivo e enquanto eu tiver disponibilidade, eu estarei sempre disponível e presente para a Tuna. Se a Tuna precisar de mim, cá estarei."

Um Apelo ao Associativismo: "Arrisquem Sempre"

O testemunho de Fátima Neto culmina num forte apelo à comunidade para que abrace a arte e o associativismo, desmistificando o medo de falhar ou a ideia de que é preciso dominar a teoria musical para começar.

"Não temos que saber ler uma pauta para fazer música. Isso também é um estigma que anda aqui (...) Não, minha gente, isso é mentira, pura mentira."

Com a convicção de que "nunca é tarde para aprender uma arte", Fátima convida todos a experimentarem o poder curativo e agregador da música:

"Gostava de lhes deixar uma mensagem e incentivá-los a descobrirem esta arte. Arrisquem sempre. Não tenham medo. (...) 'Ah, eu não sei nada, vou fazer figura, vou cantar mal'... Não. Arrisquem. Porque a música (...) é uma energia muito positiva que nos vai ajudar muitas das vezes a ultrapassar dificuldades (...) e processos mentais que não conseguimos resolver."

As portas da Tuna de Rebordosa (e do associativismo em geral) estão abertas. Como recorda Fátima, as quotas são irrisórias (10 a 15 euros por ano) e os ensaios decorrem em horário pós-laboral, habitualmente à sexta-feira à noite.