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Marco de Canaveses
Leitura: 4 min

"Não vale a pena sacrificar a vida por likes": Ricardo Cardoso, o atleta que rejeita a ilusão do corpo perfeito

Aos 29 anos, Ricardo Cardoso não procura o corpo perfeito para o Instagram, nem medalhas fáceis à custa da saúde.

Redação

Natural de Paços de Gaiolo, Marco de Canaveses, este atleta de fisiculturismo e powerlifting traça um caminho diferente: o da competição "limpa", sem atalhos, onde a motivação não vem dos "gostos" nas redes sociais, mas da superação pessoal.

Como muitas crianças, Ricardo cresceu a jogar futebol, mas uma lesão no joelho trocou-lhe as voltas. O que começou como um treino de compensação no ginásio para combater a inferioridade física face aos colegas, tornou-se numa paixão duradoura. "Comecei o ginásio a tempo inteiro e depois já não fiz mais nada, sempre com aquela ambição de evoluir", recorda.

Ricardo trabalha na construção civil, uma profissão fisicamente exigente, mas é no "ferro" do ginásio que encontra o seu verdadeiro desafio. Ao contrário de muitos que procuram a musculação por complexos com o corpo ou por estética, o marcoense garante: "O objetivo nunca foi ter um corpo bonito, nunca tive complexo com o corpo... Foi mesmo evoluir na competição".

A escolha pelo caminho "natural"

A entrada no mundo da competição aconteceu em 2016, numa prova de fisiculturismo onde a disparidade era evidente. "Competia com pessoas que faziam doping... não conseguia ser competitivo", admite. A viragem deu-se em 2021, com a chegada a Portugal da WNBF (World Natural Bodybuilding Federation), uma federação que exige testes antidoping.

Foi aí que Ricardo encontrou o seu lugar. Em 2022 e 2024, subiu aos palcos em Lisboa e Almada, orgulhoso da sua condição de atleta natural. "Nunca tive aquela ambição de ser muito grande, nem queria pôr em risco a minha saúde", explica, justificando a recusa em utilizar substâncias proibidas.

Do Fisiculturismo ao Powerlifting

Consciente de que ganhar músculo de forma natural é um processo lento — "quem treina naturalmente sabe que é muito difícil... é preciso parar dois anos para fazer progresso" —, Ricardo decidiu intercalar o fisiculturismo com outra modalidade: o powerlifting.

O objetivo é claro: não ficar parado enquanto constrói o físico para tentar ganhar o cartão profissional no fisiculturismo. No powerlifting, a estética dá lugar à força bruta e técnica, avaliada no agachamento, supino e peso morto. "Ficou-me esse bichinho de não ter ido ao Campeonato Nacional e tenho o objetivo de ir este ano", confessa, apontando a mira para a qualificação em maio.

O mito do corpo perfeito e as redes sociais

Ricardo Cardoso é pragmático e crítico em relação à imagem que o fitness vende nas redes sociais. Alerta que o "corpo trincado" o ano inteiro é uma ilusão insustentável e muitas vezes fruto de doping, luzes favoráveis e filtros.

"Nós não estamos com o corpo de treino todo rasgado o ano todo... isso não é sustentável nem para o corpo, nem para o dia-a-dia", sublinha. Para o atleta, sacrificar momentos sociais, como jantares com amigos ou casamentos, apenas para "receber uma medalha ou mais 10 ou 20 corações no Instagram" não vale a pena.

A sua mensagem para quem começa é de paciência e foco na saúde. "O objetivo devia ser a saúde e a boa forma vir como consequência", aconselha, lembrando que a consistência é a chave e que o processo é demorado, não acontecendo "num ano, nem em dois, nem em três".

Para Ricardo Cardoso, o ginásio é mais do que levantar pesos; é uma escola de disciplina. E enquanto houver uma competição no horizonte, haverá motivação para continuar a evoluir, de forma limpa e consistente, degrau a degrau.