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Sociedade
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Assédio laboral em Portugal: Quase 40% dos profissionais afirmam ser vítimas de agressão no trabalho

O último relatório do Labpabs revela que 38,3% dos profissionais em Portugal afirmam ser vítimas de assédio laboral, um número que tem crescido desde 2021.

Redação

O ambiente de trabalho em Portugal atravessa um momento crítico. Segundo o mais recente relatório do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (Labpabs), a que a agência Lusa teve acesso esta sexta-feira, dia 15 de maio de 2026, “quase 40% dos profissionais” que participaram no estudo afirmam ser vítimas de assédio laboral. Este valor representa um “sinal de alerta” que, segundo os peritos, não pode continuar a ser ignorado pelas organizações.

O documento baseia-se nas respostas de 5.549 profissionais de diversos setores de atividade. Os dados revelam uma tendência de crescimento preocupante na perceção de assédio: em 2021/22 o valor situava-se nos 16,5%, subindo para 20% em 2023, atingindo os 27,7% em 2024 e fixando-se agora nos 38,3%. De acordo com a psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do estudo, este aumento deve-se ao facto de as pessoas terem o tema “mais em cima da mesa” e acabarem por “rejeitar coisas que antes aceitavam”.

Saúde mental e burnout em níveis preocupantes

Os especialistas alertam para o facto de as empresas estarem a “desinvestir na questão da saúde mental”. O relatório aponta para uma elevada frequência de exaustão e a presença de sintomas de burnout e solidão numa ”parte muito significativa” dos trabalhadores. Este cenário de desgaste é visto como um “sinal de vulnerabilidade” das organizações, com impacto direto na produtividade e na sustentabilidade das instituições.

Para Tânia Gaspar, a mudança exige coragem estrutural. “É preciso coragem para avançar de forma estrutural com esta matéria dentro das empresas, porque estas vão mesmo mexer nas organizações, em coisas que estão cristalizadas”, explicou à Lusa. A coordenadora sugere a implementação de planos que impliquem a “acreditação por normas”, garantindo que a cultura de bem-estar permaneça na empresa independentemente dos profissionais que a compõem.

O "descompasso" entre salário e reconhecimento

A questão financeira continua a ser um dos principais focos de descontentamento. O estudo indica que 77,4% dos participantes consideram não ter uma remuneração justa pelo trabalho desempenhado. Os especialistas falam num “descompasso” entre o nível de exigência, o reconhecimento e a recompensa final.

Esta realidade é sentida de forma transversal no Norte de Portugal, afetando tanto os grandes centros urbanos como a comunidade marcoense, onde o tecido empresarial enfrenta o desafio de reter talento perante a insatisfação salarial. A sobrecarga de trabalho e a falta de recursos humanos são apontadas como problemas relevantes, sendo essencial o “respeito pelas pausas, descanso e recuperação” para prevenir o desgaste físico e emocional.

Conflito geracional e liderança nas empresas

A análise geracional revela um choque de mentalidades nas lideranças. Tânia Gaspar sublinha que o ponto-chave são as chefias, maioritariamente da Geração X (45-60 anos), que vê o trabalho como um “ponto de honra”. “Elas ainda aceitaram esse modelo dos seus superiores e estão a tentar importar esse modelo para as novas gerações, que têm outras prioridades”, acrescenta.

Os dados mostram perfis de risco distintos:

  • Geração Z e Y (até aos 30 anos): Revelam menos envolvimento, mais riscos psicossociais e maior solidão.

  • Geração Y (30-45 anos): Apresentam o maior risco ao nível da saúde mental.

  • Babyboomers (mais de 60 anos): Manifestam os melhores indicadores de bem-estar e felicidade.

O estudo identifica ainda que as mulheres e os profissionais com doença crónica são grupos que exigem maior atenção seletiva. Em contrapartida, o trabalho híbrido surge como um fator de proteção associado a melhores indicadores, contrastando com o trabalho totalmente presencial que apresenta os piores resultados.

O relatório conclui que o mal-estar laboral não se explica apenas pela carga de trabalho, mas sobretudo por “défices de confiança, previsibilidade, reconhecimento e participação”. Apenas um terço dos profissionais sente que a liderança vê o bem-estar como uma prioridade, o que compromete o compromisso com o trabalho a longo prazo.