Natural de Porto Seguro, no estado da Bahia, Brasil, Murilo cresceu rodeado pela paixão pelo futebol, herdada do pai. “É um amor que passou entre gerações. O meu pai foi jogador profissional e motivou-me sempre a seguir os passos dele”, recorda.
Começou a dar os primeiros toques na bola aos cinco anos, praticando futsal de campo na sua cidade natal. “Naquela altura ainda não tinha noção do que era futebol a sério. Só a partir dos 8 ou 10 anos é que comecei a perceber verdadeiramente o jogo — faz parte do nosso crescimento”, admite.
Aos 14 anos recebeu um convite para fazer testes no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, um dos maiores clubes do Brasil. Passou nas avaliações e permaneceu na academia até completar os 18 anos. Foi ali, nos sub-19, que terminou a sua formação, com o objetivo de se tornar profissional. Aos 19 anos, surgiu a oportunidade que viria a mudar a sua vida: uma proposta para jogar no Trofense, então a competir no Campeonato de Portugal. “Esse foi o meu motivo para sair do Brasil. Vim para Portugal através do futebol, com propostas de empresários que depois desapareceram”, conta. Apesar das dificuldades iniciais, Murilo não desistiu.
A chegada a Portugal em 2019 marcou o início de uma nova etapa — por vezes dura, por vezes solitária. “Não vou mentir: muitas vezes senti saudades de casa e vontade de voltar para o Brasil. Mas a minha família foi sempre o meu pilar e ajudou-me a continuar”, revela.
Mudar de continente não foi fácil, mas o conforto de falar a mesma língua ajudou a suavizar o impacto. “Tinha receio de sair para um país onde não entendesse a língua. Achei que o português era todo igual... mas não”, diz, entre risos. Também o futebol foi um choque cultural: “O jogo cá é mais técnico, mais rápido e mais estratégico. Senti muita diferença.”
Apesar de ter chegado no verão, o primeiro inverno foi um verdadeiro desafio. “Sofri em todos os sentidos. A cultura é diferente, a adaptação é difícil, mas o futebol ajudou-me sempre”, sublinha.
Atualmente, Murilo joga no ADC Várzea do Douro, clube onde já está há cinco épocas. É ali que construiu amizades, memórias e uma rede de apoio fundamental. “Encontrei boas pessoas em todos os clubes por onde passei. Sempre quiseram ajudar-me e ver-me bem.”
Durante a pandemia, essa rede revelou-se essencial. “Não cheguei a apanhar Covid-19, mas o apoio do Nespereira, em Cinfães, onde jogava na altura, foi fundamental. Se não fossem os amigos e o presidente do clube, Rui Teles, não sei o que teria sido de mim”, confessa.
Na fase mais crítica da pandemia, com fronteiras fechadas e o SEF inacessível, Murilo viu-se forçado a manter-se firme. Foi nesse período que percebeu o verdadeiro valor da solidariedade: “Se hoje sou o que sou, devo a muitas pessoas que me ajudaram quando mais precisei.”
Sobre Portugal como destino de imigração, é direto: “Conquistei aqui coisas que no Brasil não seriam fáceis. O poder de compra é muito diferente e há mais oportunidades de trabalho legal e regularizado.” Reconhece, no entanto, que o salário mínimo é dos mais baixos da Europa, mas valoriza a qualidade de vida e os laços criados: “Já tenho amizades aqui que vou levar para o resto da vida.”
Aos jovens que saem do país como ele, deixa um conselho: “A minha história em Portugal não foi planeada. Vim para jogar futebol, não para trabalhar. Mas a vida trouxe me para esse caminho e optei por ficar. Podia ter regressado, mas escolhi construir a minha vida aqui.” Classificando Portugal como “um país maravilhoso”, Murilo acredita que com o tempo vem a estabilidade. “Com esforço e sacrifício, tudo vale a pena. É preciso dar tempo ao tempo.”
A terminar, deixa uma mensagem de gratidão: “A todos os que me ajudaram e ainda me ajudam: obrigado. Estou grato por tudo e levo-vos comigo para sempre.”
