A trabalhar numa Unidade de Cuidados Intermédios, relata os dias de angústia num hospital a funcionar a geradores, sem comunicações, onde a solidariedade de uns contrastou com a crueldade de outros.
O regresso de uns dias de descanso em Roma transformou-se num choque de realidade para Tânia Silva. A enfermeira de 31 anos, natural de Vila Boa de Quires (Marco de Canaveses), aterrou no meio da devastação provocada pela depressão Kristin em Leiria.
A trabalhar numa Unidade de Cuidados Intermédios, relata os dias de angústia num hospital a funcionar a geradores, sem comunicações, onde a solidariedade de uns contrastou com a crueldade de outros.
A dimensão da tragédia começou a desenhar-se ainda à distância. Quando acordou em Roma para apanhar o voo de regresso, as mensagens no grupo de trabalho chegavam em catadupa: as colegas em Leiria estavam preocupadas, pedindo a quem estava de folga para não sair de casa por falta de segurança, garantindo que elas, mesmo exaustas, assegurariam o serviço.
"Deu para ter a noção de que aquilo estava muito mal, mas até vermos, nunca temos a real perceção", confessa Tânia. A "ficha caiu" na viagem de Lisboa para Leiria. Com a autoestrada fechada e as comunicações cortadas, o trajeto fez-se por entre árvores caídas e estradas bloqueadas. "Estamos habituados a um 'cantinho do céu' e, de repente, o desastre salta da televisão para a realidade", descreve.
Ao chegar à unidade hospitalar onde exerce funções há quase quatro anos, o cenário era dantesco. O jardim tinha desaparecido, viaturas de profissionais estavam esmagadas por árvores e o edifício operava ligado a geradores, uma solução de recurso que durou dias e que manteve o suporte de vida ligado, apesar das oscilações de energia.
Mas, o "apagão" mais angustiante foi o das comunicações. Sem rede móvel nem sistema informático, o hospital ficou ilhado. A gestão clínica tornou-se um calvário logístico: não era possível chamar ambulâncias, não se conseguiam contactar familiares para ir buscar doentes com alta e, no limite mais doloroso, não havia forma de comunicar óbitos. "Foi catastrófico. Mesmo as funerárias, não conseguiam tratar das coisas. Foram dias muito complicados em que ficámos dependentes de tudo", recorda a enfermeira.
Lá dentro, a demografia do socorro alterou-se. O serviço de Ortopedia teve de ser reestruturado e reforçado com enfermeiros de outras áreas para responder à vaga de traumatismos: pessoas que caíram de telhados a tentar salvar as casas ou vítimas de acidentes provocados pelo mau tempo.
Simultaneamente, o hospital recebia uma nova categoria de vítimas: os doentes dependentes de ventiladores (CPAP) no domicílio. Sem eletricidade em casa, a sua sobrevivência ficou comprometida. "Tiveram de ser realojados no hospital apenas para poderem ter suporte ventilatório", explica Tânia. A unidade serviu ainda de abrigo temporário para quem, tendo alta clínica, não tinha para onde ir: ou porque a casa tinha voado, ou porque não oferecia segurança mínima.
A ansiedade era transversal a quem estava na maca e a quem prestava cuidados. "É impossível não nos pormos no lugar do outro", desabafa Tânia. Muitos profissionais, incluindo médicos que demoraram três horas a chegar de Coimbra por estradas secundárias, trabalharam turnos seguidos sem conseguir contactar as suas próprias famílias. "Era o desespero de estar ali, a ouvir o que tinha acontecido lá fora, e não saber se os nossos estavam bem".
Neste cenário de crise, a natureza humana revelou-se nos seus extremos. Se por um lado a tragédia despertou uma onda de solidariedade, com vizinhos a ajudarem-se na reconstrução de telhados e partilha de bens, por outro, expôs o oportunismo mais vil.
Tânia relata, com indignação, a existência de burlas no pós-tempestade. "Apanharam-se pessoas a fazerem-se passar por técnicos da Câmara para levantar dados e roubar o pouco que as vítimas ainda tinham. É muito mau. Pessoas que só precisavam de uma palavra amiga e encontraram quem se quisesse aproveitar do seu mal", lamenta.
No meio dos escombros e da "limpeza" emocional que se seguiu, uma história, contada por uma colega de turno, marcou Tânia profundamente. Ilustra o heroísmo anónimo que a tempestade forçou.
Durante o pico do temporal, com telhas a voar, a colega de Tânia foi alertada por uma vizinha em pânico: o marido, um idoso de cerca de 80 anos, tinha desaparecido. O casal, que vivia com dificuldades e gastava grande parte da reforma em medicação, via a casa ser destruída. Num ato de desespero, o senhor subira ao sótão para tentar resgatar o único valor que lhes restava: algumas peças de ouro.
"A minha colega deixou o filho a dormir, amarrou uma corda à sua cintura e à do marido, e foram os dois, no meio da tempestade, à procura do vizinho", conta a enfermeira marcoense, ainda emocionada.
Encontraram o idoso no sótão destelhado, agarrado a uma viga, exposto à fúria do vento. O resgate foi bem-sucedido e o casal, agora sem teto, foi acolhido pela comunidade, dormindo em casa de vizinhos. "Ela disse-me que, ao final do dia, só conseguia pensar no risco que correu e que, se lhes acontecesse alguma coisa, o filho ficaria sozinho. Mas, salvou o senhor".
Para Tânia Silva, a experiência em Leiria foi um "abre olhos" brutal sobre a fragilidade das nossas certezas. "Muitas vezes, achamos que temos tudo, somos felizes... mas num abrir e fechar de olhos, não temos nada", conclui.
Resta a memória de uns dias em que, quando a luz falhou, foram as pessoas que a mantiveram acesa.