Madrugada de 25 de abril de 1974. Na rádio, tocavam canções de Paulo de Carvalho e de Zeca Afonso – “E Depois do Adeus” e “Grândola Vila Morena” – que serviam como código. Ao mesmo tempo, tanques comandados pelo capitão Salgueiro Maia cercaram o quartel da GNR do Carmo, onde se tinha refugiado Marcelo Caetano, o sucessor de Salazar à frente da ditadura. Também a zona dos ministérios, órgãos de comunicação e outros locais considerados estratégicos foram subjugados pelos militares.

Durante o dia, a população da capital juntou-se aos militares e uma vendedora de flores começou a distribuir cravos vermelhos. Os soldados colocaram o cravo no cano da espingarda e assim é chamada a Revolução dos Cravos.

O presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, rendeu-se e saiu do quartel sob escolta militar do capitão Salgueiro Maia, em direção ao exílio. O poder foi entregue ao general Spínola e, nas horas seguintes, foi criado um órgão governativo provisório, a Junta de Salvação Nacional.

“Havia um mundo em Portugal que terminou na madrugada de 25 de abril de 1974 e um mundo que se iniciou daí para a frente”

“Vivi parte da minha vida no período de ditadura e, portanto, é uma diferença colossal”, lembra ao Jornal A VERDADE Adrião Cunha, historiador e natural de Penafiel. Acredita, contudo, que a responsabilidade do cidadão neste novo regime “é uma responsabilidade acrescida”. “Em democracia, o cidadão é livre, desde que cumpra as regras da civilidade. Há regras comportamentais, mas, independentemente dessas regras, o cidadão é livre de tomar as suas decisões”, afirma.

“Antes do 25 de Abril estava em Lisboa. Era diretor de uma empresa, regressei ao Porto nesse mesmo dia e, portanto, vivi já aqui no Porto o dia com uma alegria imensa. Não digo que foi o dia mais feliz da minha vida, porque houve outros dias que foram extremamente importantes no meu percurso de vida, mas sob o ponto de vista de cidadão, de português e preocupado com as coisas do meu país e do meu país no mundo (já tinha percorrido vários locais no exterior), naturalmente, vivi esse dia com particular entusiasmo e com particular preocupação em saber se o movimento que se iniciava iria perdurar no tempo e se, efetivamente, caminhávamos definitivamente na conquista da liberdade, da democracia, do desenvolvimento e da descolonização”, descreve.

Adrião Cunha no 1.º de Maio de 1974

“Eu vinha de um tempo em que a minha capacidade de expressão estava cerceada. Eu não podia cantar o hino, não podia levar a bandeira nacional, os livros que eu queria ler alguns deles não podia ler, os filmes que eu pretendia ver a maior parte deles não conseguia ver, os jornais tinham sempre a chancela de censurado, portanto, eu vinha de um mundo completamente diferente. De repente, em 25 de abril de 1974, surgia um mundo completamente novo – novo aqui em Portugal, eu já conhecia esse mundo da liberdade do exterior, em países que eu já tinha visitado, onde tinha estado em termos profissionais”, comenta.

Aqui, o mundo que eu conhecia era um mundo de castração absoluta, em que não podia, em momento algum, de uma forma verbal ou escrita, expressar aquilo que pretendia, nem tão pouco podia ter acesso àquilo que pretendia ler, portanto, são dois mundos completamente diferentes: havia um mundo em Portugal que terminou na madrugada de 25 de abril de 1974 e um mundo que se iniciou daí para a frente.

Adrião Cunha refere que a ideia que hoje em dia existe sobre a Revolução dos Cravos não é a mesma nem pode ser, uma vez que a sociedade portuguesa de hoje é constituída por muitas pessoas que não viveram o 25 de Abril e, por isso, têm “uma ideia remota, é a ideia que a história lhes dá, é um conhecimento livresco”. “No meu caso e dos cidadãos da minha idade, é um conhecimento de vida vivida”, continua.

Paixão pela história ajudou Adrião Cunha a “recusar a velhice” e a criar “um mundo completamente diferente”

Adrião Cunha tem formação na área da Gestão, mas, quando se reformou, decidiu que não era tempo de parar e, aos 83 anos, a paixão pela história preenche os seus dias. “Recusei a velhice e a forma de recusar a velhice, independentemente da idade, é a pessoa ser ativa. Porque fui sempre um homem apaixonado pelas coisas da História, resolvi voltar aos bancos da escola. Portanto, licenciei-me, fiz o mestrado, depois fiz doutoramento, já tenho pós-doc e continuo. Hoje, sou investigador na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, credenciado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e o meu mundo não terminou, criei outras paixões. Hoje, o meu mundo é um mundo completamente diferente, mas isso revitalizou-me e contrariou o meu envelhecimento. Estou a envelhecer mais devagar um bocadinho”, constata, entre risos.

A sua área de investigação é mais especificamente a História Contemporânea. Conta com vários artigos publicados em revistas da especialidade e dois livros publicados. “Tenho vários trabalhos prontos, mas que estarão para ser publicados”, acrescenta.

“Neste momento de grande preocupação a nível mundial, em função daquilo que se passa no mundo e fundamentalmente na Europa, essencialmente, a mensagem que gostaria de transmitir é confiança e acreditar que o mundo de amanhã vai ser diferente do de hoje, mas pode ser melhor, deve ser melhor. Sem esquecer o passado, devemos construir sempre um mundo onde os nossos vão viver, mas no qual nós ainda podemos viver”, sublinha.

Temos que ter o culto da memória, que é saber o que nós passámos, aquilo que esteve atrás de nós e aquilo por que muitos cidadãos como nós padeceram, sofreram e alguns morreram para que pudéssemos viver um dia melhor, que é o dia de hoje.