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Penafiel
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O tatame, o suor e a falta de apoios: A luta de Adriano Ribeiro, o penafidelense bicampeão nacional de Jiu-Jitsu

Aos 17 anos, enquanto a maioria dos jovens da sua idade divide o tempo livre entre as redes sociais e os videojogos, Adriano Ribeiro tem uma rotina bem diferente: divide o seu dia entre os livros escolares e os 'estrangulamentos' no tatame.

Aos 17 anos, enquanto a maioria dos jovens da sua idade divide o tempo livre entre as redes sociais e os videojogos, Adriano Ribeiro tem uma rotina bem diferente: divide o seu dia entre os livros escolares e os estrangulamentos no tatame. Natural de Abragão, no concelho de Penafiel, o jovem atleta acaba de escrever mais uma página dourada na sua carreira ao sagrar-se Bicampeão Nacional de Jiu-Jitsu. Mas, por trás da medalha de ouro conquistada no Seixal, esconde-se a dura realidade de um desporto ofuscado pelo futebol, onde os campeões pagam para competir e a glória exige uma disciplina de ferro.

Foi no último sábado, dia 11 de abril, nos tatames do Seixal, que Adriano Ribeiro ergueu os braços em sinal de vitória. Ao revalidar o título nacional conquistado no ano transato, o jovem penafidelense provou que o seu lugar no topo não foi obra do acaso. A representar as cores da equipa Marcão ArtSuave, o atleta confirmou o seu estatuto de promessa numa arte marcial que exige tanto do corpo como da mente.

No entanto, o percurso de Adriano não começou propriamente no chão. O primeiro contacto com as artes marciais deu-se aos 9 anos, mas numa vertente ligeiramente diferente. "Começámos a fazer Ju-Jitsu [com 'u'], que é uma luta mais em pé", explica o campeão. O ponto de viragem aconteceu após uma tragédia pessoal: o falecimento do seu mestre. Foi o convite de um amigo, que já era campeão europeu da modalidade, que o levou a transitar para o Jiu-Jitsu (com 'i'). A principal diferença? O domínio do solo. "Fui campeão nacional da que se luta mais no chão", clarifica de forma pragmática para quem não domina os termos técnicos.

Uma agenda de "ministro" aos 17 anos

O palmarés de Adriano já impõe respeito. Para além do bicampeonato nacional, o jovem de Abragão já conquistou um brilhante 3.º lugar no Campeonato Europeu e marca presença habitual em provas internacionais e no Nacional Open. Mas, o verdadeiro combate de Adriano é travado contra o relógio.

Sendo ainda estudante, a gestão do tempo exige uma disciplina férrea. "Às vezes tenho aulas das 8h25 às 18h30. Os treinos são sempre às 19h00, às segundas e quartas, e vou sempre. Quando não tenho aulas, vou também às terças e quintas de manhã", revela. Esta consistência inabalável reflete-se não apenas nos títulos, mas na sua evolução física e pessoal, destacando a melhoria da capacidade respiratória (a "caixa") e o enorme sentido de responsabilidade que a modalidade lhe incutiu.

A escola de valores e o respeito pelo adversário

O Jiu-Jitsu é frequentemente apelidado de "xadrez humano", e não é difícil perceber porquê. Para além de combater o sedentarismo e diminuir riscos cardiovasculares através do aumento da força e da flexibilidade, os benefícios psicológicos são imensos. A modalidade diminui o stress, aumenta a concentração e desenvolve uma autoconfiança inquebrável.

Contudo, Adriano faz questão de traçar uma linha vermelha muito nítida: "Se dominamos as artes marciais, só podemos utilizar isso em caso de defesa mesmo, não podemos fazer de tudo". O tatame funciona como uma escola de cidadania. O atleta recorda o caso de um jovem que entrou para os treinos com um histórico de provocar os colegas atletas e que, graças à disciplina do Jiu-Jitsu, se tornou uma pessoa "mais calma e focada".

A rivalidade fica circunscrita ao tempo de combate. "Podemos estar lá dentro a lutar contra o rapaz, mas depois no fim vai acabar sempre com uma amizade para a vida", garante o bicampeão, elogiando a tolerância, a igualdade e o espírito de equipa que se respira na modalidade.

O preço da glória e o "monopólio" do futebol

Mas, nem tudo são vitórias na vida deste jovem atleta. Longe dos holofotes mediáticos e dos contratos milionários de outros desportos, o Jiu-Jitsu vive mergulhado numa eterna crise de apoios. Questionado sobre os custos de ir competir ao Seixal, a resposta é crua e direta: "É muito caro".

Embora já conte com alguns patrocínios, Adriano confessa que não são suficientes para cobrir as despesas das deslocações e das inscrições nas provas. Com uma honestidade desarmante, admite que a entrevista ao Jornal da Verdade é, também ela, um grito de alerta e uma forma de tentar atrair novos apoios para continuar a representar a região ao mais alto nível.

O lamento estende-se à cultura desportiva do país. Adriano lamenta a fraca divulgação das artes marciais em Portugal, atirando uma crítica certeira: "Acho que deveria ser mais divulgada, porque aqui só querem saber mais de futebol".

Um futuro dividido entre os tatames e as energias renováveis

Apesar da paixão inegável pela modalidade: "não podia deixar isto por nada", confessa, Adriano Ribeiro tem os pés bem assentes na terra (ou no tatame) no que diz respeito ao seu futuro profissional. O seu "Plano B" passa por uma área muito diferente: as energias renováveis.

Ainda assim, o Jiu-Jitsu será sempre um pilar na sua vida. Quer continuar a competir, a evoluir e, sobretudo, a ajudar nas competições e na formação de outros atletas. E deixa o convite a quem acha que já passou da idade para começar a rolar no chão: "Temos vários senhores com mais de 50 e 60 anos a treinar connosco. Treinamos com mulheres, crianças, homens. Há um pouco de tudo".

Aos 17 anos, o rapaz de Abragão já percebeu o mais importante: o verdadeiro campeonato ganha-se na resiliência do dia a dia. E Adriano Ribeiro, seja a lutar por patrocínios, a conciliar horários ou a finalizar adversários no chão, já provou que não desiste de um combate.