A ligação de Filipa da Rocha Nunes a Paços de Ferreira é umbilical. “Nasci em Penamaior, em Paços de Ferreira, e lá vivi até aos 12 anos”, conta a autora. O seu percurso levou-a a traçar novas geografias: cresceu no Porto durante a adolescência, mudou-se cedo para Lisboa para ingressar na licenciatura em Belas Artes e, mais tarde, rumou a Barcelona para concluir o mestrado.
O despertar para o mundo das artes não aconteceu num momento de epifania repentina, mas sim através de uma curiosidade insaciável que a acompanha desde sempre. “Sempre fui aquela pessoa que tinha curiosidade por tudo e acho que a literatura é um bocadinho isso, é ter curiosidade. Por tudo, pelo mundo em geral”, reflete.
Esta sede de conhecimento foi alimentada por um ambiente propício ao crescimento cultural. Filipa reconhece a importância das suas bases: “Tive a sorte de ter uma educação que estimulou muito isso, desde a leitura até à prática de instrumentos musicais e dança”. Contudo, a verdadeira vontade de assumir a arte como modo de vida surgiu da observação. O fascínio por “admirar artistas e sentir que se calhar queria ser como elas” foi determinante. “Ver pessoas, ditas artistas, com um estilo diferente ou uma postura diferente na vida e pensar: ‘ah, acho que quero que a minha vida seja mais isto”, confidencia.
Escolher uma carreira nas Belas Artes em Portugal é, para muitos jovens, um salto no escuro. Filipa não esconde que o processo foi acompanhado de “muitas vertigens” e indecisão. “É uma escolha que toda a gente sabe que não é nada fácil, como é que se faz o futuro depois a partir daqui?” Felizmente, o pilar familiar foi essencial: “Sempre tive todo o apoio familiar, no sentido de ‘vai-se construindo, não há que ter medo, é a vida a acontecer’”. Hoje, a autora acredita que, por mais incertos que sejam os caminhos, a resiliência humana prevalece: “Encontra-se forma de fazer a vida. As coisas estão a mudar tão rápido hoje em dia que não sei se ainda há verdades universais como nos ensinaram na escola”.