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Paços de Ferreira
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"A arte é o pilar do coletivo": Filipa da Rocha Nunes apresenta o seu novo livro de poesia, "Curtume"

O auditório da Biblioteca Professor Vieira Dinis, em Paços de Ferreira, prepara-se para acolher, já amanhã, dia 21 de março, pelas 18h00, a apresentação do livro “Curtume”.

Redação

O evento integra a aclamada programação cultural “3C – Letras Locais”, uma iniciativa que tem dado palco a novas vozes que espelham e celebram a identidade pacense. A grande protagonista desta sessão é Filipa da Rocha Nunes, uma curadora e escritora que transformou a sua curiosidade perante o mundo numa forma de arte.

Em entrevista ao Jornal A VERDADE, Filipa abre as portas do seu percurso, reflete sobre o papel da cultura na sociedade atual e desvenda os detalhes da sua mais recente obra literária, um projeto profundamente enraizado nas memórias e nos rituais da sua infância.

As Raízes e a Vertigem da Escolha Artística

A ligação de Filipa da Rocha Nunes a Paços de Ferreira é umbilical. “Nasci em Penamaior, em Paços de Ferreira, e lá vivi até aos 12 anos”, conta a autora. O seu percurso levou-a a traçar novas geografias: cresceu no Porto durante a adolescência, mudou-se cedo para Lisboa para ingressar na licenciatura em Belas Artes e, mais tarde, rumou a Barcelona para concluir o mestrado.

O despertar para o mundo das artes não aconteceu num momento de epifania repentina, mas sim através de uma curiosidade insaciável que a acompanha desde sempre. “Sempre fui aquela pessoa que tinha curiosidade por tudo e acho que a literatura é um bocadinho isso, é ter curiosidade. Por tudo, pelo mundo em geral”, reflete.

Esta sede de conhecimento foi alimentada por um ambiente propício ao crescimento cultural. Filipa reconhece a importância das suas bases: “Tive a sorte de ter uma educação que estimulou muito isso, desde a leitura até à prática de instrumentos musicais e dança”. Contudo, a verdadeira vontade de assumir a arte como modo de vida surgiu da observação. O fascínio por “admirar artistas e sentir que se calhar queria ser como elas” foi determinante. “Ver pessoas, ditas artistas, com um estilo diferente ou uma postura diferente na vida e pensar: ‘ah, acho que quero que a minha vida seja mais isto”, confidencia.

Escolher uma carreira nas Belas Artes em Portugal é, para muitos jovens, um salto no escuro. Filipa não esconde que o processo foi acompanhado de “muitas vertigens” e indecisão. “É uma escolha que toda a gente sabe que não é nada fácil, como é que se faz o futuro depois a partir daqui?” Felizmente, o pilar familiar foi essencial: “Sempre tive todo o apoio familiar, no sentido de ‘vai-se construindo, não há que ter medo, é a vida a acontecer’”. Hoje, a autora acredita que, por mais incertos que sejam os caminhos, a resiliência humana prevalece: “Encontra-se forma de fazer a vida. As coisas estão a mudar tão rápido hoje em dia que não sei se ainda há verdades universais como nos ensinaram na escola”.

O Músculo da Escrita: Da Curadoria à Poesia

Atualmente a trabalhar com curadoria de arte contemporânea e escrita, Filipa da Rocha Nunes confessa que sempre teve facilidade com a língua portuguesa, mas foi o seu contexto profissional que a empurrou para a poesia.

“Foi a curadoria que me trouxe à literatura”, explica. Ao escrever textos para exposições de arte contemporânea, sentiu a necessidade de quebrar barreiras formais. “Houve uma altura em que comecei a puxar por mim para escrever textos um bocadinho mais livres e menos académicos, menos ensaísticos, e comecei a escrever mais poesia. De repente, percebi que fazia muito sentido e essa prática começou a ser diária”.

A escrita tornou-se, assim, uma disciplina rigorosa, comparável a um treino físico. Se no início dependia mais de momentos de inspiração súbita — a sensação de que algo “aparece e tem de ser escrito” —, hoje o cenário é outro. “Agora escrevo tanto que é muito raro haver essa sensação  é realmente como se fosse um músculo".

Com dois livros de poesia no currículo — o primeiro, "Couro Fresco", foi apresentado em Paços de Ferreira em 2023 —, Filipa prepara-se agora para um novo desafio literário. “Estou atualmente a escrever o meu primeiro romance, que em princípio sairá no próximo ano", revela

"Curtume": Luz, Rituais e as Memórias de Paços de Ferreira

Amanhã, o foco estará em "Curtume", uma obra poética que é a evolução natural do seu trabalho anterior. Mas o que podem os leitores esperar deste novo livro?

“O 'Curtume' realmente continua um bocadinho a proposta do 'Couro Fresco' e está muito relacionado com uma série de reparos que faço no dia a dia, pequenas ações que as pessoas, sem repararem ou de forma menos consciente, realizam diariamente e que acabam por se tornar pequenos rituais”, desvenda a autora.

Longe do peso sombrio que a poesia por vezes acarreta, Filipa descreve este trabalho como uma obra de claridade: “É um com muitas ideias de organização do coletivo e da sociedade para um lugar mais luminoso. Tem muito humor e tem muita base nas minhas memórias e ideias de criança”. Embora o nome da sua terra natal não surja escrito de forma explícita nas páginas, a essência do concelho é palpável. 

O Regresso a Casa e o Papel da Cultura

Voltar a Paços de Ferreira para apresentar os seus projetos literários tem um significado profundo para a escritora. Visita a família frequentemente, mas estes regressos com hora marcada têm uma magia especial. “É quase como devolver à terra, não é? Um bocadinho do trabalho que vamos fazendo por aí. É sempre muito emocionante. Há coisas de que digo que realmente entendem melhor em Paços de Ferreira”, admite com carinho.

A autora aproveitou também para deixar elogios à autarquia local, enaltecendo o programa “3C – Letras Locais” e a promoção de espaços culturais no concelho. “Das câmaras que conheço, sinto que a de Paços tem uma postura positiva em relação à cultura e à promoção desses espaços. É de louvar que o município e as juntas tenham um trabalho ativo na manutenção dos espaços de cultura”.

Esta valorização local contrasta, no entanto, com a visão geral do país. Filipa aponta o dedo à forma como a arte é frequentemente tratada em território nacional: “Infelizmente, em Portugal ainda não. A cultura e a arte são vistas sempre ainda como, muitas vezes, um luxo ou última necessidade básica”. A autora aponta o exemplo de países como França, onde a cultura é encarada como um “pilar da saúde e do coletivo”, algo que considera fundamental para os dias de hoje. “Tenho a certeza de que é por aí que conseguimos diálogos mais interessantes entre nós, que são particularmente relevantes em alturas em que as coisas estão muito polarizadas. O entendimento da vida humana só se faz com a arte e cultura”.

A concluir a entrevista, Filipa da Rocha Nunes deixa uma mensagem de alento a todos os jovens que sonham trilhar um percurso criativo, desmistificando os medos associados a estas carreiras: “Há sempre formas de fazer as coisas. Se soubermos o que queremos, há sempre formas de fazer um caminho relacionado com a arte e com a cultura e que realmente — sou suspeita a dizer isto —, mas trabalhar nesta área é das melhores coisas que pode acontecer a alguém”.