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Baião
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Cresceram nos palcos de Baião: 35 anos depois, os "miúdos" do Manos Trio estão de volta

Começaram como três meninos no meio do pó de uma serração de madeiras e acabaram a assinar a banda sonora de toda uma região. Pedro, Zé e Hélder Azeredo formam os Manos Trio, a mítica banda de Baião que, na década de 90, enchia bailaricos e liderava os tops das rádios locais com temas originais.

Agora, 35 anos após a primeira vez que subiram a um palco, os irmãos decidiram voltar à formação original para um concerto de homenagem aos pais. Acharam que o Auditório Municipal de Baião chegaria para "as pessoas que ainda se lembravam", mas o público trocou-lhes as voltas: a primeira data esgotou num ápice e a segunda está prestes a fechar. Afinal, a família Manos Trio nunca os esqueceu.

A história desta banda não se escreve em conservatórios ou academias de elite, mas, sim, na resiliência do interior do país e no seio de uma família onde a música sempre foi a linguagem principal. Hoje, Pedro (50 anos), Zé (45 anos) e Hélder Azeredo (42 anos) são homens feitos, sócios de uma oficina de automóveis. Contudo, basta recuarmos até ao início da década de 90 para encontrarmos três crianças que, 'empurradas' pelo amor do pai à música, formaram um dos projetos mais acarinhados do concelho de Baião.

Da serração para os palcos: A escolha que mudou tudo

O arranque dos Manos Trio é o espelho de uma época. O pai dos irmãos, músico amador, geria uma serração de madeiras e, no final de umas férias de trabalho intenso, quis recompensar o filho mais velho, Pedro. A escolha era simples: um computador ou um teclado. A música falou mais alto, o teclado chegou a casa e o "bichinho" espalhou-se rapidamente.

Zé, o irmão do meio, começou a acompanhar as teclas batendo nas mesinhas de cabeceira com canetas, o que lhe valeu a oferta de um pequena bateria eletrónica. Faltava apenas Hélder, o mais novo. O pai tentou dar-lhe uma pandeireta, mas a teimosia do miúdo fê-lo agarrar furtivamente na guitarra paterna. "Quando dei por mim a pisar um palco pela primeira vez, tinha 7 ou 8 anos", recorda Hélder, o atual vocalista e porta-voz do grupo. "O meu pai fazia uma parte do concerto e depois eu substituía-o, porque eu era tão pequenino que nem me aguentava o tempo todo".

O concerto de estreia aconteceu na sala dos Bombeiros Voluntários de Baião, numa festa de finalistas. O talento era tão evidente que, só nessa noite, o pai, que assumiu o papel de mentor e agente, fechou logo 12 atuações para leilões e bailes. Nunca mais pararam.

Cassetes, a rádio de Resende e o "Hino dos Trolhas"

Longe das facilidades do YouTube ou do Spotify, ser músico autodidata na década de 90 exigia muita engenharia. Hélder lembra com humor o processo para tirarem músicas novas de ouvido: "Tínhamos de ligar para a Rádio de Resende, para os discos pedidos. Encostávamos um gravador com uma cassete perto da coluna e gravávamos para depois tentar tocar".

Apesar de tocarem sucessos de baile, a visão do pai apontava mais longe: queria que os filhos tivessem originais. Foi ele o letrista de 99% do reportório, enquanto os jovens irmãos assumiam toda a composição e arranjos musicais. O resultado? Gravaram cerca de cinco cassetes, construindo um acervo de mais de 40 temas originais.

O maior sucesso dessa era de ouro foi o tema "Já não sou mais criança", carinhosamente apelidado pelos irmãos como a "música dos trolhas". A letra retratava a dura realidade dos trabalhadores da construção civil de Baião que partiam para o Porto. O impacto foi avassalador, garantindo-lhes o primeiro lugar no top da Rádio Regional de Arouca durante dois meses consecutivos e uma impressionante agenda de 75 a 80 espetáculos por ano.

O fim do nome, mas nunca da união

À medida que os anos passaram, a ambição musical exigiu mudanças. Em 1998, a tecnologia limitativa obrigou-os a incorporar um baixista e bailarinas. Sendo mais do que três em palco, o nome Manos Trio perdeu o sentido e o grupo rebatizou-se como Ventus Norte. Acompanharam artistas, montaram tributos a Tony Carreira e pisaram grandes palcos, mas o projeto de originais exclusivamente a três adormeceu.

A única coisa que nunca parou foi a inquebrável união familiar. O segredo para 35 anos sem quezílias graves reside na matemática e na tradição. "Como somos três, há sempre um desempate. Quando há divergências, nunca há empates, há sempre uma maioria", explica Hélder. Hoje, partilham o dia a dia numa oficina de automóveis e mantêm um ritual sagrado: "Almoçamos toda a nossa vida, até hoje, na casa da mamã". Quanto às personalidades que mantêm o barco a flutuar, Hélder assume-se como o "louco" das ideias, Zé é o pacificador "low profile", e Pedro, o mais velho, é o fiel da balança que "põe a medida certa".

O tributo aos pais e um regresso esgotado

A ideia de celebrar a efeméride nasceu para assinalar os 30 anos de carreira, mas a pandemia trocou-lhes os planos. A promessa foi adiada para os 35 anos, com um objetivo muito claro e emocional: fazer um "mimo" aos pais, resgatando a formação original de que eles tanto se orgulhavam, e deixar o momento gravado para os filhos e netos da banda.

A humilde expectativa inicial era reunir os mais próximos no Auditório Municipal de Baião a 25 de Abril. No entanto, o passa-a-palavra gerou um autêntico fenómeno de bilheteira. "Convidávamos um e apareciam dez. A primeira data esgotou quase instantaneamente", revela Hélder. Para que ninguém ficasse de fora, abriram uma segunda data (dia 26 de abril), e restam já cerca de 70 lugares disponíveis (reserva gratuita através das redes sociais da banda).

Entre o público, estarão convidados muito especiais, como um casal que se conheceu, apaixonou e começou a namorar ao som de uma das músicas dos Manos Trio num bailarico dos anos 90, a prova viva de que a música dos irmãos de Baião foi, literalmente, a banda sonora de muitas vidas.

O futuro ao sabor da corrente

E depois dos concertos de 25 e 26 de abril? O grupo prefere manter o espírito aberto e navegar "ao sabor da corrente". Não há pressões para regressar à estrada em digressão permanente.

"Se sentirmos que há força por parte do público, estamos cá para levar o barco para a frente até onde for. Se não, deixam-nos estar em casa. A partir de agora, está tudo em aberto", confessa Hélder. Para já, a única certeza é que a noite de festa não viverá apenas da nostalgia do passado: os Manos Trio vão apresentar um novo tema original. Uma prova de que, 35 anos depois, a criatividade continua tão viva como no primeiro dia.