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Sociedade
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Estudo da FMUP alerta: Maus-tratos a idosos escapam ao radar dos centros de saúde

Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), divulgado esta quarta-feira, 8 de abril, revela que uma percentagem significativa de casos de maus-tratos a pessoas com 65 ou mais anos não está a ser detetada ou reportada nos cuidados de saúde primários.

Redação

A investigação, publicada na revista científica BMC Public Health, aponta falhas na formação e no conhecimento dos procedimentos legais como as principais barreiras à proteção desta população vulnerável.

O estudo baseou-se num inquérito a mais de 350 clínicos de unidades de saúde do Norte de Portugal, abrangendo regiões como o Alto Minho, Trás-os-Montes, Douro, Tâmega e Sousa e a Área Metropolitana do Porto.

O paradoxo da responsabilidade: 94% vs. 32%

Os dados recolhidos pelos investigadores da FMUP expõem uma discrepância preocupante entre a perceção de dever dos médicos e a realidade das consultas:

  • Responsabilidade: 94% dos médicos inquiridos concordam que têm a responsabilidade ética e profissional de detetar maus-tratos.

  • Deteção real: Apesar disso, dois terços dos clínicos (cerca de 66%) admitiram não ter suspeitado de um único caso de violência nos 12 meses anteriores ao estudo.

  • Subnotificação: Entre a minoria que suspeitou de abusos (32%), menos de metade avançou com uma queixa às autoridades. Além disso, 16,9% optaram pelo silêncio a pedido das próprias vítimas ou dos seus cuidadores.

Barreiras à denúncia e falhas na formação

Sofia Frazão, investigadora e professora da FMUP, explicou à agência Lusa que estes resultados não põem em causa o profissionalismo dos médicos, mas sim as condições em que trabalham e a formação que recebem. Apenas 36,5% dos médicos de família inquiridos sabiam exatamente como reportar um caso suspeito.

As principais dificuldades apontadas pelos profissionais incluem:

  • Ambiguidade de sintomas: Metade dos médicos considera um desafio distinguir sintomas psicológicos de sinais de abuso.

  • Fatores estruturais: Falta de tempo nas consultas para abordar temas sensíveis e ausência de protocolos claros.

  • Receios éticos e pessoais: Medo de ofender os doentes, de quebrar a confidencialidade ou de agravar a violência contra a vítima após a denúncia.

  • Défice académico: A disciplina de Medicina Legal é, em muitas faculdades, opcional ou inexistente, o que deixa os futuros profissionais sem ferramentas básicas para lidar com estas situações.

Um problema de Saúde Pública com consequências graves

O estudo, intitulado "Reading between the lines. Older people’s maltreatment: from detection to reporting in primary healthcare", recorda que os maus-tratos — que incluem violência física, psicológica, abuso sexual, financeiro ou negligência — têm um impacto severo na saúde. As vítimas apresentam maior risco de ferimentos traumáticos, intoxicações e o desenvolvimento de doenças somáticas e mentais graves.

As recomendações da equipa da FMUP são claras e urgentes:

  1. Implementação de formação específica para médicos de família (pré e pós-graduada).

  2. Criação de protocolos simplificados para a notificação de casos.

  3. Reforço da colaboração com assistentes sociais dentro das unidades de saúde.

  4. Clarificação dos critérios de diagnóstico para reduzir a margem de erro.

A faculdade já manifestou disponibilidade para colaborar com a comunidade médica na criação de cursos de curta duração focados nestas questões de violência.