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Portugal
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Crise no Médio Oriente asfixia feirantes portugueses: Aumento dos combustíveis força abandono da atividade

Joaquim Santos, presidente da Federação Nacional das Associações de Feirantes, alertou esta quinta-feira, 9 de abril, para uma crise profunda no setor, impulsionada pela escalada imparável dos preços da energia e pela incapacidade dos comerciantes em escoar esses custos para o consumidor.

Redação

De acordo com o dirigente, a instabilidade no Estreito de Ormuz resultou num impacto direto no bolso dos feirantes: cada deslocação para uma feira implica agora um custo adicional de 30 a 40 euros por cada abastecimento de depósito. Esta pressão financeira, somada a um inverno rigoroso e pouco favorável às vendas, tem obrigado muitos profissionais a abandonar a atividade por falta de retorno económico.

Um setor em contração e leis desadequadas

A situação é visível na desertificação dos recintos. Joaquim Santos revela que existem feiras com cerca de 200 lugares vagos onde, em novos concursos, apenas se conseguem ocupar entre cinco a dez postos. Entre as causas apontadas estão a idade de reforma dos profissionais e a "concorrência desumana" de outros canais de venda.

Neste contexto, a Federação apela urgentemente à revisão da Lei 10/2015, que rege o setor. O dirigente argumenta que as normas de rotatividade de espaços deixaram de fazer sentido:

"Hoje não há feirantes suficientes que justifiquem essa rotatividade. É uma situação que cria ainda mais instabilidade num mercado já de si instável."

Críticas ao comércio "online" e à gestão municipal

Joaquim Santos direcionou críticas contundentes aos governos e à União Europeia, acusando-os de permitirem um "paraíso fiscal" nas vendas online. Embora elogie o trabalho da ASAE no combate à contrafação nas feiras físicas, considera a ação "incompleta" por não conseguir travar as irregularidades no mercado digital, que decorrem "a céu aberto".

Ao nível local, o apelo estende-se aos municípios para que reavaliem as taxas cobradas e a organização logística:

  • Taxas Elevadas: O custo de ocupação é considerado excessivo para a rentabilidade atual.

  • Acessos e Estacionamento: Muitas feiras estão localizadas em zonas sem capacidade para receber clientes.

  • Fiscalização Policial: O dirigente lamenta a falta de tolerância das forças de segurança, que "parecem ter gosto" em multar os clientes por estacionamento em dias de feira, em vez de facilitarem a dinamização do comércio.

O contexto geopolítico e o alívio do cessar-fogo

A crise energética teve origem a 28 de fevereiro, com o início dos ataques entre os EUA/Israel e o Irão. O bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, uma das rotas petrolíferas mais vitais do mundo, disparou os preços do petróleo e do gás, gerando uma onda inflacionária global que afetou os custos de logística e transporte.

Apesar de o cessar-fogo provisório anunciado ontem (quarta-feira) ter trazido algum alívio aos mercados financeiros, a incerteza quanto à estabilidade das cadeias de abastecimento deverá persistir nos próximos meses, mantendo o setor das feiras e mercados numa posição de extrema vulnerabilidade.