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Paços de Ferreira
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D. Linda Martins: A menina das agulhas de caruma que cura a solidão em Seroa [Paços de Ferreira] através do crochet

Aos 65 anos: "faço 66 em março", corrige prontamente, Ermelinda [Linda] Martins recusa o rótulo de velha. Mas, é em Seroa, Paços de Ferreira, numa sala cheia de seniores, que a mulher que aprendeu a fazer crochet com caruma de pinheiro encontra o seu propósito.

Entre o passado de quem vendeu renda para comprar o enxoval e o presente de quem ensina para combater a solidão, esta é a história de umas mãos que nunca pararam.

Quando a responsável da Associação Paços 2000 a abordou, depois de a ver numa feira de artesanato, o convite apanhou-a desprevenida. "Olhe, você era boa, mas era para ir ver os nossos seniores", disseram-lhe. A resposta de Ermelinda, ou Linda, como é carinhosamente tratada, foi um disparo de vitalidade: "Mas, eu não sou sénior, não sou velha!".

Aos olhos da burocracia, a idade podia estar lá, mas o espírito não condizia. Insistiram. Precisavam de alguém que tivesse ideias, que ajudasse, que convivesse. E Linda, que tem nas mãos a memória de uma vida inteira entrelaçada em linhas, aceitou. Atualmente, as suas segundas-feiras têm morada fixa: o Centro de Dia em Seroa, Paços de Ferreira.

Lá, espera-a um grupo de nove senhoras, com idades entre os 70 e os 80 anos. São mulheres muitas vezes sozinhas, para quem aquele dia da semana é uma bóia de salvação. "Quando foi agora no Natal, estas duas semanitas que não fomos, elas disseram: ‘já estávamos com saudades de vir para aqui, ao menos para sair de casa’", conta Linda. O crochet é o pretexto; a terapia é o convívio.

Das fugas no recreio às "touquinhas da cruzada"

Para perceber a mestria com que Linda ensina, é preciso recuar quase sessenta anos, até Penamaior. Linda tinha seis anos e a escola ficava, convenientemente, em frente à casa da sua madrinha Rita.

Enquanto as outras crianças brincavam, Linda tinha outros planos. "Eu fugia no recreio e ia para a beira da minha madrinha", recorda, com um brilho nos olhos. A madrinha sentava-se nos degraus da escada a fazer o que na altura chamavam de "touquinhas da Cruzada": uns pequenos barretes brancos, semelhantes aos do Papa ou à quipá dos judeus, usados pelos meninos nas procissões religiosas. "Eram os meninos da cruzada: um levava o cordeirinho na mão e os outros agarravam numa fitinha".

Linda, pequenina, pendurava-se no portão: "Ó madrinha, eu gostava de fazer". O portão abria-se e a semente ficava plantada. Mas, havia um problema: nos anos 60, numa aldeia, não se ia simplesmente à loja comprar material. "Antigamente, não havia agulhas... ou se havia, eram caras e raro encontrar. Só quem ia ao Porto é que trazia".

A solução de Linda foi a prova da sua vocação. Em frente à escola havia um monte com pinheiros. A menina corria para lá e apanhava o "erguiço" (a caruma seca). Chegava a casa, pedia um cone de linhas à mãe e tentava fazer a arte com os paus de caruma. "Só que eles partiam muito, porque eram secos. Tinha de ser devagarinho".

Foi o pai quem, ao ver a filha de sete anos naquela luta inglória, resolveu a questão com engenho e amor. "Tu estás a fazer crochet com isso?", perguntou ele, admirado. "Deixa estar que eu para a semana tenho de ir ao Bolhão buscar as carnes para as festas... eu trago-te uma". Contudo, o pai não esperou pela ida ao Porto. Foi à oficina, pegou em varetas velhas de guarda-chuva e, no esmeril, afiou-as até as transformar em agulhas.

"Comecei a ganhar paixão e nunca mais parei."

Noites em branco, agulhas partidas e o enxoval

A paixão depressa virou um modo de vida e uma forma de afirmação. Aos nove anos, quando nasceram as irmãs gémeas, Linda achou que podia fazer melhor do que o que via. Pegou na ideia daquelas "casaquinhas de maternidade", sentou-se à máquina de costura da mãe e tentou replicar. "Nesse dia, parti para aí cinco agulhas, mas fiz uma casaquinha para cada uma", diz com orgulho.

Cresceu a ser a "inventora" da família, a única de dez irmãos que vibrava com as linhas. A sua juventude foi vestida pelas próprias mãos. "Os meus casacos de namorar e tudo... eram feitos por mim". A 'vaidade' e a determinação não tinham horário. Se cismasse que a irmã deveria levar um vestido novo à missa de domingo, "estava toda a noite a costurar", para ela o estrear na manhã seguinte.

Mais tarde, já mãe, essa determinação manteve-se intacta. Quando o filho foi batizado em dezembro, e perante a falta de um agasalho adequado para a cerimónia, Linda não dormiu. "Comprei dois novelos de algodão e estive toda a noite a fazer o casaco para levar ao batizado".

Mas, o crochet não era apenas fascínio; era sustento e futuro. Foi ponto a ponto que Linda construiu a sua vida adulta. "Fiz bastante crochet para comprar o meu enxoval para quando fui casar", recorda. "Vendi a renda para comprar os lençóis e a louça".

Dos "paninhos" para os camiseiros aos biquínis de praia

Se antigamente o crochet servia para vestir a casa, agora Linda prova que a arte não tem limites. "Faço pulseiras, colares, biquínis, saídas de praia, vestidos para nós", enumera, desfazendo a ideia de que o crochet parou no tempo.

Ainda assim, a memória de Linda guarda com carinho a função original destas linhas de algodão, bem distintas da malha do tricô. Eram tempos em que as casas se enfeitavam com rigor: "Com o algodão fazíamos aqueles paninhos de renda para pôr em cima das cómodas, em cima dos camiseiros, e coisinhas para as casas de banho".

Uma versatilidade que a acompanha desde sempre. Se não havia moldes, inventava-se. "Às vezes, tirávamos amostras pelos panos de umas colegas. Outras vezes, a gente começava a fazer e inventava pontos", recorda, lembrando uma época em que a criatividade era a única ferramenta disponível.

"Aquilo pica": A missão no Centro de Dia

Hoje, o cenário é diferente. As gerações mudaram: "agora é os telemóveis, ninguém quer saber", lamenta, recordando as competições no recreio para ver quem fazia "mais rápido e melhor". Tentou passar o legado à filha, mas esta "não saía dos pontos abertos e fechados" e preferiu dedicar-se ao ponto cruz.

Ainda assim, em Seroa, o saber de Linda é precioso. Quando chegou ao grupo de seniores, encontrou vontade, mas pouca técnica. "Coitadinhas, elas faziam o que sabiam", diz com ternura. Havia quem estivesse a fazer cachecóis usando lã própria para tapetes de Arraiolos. "Aquilo não dava para usar, aquilo picava!".

Linda chegou para mudar isso. Não para ensinar o básico, porque "elas já sabiam mexer as mãozinhas", mas para ensinar os acabamentos, introduzir novas lãs, novos pontos, transformar um simples tapete de malha com um rebordo de crochet requintado. "Elas ficam orgulhosas quando terminam uma peça e dizem: ‘ui, eu não sabia isto, é uma boa ideia’".

Mais do que a técnica, Linda sabe que o que ali se faz é saúde. "É um ginásio para a cabeça", garante. É uma terapia que "renova o cérebro" e até ajuda quem tem artroses a não perder o movimento.

Todas as segundas-feiras, naquela sala da Associação Paços 2000, não se produzem apenas peças para vender ou oferecer. Produz-se companhia. Entre conversas sobre o passado e a partilha de dores e alegrias, Linda Martins, a menina que fazia agulhas de caruma, continua a tecer a sua história, agora entrelaçada na vida de outras nove mulheres que, graças a ela, se sentem menos sós.