Entre o passado de quem vendeu renda para comprar o enxoval e o presente de quem ensina para combater a solidão, esta é a história de umas mãos que nunca pararam.
Quando a responsável da Associação Paços 2000 a abordou, depois de a ver numa feira de artesanato, o convite apanhou-a desprevenida. "Olhe, você era boa, mas era para ir ver os nossos seniores", disseram-lhe. A resposta de Ermelinda, ou Linda, como é carinhosamente tratada, foi um disparo de vitalidade: "Mas, eu não sou sénior, não sou velha!".
Aos olhos da burocracia, a idade podia estar lá, mas o espírito não condizia. Insistiram. Precisavam de alguém que tivesse ideias, que ajudasse, que convivesse. E Linda, que tem nas mãos a memória de uma vida inteira entrelaçada em linhas, aceitou. Atualmente, as suas segundas-feiras têm morada fixa: o Centro de Dia em Seroa, Paços de Ferreira.
Lá, espera-a um grupo de nove senhoras, com idades entre os 70 e os 80 anos. São mulheres muitas vezes sozinhas, para quem aquele dia da semana é uma bóia de salvação. "Quando foi agora no Natal, estas duas semanitas que não fomos, elas disseram: ‘já estávamos com saudades de vir para aqui, ao menos para sair de casa’", conta Linda. O crochet é o pretexto; a terapia é o convívio.

![D. Linda Martins: A menina das agulhas de caruma que cura a solidão em Seroa [Paços de Ferreira] através do crochet](https://asset.skoiy.com/averl1d84frvz2zb/6ucyo20adgyy.jpeg?w=1560&q=80&crop=1600,900,0,83)