logo-a-verdade.svg
Castelo de Paiva
Leitura: 9 min

Acelerando rumo ao topo europeu: Ricardo Caetano e a paixão inabalável pela Moto 4

Quando Ricardo Caetano conquistou o 1.º lugar da Geral na categoria Quad (Moto 4) na "ESC ONLINE Baja TT Montes Alentejanos", as pistas de Beja testemunharam não apenas o triunfo de um piloto, mas a consolidação de um sonho que começou a ser desenhado há quase duas décadas, no concelho de Castelo de Paiva.

Redação

 O piloto paivense, apoiado pela Associação Aventuras de Paiva e homenageado publicamente pelo município, participa no Campeonato Português de Todo-o-Terreno (CPTT) e prepara-se para voos europeus.

Mas a viagem até ao topo do pódio foi feita de superação, pausas forçadas e, acima de tudo, de uma resiliência movida a gasolina. Em entrevista, Ricardo Caetano abre o livro da sua vida desportiva, desde os primeiros passos "clandestinos" até à porta do Campeonato Europeu, desmistificando os perigos e a magia das quatro rodas.

A paixão adiada até à maioridade

Para Ricardo, a paixão pelos motores não caiu do céu; é herança genética. “Vem de família. Os meus tios, são todos vendedores deste tipo de veículos", revela. Contudo, a vontade de acelerar chocou de frente com a cautela parental. “Participo essencialmente no campeonato nacional de todo-o-terreno, sempre de moto 4 (...) desde os meus 18 anos, porque antes, por razões familiares, não andava. Quando eram os meus pais a mandar,  não podia conduzir uma moto 4 porque não deixavam”, confessa o piloto.

Foi preciso atingir a maioridade e usar de muita “insistência” para convencer os pais a comprar a sua primeira moto 4. A partir daí, o talento natural, ou aquele “ADN” que Ricardo admite ter herdado, começou a sobressair. “Comecei a andar de Moto 4 por aqui, com os meus amigos, e toda a gente dizia (...) que tinha perfil para a coisa".

A estreia surpreendente e o primeiro título

A entrada no mundo da alta competição aconteceu em 2009, quase por empurrão. Um amigo, desafiado por um piloto experiente, lançou-lhe o repto: “Tu tens jeito para isto, tens de fazer uma corrida”. E assim foi. A estreia deu-se no Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno, bem perto de casa, no Marco de Canaveses.

“Eram uns 70 ou 80 pilotos na altura, e destaquei-me logo com uma moto inferior, onde fiquei nos 20 primeiros lugares”, recorda Ricardo. O desempenho não passou despercebido. Um amigo incentivou-o a investir numa "moto igual às nossas, uma moto potente".

No ano seguinte, em 2010, o piloto paivense atirou-se de cabeça ao campeonato na totalidade, assumindo os enormes riscos financeiros. “Fiz por minha conta e risco (...) através do meu mecânico, que era o atual presidente da junta aqui agora de Bairros, o Bruno. Ou seja, não percebia nada de motos, era só ir para meter gasolina, mais nada”, brinca. O resultado foi histórico: “Nesse ano, consegui logo ser campeão nacional da classe promoção”.

Os custos astronómicos e o regresso triunfal

Apesar do talento inegável, o desporto motorizado é implacável com as carteiras. Ricardo expõe a dura realidade: “Nunca fiz campeonatos na totalidade porque os custos são muito avultados. Estamos a falar de que se gasta dois a três mil euros de despesas por corrida, com inscrições e pneus”.

O piloto é perentório sobre a elitização do desporto: “Não é só saber andar de moto, se não tiveres um apoios, (...), não consegues lá chegar".

Após um acidente em 2012 que o afastou das pistas por meio ano, Ricardo fez apenas corridas esporádicas. A reviravolta aconteceu no ano passado, quando a estabilidade pessoal e familiar permitiu o regresso. “Agora tenho a minha vida estável, já tenho a vida com outro pensamento. Mas é a minha paixão, vou fazer o campeonato”.

O regresso foi demolidor. Fez pódio (3.º lugar) na mítica prova de Portalegre e, na estreia das Moto 4 na Baixa do Norte, venceu. “Sou o detentor da única Taça de Portugal Todo-o-Terreno na classe Moto 4 que até à data de hoje foi feita em Portugal”. Como se não bastasse, sagrou-se vencedor, a solo, nas exigentes 6 Horas de Fronteira. “Se me perguntas como, nem eu não sei muito bem, mas venci”, admite com genuína humildade.

O Europeu: "A Liga Europa" do Todo-o-Terreno

O excelente desempenho atraiu, finalmente, o apoio estrutural que faltava. Através da amizade com um piloto de autos, surgiu o convite da Prestige Works para atacar o Campeonato Português e Europeu. A resposta à aposta foi imediata: o 1.º lugar na recente prova em Beja.

O calendário agora é aliciante. Com a prova de Castelo Branco adiada para outubro, o foco vira-se para a Baixa Norte (1 a 3 de maio) e, logo a seguir, a grande aventura internacional. “Seguimos logo para o Europeu, em Espanha (...) e uma corrida ou outra da Europa, uma em Itália. Vamos, no final, fazer as contas para ver se conseguimos o tão desejado título”.

Para Ricardo, a idade madura não é um entrave. Embora admita que não imaginava estar a este nível, a motivação está no auge. “Para quem gosta disto, é um simples sonho. Como o Dakar é a Liga dos Campeões deste desporto, o Europeu é tipo a Liga Europa".

O treino: Muito além de andar de moto

O sucesso de Ricardo Caetano não assenta apenas no talento. A Moto 4 exige uma preparação física e técnica rigorosa. “Para mim o treino é andar de moto, não é ir para o ginásio, fazer piscinas... ajuda, claro, mas se tu não treinares de moto, nunca lá chegas”, defende.

Atualmente, Ricardo conta com a ajuda de um ex-piloto experiente que lhe prescreve treinos específicos. A altitude, a resistência e a mecânica são fatores cruciais. “Treinar em altura é super bom, tanto para mim como para a moto, porque a moto perde potência lá em cima”, explica. Os treinos variam entre testes de resistência pura — “andar ali 3 ou 4 horas sem parar, sempre a 50 km/h” — e mangas intensas de meia hora num circuito fechado.

A afinação da moto dita o sucesso. “A moto em Beja, nós já sabemos (...) tem mais retas, então pomos a moto a dar mais velocidade de ponta. Se a corrida for em Góis, que é curva contra curva, ou aqui no Norte, eu já ponho a moto mais curta, que é para ser mais rápida a sair da curva”.

O perigo real da Moto 4: Um alerta do campeão

Apesar do amor incondicional à modalidade, Ricardo Caetano é honesto quanto aos perigos inerentes à Moto 4. Contrariando a falsa sensação de segurança das quatro rodas, o piloto avisa: “Sinto que há menos acidentes de moto 4 (...) cai-se muito mais vezes de moto de duas rodas. Mas quando se cai de moto 4, normalmente é mais perigoso”.

O perigo reside na física e no excesso de confiança. “Tu vais agarrado à moto, quando cais e te embrulhas na moto, a probabilidade da moto cair por cima de ti é muito grande. Depois, atinges velocidades enormíssimas (...) porque nas curvas, enquanto numa moto de duas rodas desaceleras e travas, numa moto 4 tu não tens essa necessidade (...) seguras-te em cima da moto”.

Ricardo recorda com pesar a perda de um colega num acidente fatal, sublinhando que o maior perigo não está no iniciante temeroso, mas no momento em que “pensamos que já sabemos andar”.

Para terminar, o piloto deixa um conselho vital para os entusiastas da modalidade: “Acho que a Moto 4 é um bom veículo de passeio (...) Não acho que seja boa para andar na estrada a fazer o dia a dia, é muito perigosa. Mas usufruam da Moto 4 para passeio, façam bonitos passeios nas nossas serras. Nós vivemos num país e numa região onde podemos usufruir de coisas incríveis... a Rota Norte, Castelo de Paiva, Penafiel, Marco de Canaveses, Serra do Marão. Temos sítios incríveis”.

Com a promessa de cautela e a dedicação ao treino, Ricardo Caetano prepara-se para levar o nome de Castelo de Paiva às pistas da Europa, provando que, sobre quatro rodas, os sonhos de juventude nunca prescrevem.