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Opinião
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Opinião: Quedas em idosos

Envelhecer com saúde significa manter autonomia, segurança e qualidade de vida. No entanto, um dos principais desafios enfrentados pelas pessoas idosas é o risco de cair.

Redação

As quedas e as lesões que delas resultam representam um importante problema de saúde pública e um significativo desafio social nos países com elevado envelhecimento populacional. Geralmente, ocorrem devido à perda do equilíbrio postural e podem estar associadas tanto a alterações primárias do sistema osteoarticular e/ou neurológico como a condições clínicas adversas que comprometem, de forma secundária, os mecanismos responsáveis pela estabilidade e pelo equilíbrio.

Dessa forma, a queda pode constituir um evento sentinela, indicando o início de um declínio da capacidade funcional, ou manifestar-se como sintoma de uma nova doença. Embora a definição de queda varie entre autores, uma formulação abrangente descreve-a como “um evento que resulta no posicionamento inadvertido da pessoa no solo, chão ou em qualquer outro nível inferior” (OMS, 2021).

Em todo o mundo, as quedas, são a segunda principal causa de morte por lesões não intencionais. Estima-se que 684.000 pessoas morram anualmente em decorrência de quedas no mundo, das quais mais de 80% ocorrem em países de baixa e média renda. Adultos com mais de 60 anos são os que sofrem o maior número de quedas fatais. A cada ano, ocorrem 37,3 milhões de quedas graves o suficiente para exigir atendimento médico (OMS, 2021).

Sabendo que, as quedas e a gravidade das lesões que delas advém, aumentam com a idade e havendo cada vez mais idosos, prevê-se que o número de quedas e lesões delas resultantes aumente nos próximos anos.
Perguntas simples podem ajudar a identificar quem necessita de avaliação mais aprofundada:

A pessoa caiu no último ano?
Já teve episódios de quase queda?
Sente instabilidade ao caminhar?
Tem medo de cair?
Sente tontura ao levantar?
Sente fraqueza nas pernas?
Tem dificuldade em subir escadas?
Usa medicação sedativa?
Tem alteração visual significativa?
Sente dificuldade em se levantar de uma cadeira?
Usa auxiliares de marcha?
Tem necessidade frequente de apoio?
Se a resposta for positiva para qualquer uma dessas questões, é importante procurar
ajuda especializada (por ex.: médico de família) para investigar a marcha, o equilíbrio e
outros factores de risco.
Embora muitas vezes sejam tratadas como acidentes inevitáveis, as quedas não fazem
parte do processo normal do envelhecimento. Na maioria das vezes, elas estão
associadas a factores de risco identificáveis e potencialmente modificáveis. Estudos
epidemiológicos identificaram inúmeros factores de risco para quedas, revelando o seu
carácter multifactorial. Estes podem ser classificados como intrínsecos (isto é,
originários da própria pessoa) ou extrínsecos (isto é, originários de fora do corpo).

Factores intrínsecos
- sarcopenia
- alterações da marcha
- distúrbios de equilíbrio
- déficit visual ou auditivo
- comprometimento cognitivo
- doença de Parkinson
- neuropatia periférica
- hipotensão ortostática (queda de pressão ao levantar-se)

- osteoporose
- depressão
- polimedicação (mais de três e em especial benzodiazepinas, antipsicóticos e
antidepressivos)
- desnutrição
- deficiência de vitamina D
- medo de cair

Factores extrínsecos (Modificáveis)
• tapetes soltos
• iluminação inadequada
• ausência de corrimãos
• pisos escorregadios
• obstáculos no chão
• calçado inadequado
• ausência de barras de apoio no WC
• barreiras arquitetónicas

A presença simultânea de múltiplos factores aumenta exponencialmente o risco. O reconhecimento precoce dos factores de risco, associado a intervenções clínicas e ambientais, pode reduzir significativamente a incidência de quedas e suas consequências.

As quedas representam um dos maiores desafios de saúde pública, especialmente para a população idosa, devido ao seu impacto multidimensional, abrangendo tanto aspetos físicos como psicológicos e sociais. Elas podem trazer consequências importantes para a saúde do idoso, como:

- Fracturas, especialmente do fémur
- Internamentos hospitalares
- Perda de mobilidade

- Dependência para actividades diárias
- Redução da qualidade de vida
- Maior risco de mortalidade
- Isolamento Social
- Medo de cair novamente

O medo de cair pode levar o idoso a reduzir as suas actividades físicas e sociais, o que aumenta ainda mais a fraqueza muscular e o risco de novas quedas.

A prevenção de quedas é essencial para promover a segurança, a autonomia e a qualidade de vida, sobretudo entre pessoas idosas. As estratégias de prevenção envolvem uma abordagem multidimensional, que inclui a identificação dos factores de risco, a promoção de hábitos de vida saudáveis e a implementação de medidas que
reduzam a probabilidade de ocorrência de quedas.

Intervenções recomendadas

- revisão medicamentosa
- alimentação adequada
- correcção de déficit visual e auditivo
- tratamento de hipotensão ortostática
- tratamento da osteoporose
- capacitação de cuidadores
- adaptação do ambiente doméstico
- treino de força e equilíbrio
- estratégias adequadas de resposta pós-queda

Actualmente, as tecnologias digitais e os dispositivos inteligentes também têm vindo a desempenhar um papel crescente na prevenção de quedas, através da monitorização do movimento, da detecção automática de quedas e da emissão de alertas para cuidadores ou profissionais de saúde.

Estas soluções são utilizadas em hospitais, lares e casas de idosos, sendo também objecto de investigação em vários projectos europeus e portugueses. Como exemplo temos, entre muitos outros:

- SilverFit: Sistema de exercícios digitais interactivos (exergames) usado em lares e centros de reabilitação.
https://www.silverfit.com/en/
https://www.silverfit.org.uk/senior-workout-videos/

- KOKU App (Keep on Keep up): Aplicação móvel criada no Reino Unido para
prevenção de quedas em idosos.
https://kokuhealth.com/for-older-adults/
https://www.youtube.com/watch?v=UKbZ4r88z3Q

- OneStep: Plataforma digital que transforma o smartphone num laboratório de
análise da marcha.
https://onestep.co/

Envelhecer não é sinónimo de adoecer. Embora o envelhecimento traga alterações fisiológicas que podem comprometer o equilíbrio e a estabilidade postural — pilares da independência —, as quedas não devem ser aceites como inevitáveis, apesar do seu perigo.

Estudos comprovam que programas preventivos que combinam exercícios de fortalecimento, revisão medicamentosa e adaptação do meio envolvente são fundamentais para preservar a autonomia e a qualidade de vida.

Cabe a cada um de nós, em articulação com os profissionais de saúde, capacitar o indivíduo, a família e a comunidade. As nossas intervenções devem ser personalizadas, focando-se nas necessidades reais para promover um envelhecimento activo e digno.

Bibliografia:
Organização Mundial da Saúde - Falls: Fact sheet, 26 de Abril 2021. Disponível em:
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/falls

Organização Mundial da Saúde - Ageing and health, 1 de Outubro 2025. Disponível em:
https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/ageing-and-health

Organização Mundial da Saúde - World health statistics 2025: Monitoring Health for the
SDGs, Sustainable Development Goals, 2025. Disponível em:
https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/c992fbdc-11ef-43db-a478-
7e7a195403ae/content

Organização Mundial da Saúde - Step Safely: Strategies for Preventing and Managing Falls Across the Life-Course. Geneva: World Health Organization, 2021.
Organização Mundial da Saúde - Integrated Care for Older People (ICOPE): Guidance for Person-Centred Assessment and Pathways in Primary Care. World Health Organization, 2019.

Organização Mundial da Saúde - Evidence Profile: Risk of Falls—Integrated Care for
Older People. World Health Organization, 2017.

Manuel Montero-Odasso, et al.- World Guidelines for Falls Prevention and Management for Older Adults: A Global Initiative. Age and Ageing, Volume 51, Issue 9, afac205,
September 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1093/ageing/afac205

Harwood RH. - Editorial: The World Falls Guideline. Age Ageing; 51(10), afac229, 2022
Oct 6. doi:10.1093/ageing/afac229. PMID: 36309976. Disponível em:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36309976/

Câmara Municipal do Porto - Guia Prático de Prevenção do Risco de Acidentes e de
Quedas.1a edição, Maio de 2025.

U.S. Centers for Disease Control and Prevention (CDC) - Older Adult Falls Data. 28
Outubro 2024. Disponível em: https://www.cdc.gov/falls/data-research/index.html

Ministério da Saúde - Programa Nacional de Prevenção de Acidentes. Projeto: COM MAIS CUIDADO - Prevenção de acidentes domésticos com pessoas idosas. Manual de Apoio e Formulário. Lisboa: Direção Geral da Saúde e Fundação MAPFRE, 2012.

Universidade do Estado do Pará - Guia de orientação para a prevenção de queda da pessoa idosa – Costa, Camylla Celly Pimentel et al. Belém: UEPA, 2024.

Cáritas Diocesana de Coimbra - Manual de Boas Práticas: Prevenção de Quedas em Idosos – Almeida, A. et al., Coimbra.

Por: César Augusto Coelho de Sousa, enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação a exercer funções na Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa, na UCC de Lousada e, em regime de prestação de serviços, na Santa Casa da Misericórdia do Marco de Canaveses.