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Marco de Canaveses
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Aos 87 anos, Isaura da Conceição e o filho não deixam que a tradição das Batatas Raladas desapareça da mesa 

Numa época em que as tradições familiares se diluem na correria do quotidiano, há rituais que resistem ao tempo.

Redação

Em casa de Isaura da Conceição Pinto, de 87 anos, a mesa do dia 24 de dezembro só tem sentido com um prato que atravessa gerações: as batatas raladas. Há mais de seis décadas que este é o sabor que anuncia o Natal.

A história começa na infância de Isaura, quando aprendeu a receita com a mãe. Um compromisso simples, mas profundo, nasceu então: nunca deixar que aquele prato desaparecesse da família. Prometeu e cumpriu. Quando se casou, levou consigo não apenas a receita, mas a dedicação paciente que lhe dá vida.

O processo é, como descreve o filho Fernando, “trabalhoso e feito com paciência, a lume brando”. Primeiro, as batatas são cozidas e transformadas em puré. Depois, voltam a cozinhar na mesma água, num movimento contínuo que exige atenção constante. É aqui que entra o bacalhau, cuidadosamente desfiado, seguido de um estrugido aromático que perfuma a cozinha.

O segredo? Mexer sempre, para que não se formem os temidos “torrões”. E juntar água aos poucos, na medida exata para que a textura permaneça cremosa, sem perder consistência. Um gesto repetido ano após ano, agora partilhado entre mãe e filho.

Quando sobra, e muitas vezes sobra de propósito, o prato renasce no dia seguinte, aquecido com um generoso fio de azeite, tornando-se ainda mais saboroso. E, como não podia faltar numa boa receita portuguesa, o toque final está na salsa fresca, finamente picada, que completa não só o prato, mas também a memória afetiva que o acompanha.

As batatas raladas de Isaura são mais do que comida. São uma herança viva, passada de mão em mão, de panela em panela, de Natal em Natal. Uma tradição que prova que, na cozinha, o tempo não é inimigo e transforma-se no ingrediente principal.