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Cinfães
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“Faz bem à alma, mas não à carteira”: Carlos Costa e o dom de esculpir pinhas e canas em Ferreiros de Tendais

Há mais de uma década que Carlos Alberto Monteiro da Costa descobriu a sua verdadeira vocação artística nas coisas mais simples da natureza e do quotidiano.

Redação

 Nascido a 30 de março de 1955 na freguesia de Ferreiros de Tendais, no concelho de Cinfães, este artesão amador dedica os seus dias a transformar pinhas, canas e molas da roupa em autênticas obras de arte, destacando-se na criação de peças religiosas e alusivas a quadras festivas.

Apesar da inegável minúcia e do talento patentes em cada detalhe, o percurso de vida do Sr. Carlos esteve sempre distante do artesanato ou das artes plásticas. Quando questionado sobre se o seu trajeto profissional o havia preparado para este passatempo, a resposta surge com humildade e franqueza: "Tive muitas profissões, mas nenhuma ligada a isto."

O Despertar de um Dom entre Pinhas e Canas

A história deste passatempo singular começou há mais de dez anos, fruto de um regresso às origens e de um olhar mais atento à natureza envolvente. Uma simples visita à sua terra natal serviu de faísca para despertar a criatividade que hoje preenche os seus dias.

"Quando vim à terra, levei umas pinhas comigo e comecei a inventar", recorda o artesão. "A primeira peça que criei foi uma árvore de Natal. Construí a armação e depois fui acrescentando os detalhes."

A partir dessa primeira árvore, a imaginação deixou de ter limites. Atualmente, o Sr. Carlos é conhecido por esculpir um pouco de tudo, desde elaboradas cruzes com a figura de Jesus Cristo a complexos presépios.  

"Já fiz de tudo um pouco. Até um berço em pinhas construí, utilizando bambu, canos e toalhas", explica. Detalha que, embora use materiais comprados, como as molas da roupa, a base do seu trabalho assenta no que a terra lhe dá. A matéria de eleição não engana: "O segredo está nas pinhas pequeninas. Não podem ser das grandes. (...) O trabalho tem de ser feito mesmo com estas."

A sua versatilidade permite-lhe transcender o próprio imaginário, aceitando de bom grado os desafios que lhe lançam: "Se me pedirem uma peça específica e me fizerem um esboço, eu dou um jeito e faço."

O Peso do Trabalho: 4 Quilos de Cola e Muita Paciência

A edificação destas peças, especialmente as de maior envergadura, exige uma imensa paciência e uma dedicação que não se mede apenas em horas, mas também em volume de material. Ao falar sobre as suas obras mais complexas, o artesão revela a dimensão do esforço envolvido, confessando que perde facilmente a noção do tempo.

"Perco a noção do tempo. Vou fazendo aos poucos, paro um bocado, recomeço... Só para ter uma ideia da dimensão, chego a gastar quatro quilos de cola quente numa peça grande!"

O trabalho é estritamente meticuloso e obriga a pausas de descanso. As mãos são o seu principal instrumento de precisão, mas são também a parte do corpo que mais acusa o desgaste das exigentes horas de colagem e montagem.

O Valor Incalculável do Altruísmo: Uma Arte para Oferecer

Num mundo onde tudo tem um preço, o Sr. Carlos rema no sentido oposto. Apesar da inegável beleza das suas cruzes, árvores e presépios, o lucro nunca foi o objetivo. A contabilidade do vasto espólio que já produziu perdeu-se no tempo, mas o destino das peças é religiosamente o mesmo: as mãos de outras pessoas.

"Já ofereci muitas peças. Gasto o meu tempo e dinheiro nos materiais para depois oferecer. Praticamente tudo o que faço é para dar."

Embora guarde algumas das suas criações para si, o verdadeiro prazer do artesão reside na partilha. A comercialização, explica, acabaria por desvirtuar o propósito do passatempo. Para o Sr. Carlos, o público em geral não compreende o custo invisível embutido em cada pinha colada à mão.

"Se alguém quiser comprar, é difícil dar um preço. As pessoas não sabem o verdadeiro valor do trabalho. Se fosse contar as horas que ali passo, seria um valor muito alto. Faço isto por gosto, é diferente."

Esta generosidade intrínseca reflete-se no seu dia a dia. Recordando um episódio recente, partilha como decidiu presentear uma trabalhadora que higienizava a rua junto à sua casa: "Uma cantoneira andava aqui em baixo a limpar a rua, e eu chamei-a: 'Olhe, logo à tarde passe lá por casa, que lhe vou dar uma cruz com um Cristo'."

Terapia para a Mente, Desgaste para a Carteira

As inspirações moldam-se consoante a época do ano. Quando o Natal se aproxima, o estúdio ao ar livre transforma-se. "Nesta altura dedico-me às peças de Natal. Faço as coroas e outros enfeites, dando-lhes o acabamento com aquelas tintas em spray que fazem espuma."

Trabalhar com as mãos, esculpindo a natureza para lhe dar formas de fé e celebração, tornou-se no grande refúgio do Sr. Carlos. Quando questionado sobre se este meticuloso passatempo lhe faz bem, o artesão de Ferreiros de Tendais não hesita, rematando com o humor pragmático de quem sabe exatamente o que o move: "Fazer bem, faz. Só não faz bem é à carteira!"

E é assim, entre a despesa generosa em quilos de cola quente e tintas em spray, que Carlos Alberto Monteiro da Costa continua a construir o seu legado. Uma obra que, não enriquecendo os seus bolsos, enriquece certamente as casas e os corações de todos os felizardos que recebem as suas peças, erguidas a puro amor e dedicação.