Em Portugal, o cancro colorretal é um dos mais frequentes e representa um importante problema de saúde pública. Estima-se que surjam cerca de 10.000 novos casos por ano no país e que a doença seja responsável por aproximadamente 4.800 mortes anuais. Trata-se de um dos cancros mais diagnosticados tanto em homens como em mulheres.
Tradicionalmente associado a idades mais avançadas, o cancro colorretal ocorre sobretudo a partir dos 50 anos, razão pela qual, o rastreio está recomendado entre os 50 e os 74 anos. No entanto, nos últimos anos tem-se verificado um aumento preocupante de casos em adultos mais jovens, com um crescimento da incidência em pessoas com menos de 50 anos.
Graças aos avanços no diagnóstico e tratamento, cada vez, mais pessoas sobrevivem ao cancro colorretal. Contudo, após o tratamento — particularmente quando envolve cirurgia ao reto — muitos doentes enfrentam consequências funcionais que podem ter um impacto profundo na sua qualidade de vida.
Estudos indicam que a intervenção precoce através de fisioterapia do pavimento pélvico, ainda antes da cirurgia colorretal, pode melhorar a função do esfíncter anal, preparar os músculos envolvidos na continência e permitir antecipar e minimizar possíveis repercussões funcionais no período pós-operatório. Esta preparação pré-operatória pode também favorecer a plasticidade neuromuscular, criando uma espécie de “memória funcional” do pavimento pélvico, o que pode facilitar a recuperação do controlo intestinal após a cirurgia.
Uma das complicações mais frequentes é a Síndrome da Resseção Anterior Baixa (LARS – Low Anterior Resection Syndrome). Esta condição caracteriza-se por sintomas como aumento da frequência das evacuações, urgência fecal, fragmentação das fezes, sensação de evacuação incompleta e, em alguns casos, episódios de incontinência fecal. Estas alterações podem afetar significativamente o quotidiano, levando muitas pessoas a limitar atividades sociais, profissionais ou mesmo, deslocações fora de casa devido ao receio de perda de controlo intestinal.
O impacto destas alterações continua ainda pouco discutido. Para muitos sobreviventes, a recuperação funcional do intestino torna-se um dos maiores desafios após o tratamento oncológico. É neste contexto, que a fisioterapia do pavimento pélvico desempenha um papel fundamental na reabilitação destes doentes. Através de uma avaliação especializada e de programas de fisioterapia pélvica personalizados, que o fisioterapeuta pode ajudar a melhorar o controlo intestinal, a coordenação muscular e a capacidade de resposta à urgência fecal. Entre as intervenções de fisioterapia utilizadas incluem-se exercícios específicos de consciencialização (ativação e/ou relaxamento) do pavimento pélvico, fortalecimento, treino de coordenação e controlo muscular, técnicas de biofeedback, educação para hábitos intestinais saudáveis e estratégias comportamentais para a gestão da urgência fecal.
A evidência científica demonstra que estas abordagens podem contribuir para a redução dos sintomas associados ao LARS e para uma melhoria significativa da qualidade de vida. Para muitas pessoas que sobreviveram ao cancro colorretal, a fisioterapia pélvica representa um passo essencial na recuperação da autonomia e da confiança no seu corpo. Mais do que tratar sintomas, trata-se de permitir que os sobreviventes retomem atividades do dia-a-dia, relações sociais e participação ativa na vida familiar e profissional.
No março Azul, é fundamental lembrar que sobreviver ao cancro é apenas parte do caminho. Garantir qualidade de vida após o tratamento deve ser também uma prioridade. A fisioterapia pélvica, baseada na evidência, pode fazer uma diferença real na vida de muitos doentes com cancro colorretal.
