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Marco de Canaveses
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José Oliveira: O rugido de um Supercar português que se prepara para invadir a Europa em 2026

A notícia abalou e entusiasmou o desporto motorizado nacional. José Oliveira, o atual Campeão Nacional de Rallycross na categoria Supercar e um dos nomes mais respeitados e titulados da modalidade em Portugal, confirmou que vai disputar a temporada completa do Campeonato da Europa de Rallycross (Euro RX1) em 2026.

Redação

Para José Oliveira o amor aos motores não é recente; é uma herança de berço. "Desde muito pequenino que o meu pai pegava em mim ao colo e punha-me a guiar no colo dele e eu a guiar no volante. Devia ter três, quatro anos. E ele trocava as mudanças e eu só ia ao volante".

As memórias de infância em Várzea do Douro são povoadas por máquinas, tratores e carros velhos. O espírito empreendedor (e desenrascado) manifestou-se cedo. "Vendia sacos de limões e laranjas para ganhar ali mil, dois mil escudos para gastar num bocadinho de gasolina, arranjava um carrito velho...Havia sempre aquela componente de mecânica, a gente arranjava os carros para dar uma voltinha".

A ascensão ao topo: de uma corrida "para matar o bichinho" ao domínio nos Supercars

O percurso competitivo de José Oliveira foi feito a pulso. Passou pelo Trial 4x4 no início dos anos 2000, mas a viragem decisiva aconteceu há cerca de cinco anos. Tinha alguns carros guardados apenas para "matar o bichinho" num estaleiro, até que decidiu fazer uma corrida de Rallycross em Lousada com o seu BMW.

"Gostei. Percebi que não tinha carro para aquilo que eu gostava de fazer. Fiquei com a ideia de algo mais", recorda. Essa ambição materializou-se na aquisição de um Peugeot 208, um autêntico "monstro" da categoria Supercar.

Os resultados não tardaram. Fez o campeonato completo pela primeira vez em 2022 e sagrou-se campeão. Seguiram-se anos de domínio interno (2023, 2024 e 2025) e as primeiras incursões em provas internacionais realizadas em Portugal. Foi aí que o "bichinho" europeu mordeu com mais força. "Correr contra pilotos melhores claro que noto logo uma diferença grande. Mas fundamentalmente gostei e dá-me ali aquela coisinha de: 'o tipo é melhor do que eu, tenho a noção disso, mas a gente queria ir atrás e tentar fazer sempre melhor e sempre mais'".

O desafio europeu: amadorismo com alma de profissional

O salto para o Campeonato da Europa de 2026 nasceu de uma provocação saudável de um amigo norueguês. "Desafiou-me a acompanhá-lo a fazer o campeonato europeu este ano. E eu disse que sim. E depois de dizer que sim, está dito".

Avançar para o Euro RX1 significa enfrentar os "tubarões" da modalidade. "Nós vamos defrontar-nos com pilotos profissionais, que a vida deles é esta mesmo, não fazem mais nada. E nós continuamos a ser amadores, à segunda-feira é dia de trabalho", sublinha o campeão português. No entanto, o amadorismo da sua equipa é apenas no estatuto: "Tentamos ser o mais profissionais possível".

A ambição existe, mas a humildade prevalece. "Se me perguntar se eu quero ser campeão europeu, claro que quero. Mas tenho a perfeita noção de onde é que nós nos encaixamos e o que é que é possível fazer".

A logística como o grande adversário

Curiosamente, para esta nova aventura europeia, o maior obstáculo não está no motor do Peugeot 208, mas na logística de uma competição com seis etapas espalhadas pelo continente.

"Os nossos maiores desafios neste momento são logísticos", explica José Oliveira. O plano é enviar o carro, ferramentas e peças suplentes no início da época, com a frota a regressar a Portugal apenas para a última prova, em Lousada. "O nosso desafio é no sentido de termos tudo preparado para ficar o mais barato possível e nos permitir estar no nosso melhor em cada etapa".

A decisão de entrar no Europeu foi tomada em conjunto com a sua equipa, um grupo unido pela amizade e pela paixão. "Houve um dia em que quis reunir com eles. Disse: 'olha, tenho este plano o que é que vocês acham? Quem é que está interessado em acompanhar, em ajudar?'. Mas foi unânime. Sinto-me, pessoalmente, acarinhado".

A brutalidade do Supercar: dos 0 aos 100 km/h em 1,8 segundos

Pilotar um Supercar no Campeonato da Europa não é para qualquer um. José Oliveira terá de enfrentar traçados completamente novos. "Nestas provas que vamos disputar, eu pessoalmente nunca lá estive em nenhuma pista daquelas requerem algum estudo prévio dos traçados".

O nível de concentração exigido beira o sobre-humano, sobretudo devido à brutalidade das máquinas. "Estamos a falar de carros que são extremamente rápidos, quer em aceleração, quer em travagem, em que tudo acontece muito rápido mesmo. Só para teres uma noção, este carro faz dos 0 aos 100 em 1,8 segundos".

A exigência física é avassaladora. Numa manga que dura escassos três a quatro minutos, o desgaste é total. "As forças sobre o nosso corpo são tais que nós, em três minutos, com 20 graus de temperatura cá fora, saímos completamente transpirados a escorrer em suor. Em três minutos somos obrigados a dar tudo".

Apesar de tudo, José Oliveira garante estar sereno. "Não estou nervoso. Vou lutar todas as mangas por uma posição melhor, sem dúvida. Mas estou tranquilo. Claro que antes de arrancar a pressão está lá e vai haver um momento em que começa o friozinho na barriga, mas acho que de uma forma saudável".

O orgulho de uma região e o peso da bandeira

Como único representante português a tempo inteiro nesta dura competição, José Oliveira leva consigo o peso da bandeira, mas também uma enorme gratidão. O seu objetivo final não é apenas desportivo, é uma forma de agradecimento.

"Um obrigado muito grande, porque é um gosto e uma honra sentir isso [o apoio] (...) e a forma como posso fazê-lo melhor é dentro da pista, tentando conquistar o lugar mais alto possível (...) no fim do dia serei o único português inscrito e a representar a nossa bandeira por onde quer que seja. Certamente farei o meu melhor".

Longe dos holofotes mediáticos, mas focado no cronómetro, José Oliveira, o "menino" que "conduzia" no colo do pai em Várzea do Douro, prepara-se agora para mostrar à Europa a força do Rallycross português.