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Amarante
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Amarante investe 4,6 milhões de euros em nova frota de autocarros elétricos da Rodoamarante

O Município de Amarante e a Rodoamarante apresentaram esta sexta-feira, 22 de maio, no Cine-teatro, 11 novos autocarros 100% elétricos que renovam um terço da frota local.

Redação

O arranque de uma verdadeira revolução na mobilidade sustentável do concelho de Amarante foi assinalado esta sexta-feira com a apresentação oficial da nova frota ecológica da operadora Rodoamarante. A introdução destas 11 novas viaturas de transporte público, movidas a energia 100% elétrica, representa a renovação imediata de um terço de todos os veículos operacionais que servem atualmente o concelho, num investimento estratégico global de 4,6 milhões de euros.

A cerimónia, realizada no Amarante Cine-teatro, contou com a presença de autarcas, diretores escolares e representantes do tecido social e económico do distrito do Porto. O programa incluiu discursos institucionais, uma mesa redonda focada na sustentabilidade, uma atuação musical protagonizada pelo Conservatório de Amarante — sob a direção do Dr. Francisco Laranjeira — e uma viagem experimental num dos novos autocarros, ligando o Cine-teatro à Alameda Teixeira de Pascoaes.

Autarquia destaca ambição e investimento na descarbonização

A assunção de competências como Autoridade de Transportes por parte da autarquia, iniciada em 2021, colhe agora os resultados de um planeamento focado na eficiência energética. O presidente da Câmara Municipal de Amarante, Jorge Ricardo, recordou a coragem de assumir a gestão direta do setor, afirmando que “se Amarante ousou constituir-se como autoridade de transporte em 2021, rumo a uma oferta de mobilidade mais privada, mais eficiente, de modo a responder às reais necessidades do território, hoje Amarante acaba de dar o passo decisivo rumo a um concelho mais sustentado, moderno e eficiente”.

O líder do executivo detalhou o forte impacto orçamental da medida e a visão social que norteia estas políticas públicas de proximidade. “4,6 milhões de investimento, 11 viaturas elétricas. É com estes números que desenhámos uma nova realidade para Amarante. Trata-se de um passo significativo e um momento marcante para o futuro da mobilidade do nosso concelho”, sublinhou Jorge Ricardo, sustentando que “as políticas públicas só fazem sentido quando melhoram a qualidade de vida das pessoas”.

O autarca revelou que o município tem investido “nestes últimos anos cerca de um milhão de euros por ano em políticas de transporte”, o que permitiu criar respostas de proximidade como a linha dedicada Amarante-Vila Meã e a gratuitidade do passe para munícipes com mais de 65 anos.

Jorge Ricardo aproveitou ainda para desmistificar as dúvidas de alguns cidadãos quanto à robustez e dimensão dos autocarros elétricos: “os veículos que agora circulam aqui na cidade só têm mais um metro que o veículo que circulava. A configuração é diferente, há a imagem de um veículo mais robusto, mas o que se ganha em conforto, o que se ganha também em qualidade ambiental, acho que supera bem esse comprimento maior”.

Grupo Vale do Ave exige estabilidade financeira e regulatória para operadores

A operadora privada responsável pela concessão partilhou a exigência financeira e estratégica desta transição ecológica, desenvolvida em parceria estreita com o poder local. Fernando Salgado, CEO do Grupo Vale do Ave (que detém a Rodoamarante), afirmou que “o dia de hoje fica sem dúvidas na história do Concelho de Amarante e na região” e que o esforço de 4,6 milhões de euros, executado com o apoio do Fundo Ambiental, representa “uma clara aposta estratégica no futuro”. Segundo o empresário, o grupo assumiu o desafio de “abdicar de melhores resultados financeiros no curto prazo para construir valores saudáveis no médio e longo prazo”, somando já 88 viaturas 100% elétricas em operação, o que corresponde a 25% da sua frota global.

O responsável aproveitou a presença da tutela governamental para deixar um apelo premente em prol da estabilidade e sustentabilidade financeira das empresas de passageiros: “Para investir é necessário existir estabilidade. Às instituições públicas que tutelam a mobilidade e os transportes em Portugal, deixamos um apelo simples: previsibilidade, regras claras e cumprimento dos compromissos assumidos”.

Fernando Salgado advertiu que as medidas de gratuitidade social, como o Passe Jovem ou o Passe do Antigo Combatente, “representam avanços sociais importantes”, mas continuam a exigir “desafios significativos ao nível da operacionalização e da compensação financeira”, sendo vital garantir “mecanismos de financiamento céleres e sustentáveis, sob a pena de se colocar em causa a tesouraria e a capacidade de investimento dos operadores”. O CEO dirigiu ainda uma palavra de profundo agradecimento aos mais de 470 trabalhadores do grupo pelo profissionalismo e espírito de missão demonstrados diariamente.

Rodoamarante regista aumento sustentado de passageiros desde 2021

A evolução técnica e comercial da concessão amarantina demonstra uma trajetória de crescimento assinalável desde o seu arranque, operado num dos contextos mais complexos da história recente. O Diretor Geral do grupo, Sérgio Ferreira, recordou que a empresa iniciou atividade em 1991 e expandiu-se para Guimarães (2022), turismo (2025) e, este ano, para os Açores. No caso de Amarante, elogiou o tempo recorde de transição: “o concurso foi lançado no mês 4 de 2020, e no mês 9 de 2021 os autocarros estavam a comprar, com tudo devidamente articulado. Isto foi um tempo recorde, sobretudo num período onde vivíamos em plena pandemia”.

Os indicadores comerciais refletem a adesão maciça das populações locais ao transporte coletivo. Desde o início da concessão a um único operador, o volume de passageiros registou um aumento sustentado de 33%, atingindo em 2024 a marca dos 750 mil utilizadores anuais. Desse bolo estatístico, destaca-se a relevância de 18 mil utilizadores na linha que liga a cidade à estação ferroviária de Vila Meã.

Sérgio Ferreira apresentou o rácio de eficiência da operação na rede de 38 veículos: “iniciando com 0,72 passageiros por quilómetro em 2021, continuámos a crescer e hoje, por cada quilómetro, temos transportados 1,222 passageiros. Para aquilo que é o contexto de Amarante, é de facto um excelente número”, resultado de um trabalho coordenado de oferecer o serviço onde ele é estritamente necessário.

Mobilidade sustentável enfrenta desafios nos territórios de baixa densidade

O encerramento das intervenções técnicas deu lugar a uma reflexão estrutural sobre as assimetrias geográficas e a necessidade de romper com o estigma social associado à utilização do autocarro. O vereador com o pelouro dos transportes e da transição energética, Fernando Moura, sublinhou que a frota elétrica eleva a dignidade dos utentes, pretendendo-se que “andar de autocarro deixe de ser visto como uma alternativa de recurso e passe a ser um sinónimo de orgulho, modernidade e de cidadania consciente”.

O vereador analisou o “círculo vicioso” que penaliza o interior do país, onde “a falta de passageiros torna as rotas financeiramente inviáveis e a falta de transporte força a população a usar o carro”, impondo um esforço financeiro pesado nos orçamentos municipais. Fernando Moura partilhou dados do jornal Expresso que indicam que mais de 75% dos portugueses nunca ou raramente usa transportes públicos, e deixou alertas sobre a eficiência ambiental da transição. “Um autocarro a gasóleo quando circula com apenas duas, três ou quatro pessoas, emite mais CO2 por passageiro do que se essas pessoas viajassem num carro moderno e partilhado”, referiu, apontando que mobilizar veículos de grande porte para volumes mínimos de passageiros é energeticamete ineficiente, mesmo que o motor seja elétrico.

Perspetivando o futuro do setor no concelho, Fernando Moura propôs a discussão de novos modelos flexíveis para as zonas rurais: “em vez de termos nas nossas estradas autocarros com poucos utilizadores, se não faz sentido organizarmos serviços em função do número de pedidos através do transporte a pedido”. O vereador sugeriu ainda a introdução de veículos de menores dimensões no plano de transportes: “avaliar se não encontraríamos a resposta para as necessidades dos nossos utentes se passássemos a ter pequenas viaturas, como de nove ou dezasseis lugares. São mais baratas, gastam menos energia e são mais adequadas às estradas estreitas do interior”, apelando ao desenho de redes de mobilidade integrada.