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Marco de Canaveses
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“Tem muito que se lhe diga”: Berto conta como é ser coveiro em Constance

Abrir sepulturas exige rigor, cuidado e respeito por quem morreu e por quem fica. À aproximação do Dia de Todos os Santos, o Sr. Berto explica as dificuldades do ofício e a atenção diária que dedica ao cemitério de Constance.

Redação

Natural de Santo Isidoro e residente em Sobretâmega, o Sr. Berto divide o trabalho numa fábrica com a função de coveiro e a manutenção do cemitério de Constance. A ligação à freguesia consolidou-se através desta atividade, que aceitou assumir para ajudar a Junta de Freguesia.

Já prestava auxílio pontual ao anterior coveiro quando este deixou o cargo. Convidado pela Junta a dar continuidade ao serviço, aceitou a responsabilidade. Desde então, passou a acompanhar os funerais, a abrir sepulturas e a cuidar do recinto.

Ao percorrer o cemitério, mostra o trabalho realizado e explica os cuidados necessários para manter os acessos e as campas limpos. A presença no espaço faz parte da sua rotina, mesmo nos dias em que não há funerais.

O rigor de um trabalho pouco conhecido

Ao longo dos anos, Berto já abriu sepulturas em várias filas e secções do cemitério. O trabalho pode parecer simples a quem o observa de fora, mas garante que "tem muito que se lhe diga".

Quando as condições são favoráveis, consegue concluir a abertura de uma sepultura em cerca de duas horas. A tarefa exige cuidado ao retirar a terra, para evitar sujar as campas vizinhas, e ao levantar as lajes e os elementos decorativos, que devem ser preservados durante a escavação.

As dificuldades aumentam com a profundidade. "Quando há necessidade de escavar a três funduras, peço ajuda. Não é um processo complicado porque, até duas funduras, consigo retirar a terra de baixo para cima, sem estragar nada", explica.

A chuva é outro dos obstáculos. "Com a chuva, o trabalho é muito complicado. Nesses dias, a tarefa torna-se quase impossível", afirma. As condições meteorológicas podem dificultar a intervenção, mas os funerais continuam a exigir uma resposta.

O respeito pelos mortos e pelas famílias

O contacto com a morte faz parte do quotidiano de Berto. Algumas pessoas dizem-lhe, em tom de brincadeira, que não aceitariam desempenhar aquelas funções, independentemente do pagamento. Para o coveiro, lidar com ossadas e restos mortais exige sobretudo concentração e respeito.

"Não me arrepia por aí além. Causa sempre alguma impressão, mas sei que é no momento de intervir na sepultura que tenho de colocar toda a minha atenção", conta.

Entre as situações mais delicadas estão aquelas em que, ao abrir uma sepultura, verifica que a decomposição ainda não terminou. "Já abri sepulturas em que o corpo estava quase intacto. Quando assim é, aguardamos que o tempo faça a sua parte e o processo natural avance", relata.

Berto descreve também o cuidado colocado no acondicionamento e na nova sepultura dos restos mortais, referindo diferentes soluções, consoante a situação e a vontade manifestada pela família.

O acompanhamento de quem está de luto é outra dimensão do trabalho. "Para as famílias é sempre um momento difícil e muito doloroso verem os seus entes queridos ali", reconhece.

Cuidar do espaço e ajudar quem o procura

"Venho aqui todos os dias", afirma. Endireitar uma jarra tombada pelo vento, varrer o recinto ou verificar o estado das sepulturas são tarefas que vai realizando para manter o cemitério cuidado.

Segundo conta, as famílias e as pessoas que ali se deslocam para limpar as campas agradecem-lhe frequentemente pelo trabalho. Por vezes, deixam-lhe uma gratificação, mas Berto garante que não é essa a razão que o leva a desempenhar a função.

"Algumas pessoas dão uma gratificação, outras não. Mas não estou à espera de receber nada, porque não faço isto por dinheiro", sublinha.

A ajuda estende-se a outras necessidades relacionadas com as sepulturas, incluindo o contacto com quem executa os trabalhos em pedra. "As famílias pedem-me: ‘Senhor Berto, fale com o construtor do jazigo’. E eu ajudo, tirando logo as medidas", explica.

Uma rotina que também passa pela memória dos seus

Apesar da presença diária em Constance, Berto mantém o hábito de visitar o cemitério da sua terra natal, onde estão sepultados os pais e um irmão.

"Vou todos os fins de semana a Santo Isidoro, a nossa terra natal, visitar a campa dos meus pais e do meu irmão. São a minha família. O meu irmão mais velho faleceu com a Covid-19 e a minha mãe já partiu há 20 anos", partilha.

Com a aproximação do Dia de Todos os Santos, o trabalho em Constance intensifica-se para preparar o espaço para a visita das famílias. É uma altura de maior movimento, que se soma aos cuidados mantidos ao longo do ano.

Berto defende que todas as freguesias deveriam ter alguém dedicado à manutenção dos cemitérios. Quanto ao seu futuro, não aponta uma data para deixar a função: enquanto tiver forças e não houver quem o substitua, pretende continuar a cuidar do cemitério de Constance.